Alunos criam algoritmo de dating que só dá um match — e é o perfeito

The Marriage Pact nasceu com o objetivo de encontrar a pessoa certa para ter uma relação para "a vida toda", como canta Carolina Deslandes.

Sophia e Liam sabiam que não podiam vender o conceito de "relação para casar" a estudantes universitários. Por isso mesmo, decidiram vender a ideia de "plano B"

Quando Siena Streiber se sentou no café, estava nervosa. A aluna de Estudos Ingleses da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, não andava à procura de marido, mas era impossível não ficar pelo menos um bocadinho curiosa quando um quizz lhe prometia isso mesmo. Criado por dois alunos da universidade californiana, o inquérito fazia parte de um estudo intitulado The Marriage Pact. Objetivo? Juntar duas pessoas com base nas teorias económicas e ciências da computação.

As aplicações de dating tornaram-se na forma mais habitual (e rápida) de juntar pessoas. Mas têm vários problemas, nomeadamente o excesso de oferta — já em 2000, dois psicólogos escreviam um artigo sobre o paradoxo da escolha, defendendo que ter demasiadas opções pode levar à “paralisia decisória”. Sophia Sterling-Angus e Liam McGregor tinham exatamente a mesma opinião: 17 anos depois, eles viam como o excesso de oferta afetava a vida amorosa dos colegas de turma.

“A grande inovação do Tinder foi eliminar a rejeição, mas introduziram custos elevados na pesquisa”, explica McGregor, que estudou ciências da computação na Universidade de Stanford, à “Vox“. “As pessoas elevam os seus padrões porque têm a crença artificial de que as opções são ilimitadas”.

E se em vez de apresentar um rol interminável de homens e mulher atraentes, conseguissem diminuir drasticamente a oferta? E se dessem às pessoas uma única correspondência, com base em valores centrais? É que a atração física e interesses são subjetivos, salientam, pelo menos para quem procura uma relação a longo prazo. Fará assim tanto sentido procurar um parceiro atlético que goste de stand up paddle quando, daqui a 50 anos, é provável que tenha barriga e já não se consiga meter em cima da prancha?

Sophia Sterling-Angus e Liam McGregor

“Há muitas coisas superficiais que as pessoas periodizam em relacionamentos de curto prazo que acabam por atrapalhar a procura da pessoa certa”, continua McGregor. “Quando mudamos o disco e olhamos para as relações a cinco meses, cinco anos ou cinco décadas, o que interessa altera-se imenso. Se passar 50 anos com alguém, acho que é capaz de ver além da questão do peso”.

Voltemos a Siena Streiber e ao seu encontro no café. “Lembro-me de pensar, ao menos encontramo-nos num café e não num jantar fino”, recorda à “Vox”. O pensamento esvaiu-se assim que o seu par chegou. Do café matinal passaram para o almoço, da parte da tarde decidiram faltar às aulas para continuarem a conversar.

“Tornou-se imediatamente claro para mim que tínhamos uma compatibilidade de 100%”, diz Streiber. Os dois tinham crescido em Los Angeles, frequentado escolas muito próximas e eventualmente queriam trabalhar na área do entretenimento. Até o sentido de humor era parecido. Era o match perfeito.

McGregor e Sterling-Angus esperavam 100 respostas. Numa hora, tinha mais de mil

A ideia para o The Marriage Pact surgiu no outono de 2017, durante uma aula de economia sobre design de mercado e algoritmos de comparação. “Era o início do trimestre, sentíamo-nos ambiciosos”, ri-se Sophia Sterling-Angus, que tirou Economia em Standford. “Pensámos: ‘Temos muito tempo, vamos fazer isto’.”

Começava assim a ser traçado o plano para o The Marriage Pact. E porquê este nome? Porque Sophia e Liam sabiam que não podiam vender o conceito de “relação para casar” a estudantes universitários. Por isso mesmo, decidiram vender a ideia de “plano B”.

Lembra-se de um episódio de “Friends” em que Ross e Rachel prometem casar um com o outro se nenhum deles tiver uma relação aos 40 anos? A ideia é mais ou menos essa — uma espécie de rede de segurança romântica, ou “pacto matrimonial”.

Depois de lerem artigos académicos e de conversarem com especialistas, decidiram enviar um email para todos os alunos da escola. “Ouve”, lia-se. “Encontrar um parceiro para a vida provavelmente não é a tua prioridade agora. Tu esperas que as coisas aconteçam naturalmente. Mas daqui a alguns anos, podes perceber que as opções mais viáveis já estão ocupadas. Portanto, é menos sobre encontrar ‘aquele’ e mais sobre encontrar ‘o último que restou’. Faz o nosso teste e encontra aqui o teu pacto matrimonial”.

Sophia e Liam esperavam receber cem respostas. Numa hora, porém, tinham mil. No dia seguinte, 2.500. Quando fecharam a pesquisa, poucos dias depois, tinham 4.100.

Quando foram atribuídos os amores para a vida, foi a loucura na Universidade de Stanford. Os dormitórios dos caloiros estavam um caos, a página de memes da universidade no Facebook estava inundada de imagens referentes ao The Marriage Pact. Nas semanas seguintes, McGregor e Sterling-Angus foram percebendo o impacto que o quizz estava a ter na vida dos colegas.

“As pessoas diziam que tinham feito match com ex-namorados, com o namorado do melhor amigo. Houve irmãos a fazer match e toda a gente estava horrorizada, mas nós ficámos extasiados porque pensámos: ‘Funciona!’.”

Era fácil resolver essa questão — um algoritmo simples seria capaz de garantir que não voltariam a ocorrer ligações sugeridas entre irmãos. O mais importante é que funcionava, e até já havia casais a prová-lo.

O problema atual das aplicações de encontros

O OkCupid permite filtrar os resultados consoante pontuações de compatibilidade. Problema? Continua a apresentar opções de escolha aparentemente infinitas. No Tinder tem tudo que ver com as fotos de perfil, a Happn também não vai além disso — apesar do conceito de só mostrar pessoas com as quais se cruzou, ou melhor, que estavam no raio onde passou, a lógica é a mesma.

Segundo Tristan Harris, o co-fundador e CEO do Center for Humane Technology, uma organização sem fins lucrativos que procura combater aquilo que chamam de “crise de atenção digital”, estas apps de namoro estão “a competir para mantê-lo a deslizar o dedo o máximo de tempo possível”. Elas são um vício, que deixam os utilizadores sempre à procura de mais e mais. A curto prazo, as relações até podem funcionar. Mas há sempre quem regresse para continuar à procura de algo mais.

Outras aplicações já se aperceberam deste problema e tentam inverter a lógica. O Bumble, por exemplo, que foi projetado para serem as mulheres a dar o primeiro passo, abriu um bar de vinhos em Manhattan para incentivar as pessoas a conhecerem-se presencialmente. Já o The League, uma app para quem tem “padrões elevados”, é exclusiva e tenta limitar a oferta de namoro.

Só que McGregor e Sterling-Angus duvidam que essas estratégias acabem por originar relacionamentos sustentáveis. O The Marriage Pact, garantem, não prioriza o envolvimento entre utilizadores, mas sim descobrir a pessoa com quem se vai relacionar a vida inteira.

“O que é um resultado positivo nestas aplicações, uma troca de números de telefone?”, questiona McGregor. “Não, um resultado positivo é continuar na app”, corrige Sterling-Angus. “É criar uma conexão e depois voltar”.

Atualmente, o mercado de aplicações de encontros está avaliado em quase 3 mil milhões de euros. Mais de metade dos solteiros nos Estados Unidos tentaram uma destas apps em determinado momento das suas vidas. Em Portugal, o estudo mais recente remonta a 2016 e dizia que estávamos no Top 20 dos países que mais usam a aplicação. Por mês, havia 127 milhões de “deslizares de dedo”.

O futuro do The Marriage Pact

Para já, o The Marriage Pact continua a estar disponível apenas na Universidade de Stanford e Oxford, a segunda localização escolhida porque Sterling-Angus estudou lá. Mas há planos para chegar mias longe: no próximo ano, Sophie e Liam querem chegar a mais escolas e “comunidades com um forte sentido de identidade”.

Então e Siena Streiber? Será que aquele encontro resultou na descoberta do “amor para a vida toda”, como canta Carolina Deslandes? A resposta permanece em aberto. Depois daquele café ainda tentaram estar juntos algumas vezes, mas parecia que nunca havia tempo. “Estava sempre a pensar naquela primeira conversa. Pensava: ‘Correu tão bem, o que é que aconteceu, o que é que mudou?’. Uma coisa que percebi é que, por mais perfeitos que fôssemos no papel, nem sempre isso salta para a vida real”.

Hoje a jovem está de volta a Los Angeles para prosseguir com a sua carreira de atriz. Este verão, de volta à cidade, o seu “plano B” disse-lhe que gostava de estar com ela. Combinaram ver-se após um espetáculo de Siena. Plot twist? Ele nunca apareceu.

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