FaceApp. “As pessoas não se preocupam com a informação que estão a dar de mão beijada”

A aplicação que mostra como vamos envelhecer parece ser inocente. Mas uma especialista em segurança informática alerta para os perigos.

Ana Santos, especialista em segurança informática, diz que apps como estas podem construir bancos de imagens e promover a criação de mais perfis falsos

Victoria Heath/Unsplash

A ideia não é nova mas nem por isso deixou de atrair milhares de utilizadores que, nos últimos dias, usaram e abusaram de uma aplicação que não sabiam de onde vinha nem quem a teria criado. Chama-se FaceApp e tornou-se viral por conseguir prever, com recurso à tecnologia de inteligência artificial, como é que seria a imagem envelhecida dos utilizadores.

O conceito parece inocente e o medo de ficar de fora falou mais alto. Tanto é que, em poucos dias, a aplicação era já uma das mais descarregadas da categoria de aplicações gratuitas da App Store e da Google Play Store.

E não demorou muito até que figuras portuguesas como Nuno Markl, Diogo Piçarra, Rui Unas ou César Mourão partilhassem fotografias alteradas pelo serviço com os seus milhares de seguidores. O fator novidade replicou-se e, em poucas horas, havia cada vez mais pessoas a ceder — de forma voluntária — imagens suas a uma entidade que desconheciam e que fazia assim crescer o seu banco de imagens.

Embora a aplicação não obrigue a iniciar sessão via Facebook, essa opção está disponível. E para Ana Santos, especialista em segurança informática, o dilema começa precisamente aqui — já que é na rede social que estão associadas contas de e-mail, registos de localização ou até mesmo o número de telemóvel.

“Onde é que essa informação vai parar e quem é que vai ter acesso a ela?”, é uma das dúvidas que mais preocupa a especialista na hora de analisar este tipo de fenómenos que acabam por se tornar virais na internet.

Mas o mais grave continua a ser o acesso ao e-mail que, explica, “é onde a maioria das pessoas que usam este tipo de serviços têm dados pessoais”.

“Desde faturas de compras a fotografias na Google Drive, há de tudo. Com sorte, até a palavra-passe do e-mail é a mesma do Facebook e isso é a cereja no topo de bolo para as pessoas que pensaram neste tipo de apps”, continua.

É que caso as palavras-passe sejam iguais, isto permite que as pessoas responsáveis por esta aplicação possam ganhar o acesso ao Facebook e ao e-mail principal — e assim impedir que o utilizador volte a ter controlo das suas contas.

“O que mais importa nesta aplicação é a recolha de informação, seja ela em formato de dados em texto, como conta de e-mail, palavras-passe ou outras informações, ou em formato de imagem”, defende a especialista.

E apesar de parecer uma brincadeira inocente, a verdade é que são imagens reais que estamos a fornecer de forma voluntária, sem pensar nas consequências.

“Se hipoteticamente estes bancos de imagens servirem para recolha de informação para fins ilícitos, não é descabido que se vejam cada vez mais perfis falsos em redes sociais. É que nesta app as pessoas vão sendo mudadas e apresentadas com mais de 50 ou 60 anos. É provável que, a partir disto, se crie crie um perfil falso de alguém idoso e mais carente que precise de alguém para cuidados especiais. Quantas pessoas não responderiam a esta oferta de trabalho? É só um dos casos possíveis”, alerta Ana Santos.

Mas a especialista não tem dúvidas de que “as pessoas não se preocupam com a sua segurança ou com a informação que estão a dar de mão beijada”. E prova disso é a quantidade de utilizadores — dos mais aos menos conhecidos em Portugal — que usaram e partilharam os seus retratos envelhecidos.

Ana Santos é especialista em segurança informática e diz que "as pessoas não se preocupam com a informação que estão a dar de mão beijada"

Fotografia cedida por Ana Santos

Se toda a gente está a utilizar a aplicação é porque só pode ser segura, certo? Errado. Segundo Ana Santos, que conhece e estuda o meio há vários anos, este tipo de informação vale muito dinheiro e é geralmente utilizada em crimes como usurpação de identidade.

Em bom rigor, a verdade é que as intenções da FaceApp não são conhecidas e pode não haver objetivos ilícitos. Mas a leitura da política de privacidade da aplicação revela que quem usar o serviço está a concordar em ceder, de forma voluntária e direta, fotografias bem como o seu histórico de navegação para análise alheia.

Toda essa informação recolhida pode ainda ser partilhada com empresas de publicidade sob pretexto de ajudar no desenvolvimento da aplicação ou de estratégias de comunicação da empresa. O que quer isto dizer? A sua informação está a ser utilizada para fins que não conhece e por pessoas em que não sabe se deve confiar.

Ana Santos reforça: “Toda esta informação vale muito dinheiro no mercado negro. E desde escândalos eleitorais a casos de roubo de identidade, imaginação não falta.”

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