Portugal é o 5.º país mais envelhecido do mundo — e a culpa não é dos jovens

"Somos uma geração consciente, cautelosa e acima de tudo escaldada", escreve a millennial Ana Teresa Santos. Leia a crónica.

Se muitos ainda não tivemos sequer a capacidade de sair da casa dos nossos pais, como é que podemos já pensar em constituir família?

Max Goncharov/Unsplash

É assustadora esta redução da taxa de natalidade e as grandes causas disto são: Os jovens são pais cada vez mais tarde e os números da emigração maiores.

Novidades? Imagino que nenhumas para qualquer um de nós.

Somos o reflexo de mandatos anteriores, fizemos o que outrora nos impingiram “emigrem, dar-vos-emos tudo para encontrarem fora o que aqui não vos proporcionamos”.

Quanto aos jovens, afinal, o que é que querem mais de nós? Somos uma geração consciente, cautelosa e acima de tudo escaldada. Grande parte fruto de divórcios litigiosos e mal resolvidos. Passámos crises económicas, vimos um país em rotura que viveu acima das suas possibilidades durante longos e largos anos e, sofremos com tudo isso na pele.

Só queremos ter uma vida digna. Lutamos e fazemos por isso, mas recordo-vos que as rendas de casa são um mix entre filmes de comédia e de terror. E comprar casa? É uma utopia.

Profissionalmente, se escaparmos aos tenebrosos e comuns recibos verdes e tivermos um contrato de trabalho (tal só acontece se tivermos as valências de um canivete suíço), é melhor que saibamos, no mínimo, quatro línguas, três desportos federados e estarmos preparados para a isenção de horário.

A sorte? A sorte dá-nos trabalho para caraças, e a nós — os jovens — foi-nos passada a ideia de que temos de ser bons até no salto de bungee jumping se assim tiver de ser, o que não é mau, de todo! Gostamos disso, estamos preparados. Mas gostamos de que, no mínimo, tenham noção, de que não podemos, pura e simplesmente, ter filhos tipo coelhos, por muito que queiramos — e queremos. Por muito que o instinto exista e o desejo seja transversal a qualquer geração.

Nós queremos uma família, tal como vocês quiseram. Mas queremos fazê-lo com sentido e ordem. As casas constroem-se pela base, seguindo-se as paredes e só depois passamos para o telhado. Felizmente, aprendemos com os vossos erros.

Se muitos ainda não tivemos sequer a capacidade de sair da casa dos nossos pais, como é que podemos já pensar em constituir família?

Não se esqueçam que há uma diferença monstra em relação ao vosso passado, agora ninguém nos pode ajudar, temos de ter dois e três empregos para suportar a nossa vida.

Atualmente, meu amigo? Isto dá para pagar um quartinho, beber um refresco ao pôr do sol e ir passear o cachorrinho.

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