A ideia não é nova mas nem por isso deixou de atrair milhares de utilizadores que, nos últimos dias, usaram e abusaram de uma aplicação que não sabiam de onde vinha nem quem a teria criado. Chama-se FaceApp e tornou-se viral por conseguir prever, com recurso à tecnologia de inteligência artificial, como é que seria a imagem envelhecida dos utilizadores.

O conceito parece inocente e o medo de ficar de fora falou mais alto. Tanto é que, em poucos dias, a aplicação era já uma das mais descarregadas da categoria de aplicações gratuitas da App Store e da Google Play Store.

E não demorou muito até que figuras portuguesas como Nuno Markl, Diogo Piçarra, Rui Unas ou César Mourão partilhassem fotografias alteradas pelo serviço com os seus milhares de seguidores. O fator novidade replicou-se e, em poucas horas, havia cada vez mais pessoas a ceder — de forma voluntária — imagens suas a uma entidade que desconheciam e que fazia assim crescer o seu banco de imagens.

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Embora a aplicação não obrigue a iniciar sessão via Facebook, essa opção está disponível. E para Ana Santos, especialista em segurança informática, o dilema começa precisamente aqui — já que é na rede social que estão associadas contas de e-mail, registos de localização ou até mesmo o número de telemóvel.

“Onde é que essa informação vai parar e quem é que vai ter acesso a ela?”, é uma das dúvidas que mais preocupa a especialista na hora de analisar este tipo de fenómenos que acabam por se tornar virais na internet.

Mas o mais grave continua a ser o acesso ao e-mail que, explica, “é onde a maioria das pessoas que usam este tipo de serviços têm dados pessoais”.

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“Desde faturas de compras a fotografias na Google Drive, há de tudo. Com sorte, até a palavra-passe do e-mail é a mesma do Facebook e isso é a cereja no topo de bolo para as pessoas que pensaram neste tipo de apps”, continua.

É que caso as palavras-passe sejam iguais, isto permite que as pessoas responsáveis por esta aplicação possam ganhar o acesso ao Facebook e ao e-mail principal — e assim impedir que o utilizador volte a ter controlo das suas contas.

“O que mais importa nesta aplicação é a recolha de informação, seja ela em formato de dados em texto, como conta de e-mail, palavras-passe ou outras informações, ou em formato de imagem”, defende a especialista.

E apesar de parecer uma brincadeira inocente, a verdade é que são imagens reais que estamos a fornecer de forma voluntária, sem pensar nas consequências.

“Se hipoteticamente estes bancos de imagens servirem para recolha de informação para fins ilícitos, não é descabido que se vejam cada vez mais perfis falsos em redes sociais. É que nesta app as pessoas vão sendo mudadas e apresentadas com mais de 50 ou 60 anos. É provável que, a partir disto, se crie crie um perfil falso de alguém idoso e mais carente que precise de alguém para cuidados especiais. Quantas pessoas não responderiam a esta oferta de trabalho? É só um dos casos possíveis”, alerta Ana Santos.

Mas a especialista não tem dúvidas de que “as pessoas não se preocupam com a sua segurança ou com a informação que estão a dar de mão beijada”. E prova disso é a quantidade de utilizadores — dos mais aos menos conhecidos em Portugal — que usaram e partilharam os seus retratos envelhecidos.

Ana Santos é especialista em segurança informática e diz que "as pessoas não se preocupam com a informação que estão a dar de mão beijada"

Fotografia cedida por Ana Santos

Se toda a gente está a utilizar a aplicação é porque só pode ser segura, certo? Errado. Segundo Ana Santos, que conhece e estuda o meio há vários anos, este tipo de informação vale muito dinheiro e é geralmente utilizada em crimes como usurpação de identidade.

Em bom rigor, a verdade é que as intenções da FaceApp não são conhecidas e pode não haver objetivos ilícitos. Mas a leitura da política de privacidade da aplicação revela que quem usar o serviço está a concordar em ceder, de forma voluntária e direta, fotografias bem como o seu histórico de navegação para análise alheia.

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Toda essa informação recolhida pode ainda ser partilhada com empresas de publicidade sob pretexto de ajudar no desenvolvimento da aplicação ou de estratégias de comunicação da empresa. O que quer isto dizer? A sua informação está a ser utilizada para fins que não conhece e por pessoas em que não sabe se deve confiar.

Ana Santos reforça: “Toda esta informação vale muito dinheiro no mercado negro. E desde escândalos eleitorais a casos de roubo de identidade, imaginação não falta.”