Diogo Faro. “Eu próprio já fui mais machista”

Depois de atuar no NOS Alive, o humorista explicou que sempre teve interesse em batalhas sociais mas que, no início, faltou-lhe maturidade.

Diogo Faro usa o ativismo como bandeira no humor — e é muito criticado por isso. À MAGG, explica que se trata tudo de uma questão de falta de empatia

Samuel Costa/MAGG

Há muito tempo que Diogo Faro deixou de ser só um comediante. Ainda que não tenha dúvidas de que continua a fazer humor, não tem problemas em assumir-se como alguém que “faz outras coisas”. Exemplo disso são algumas das crónicas que assina onde, segundo conta, apesar de serem mais ácidas, é também onde não procura tanto uma punchline arrebatadora. Aí o objetivo deixa de ser o de fazer rir — embora seja possível — e passa a ser o de fazer uma crítica à sociedade em que vivemos e à falta de empatia entre as pessoas que a compõem.

Esta sexta-feira, 12 de julho, Diogo Faro esteve no palco Comédia do NOS Alive, no Passeio Marítimo de Algés, com o seu mais recente espetáculo, “Lugar Estranho”. Em forma de stand-up comedy, Diogo inspira-se nas várias histórias que viveu para falar abertamente de tudo o que está de errado na sociedade.

“Fala de como o machismo nos afeta a todos devido à pressão e aos comportamentos que se foram padronizando mas que, na verdade, não correspondem à realidade. De como, para sermos verdadeiros machos, temos de estar sempre prontos a comer todas as gajas do mundo. Há uma ideia enraizada que é assim que nos devemos comportar e não é verdade.”

“Sempre tive muito interesse em batalhas sociais”, continua. No início, porém, “talvez não tivesse a maturidade necessária para falar destes temas”.

“Nas primeiras crónicas que publiquei há seis anos notava-se isso mesmo porque me faltava vivência para falar, e com graça, de temas tão graves como a homofobia, o racismo e o machismo. Não podia ir para o palco dizer que ser homofóbico é uma grande merda.”

Às vezes a mistura entre o humor e o ativismo levam-no a ser críticado — há quem acredite que são dois mundos que não combinam, ou que quem tende a uni-los está apenas à procura de protagonismo. Diogo Faro não subscreve a ideia de que o objetivo de um humorista seja só fazer rir. “Mesmo o Ricardo Araújo Pereira, que diz que o único objetivo que tem é fazer rir, tem muitas opiniões em todos os programas e formatos em que participa”, diz.

“Isto da vida é frustrante porque todos temos de morrer. Por isso, quero que o maior número de pessoas possa ter o maior conforto possível no tempo que lhe resta aqui”, defende. Mas Diogo não é hipócrita até porque, segundo explica, se alguém sair do seu espetáculo menos intolerante, e tiver passado por esse processo a rir, melhor.

Além dos espetáculos de stand-up, Diogo Faro é bem conhecido pelos vox pop, onde fala com várias pessoas sobre racismo ou igualdade de género. As respostas chegam a ser tão caricatas que há quem acabe por se transformar numa espécie de caricatura. Poderá isto ser perigoso? Há o exemplo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, que ainda hoje é objeto de estudo depois de ter superado toda e qualquer sátira humorística e de ter assumido a presidência do país.

Diogo entende que possa parecer contraproducente mas, também porque nunca ninguém reconheceu que o assunto era fácil, pergunta: “Será que a solução é deixá-los falar? Não temos de proibir mas, pelo menos, não deixemos os estúpidos a falarem sozinhos sem contraditório”, explica.

O humorista veio aos NOS Alive atuar no palco Comédia

Samuel Costa/MAGG

Até porque a vida é feita de aprendizagens. Uma das histórias que mais marcou o humorista aconteceu há vários anos, quando chegou a duvidar da sua sexualidade. “Marcou-me muito porque, ao achar que podia ser gay e que não conseguiria estar sexualmente com uma rapariga, levou-me a sentir que tinha falhado e que não era normal.”

“Achava que ser gay não era normal quando é e estaria tudo bem se o fosse”, mas não tem dúvidas de que foi fundamental passar por um processo de desconstrução obrigatório que lhe permitisse ultrapassar este tipo de mentalidade.

Mas Diogo diz que há outros exemplos que, embora sejam mais mundanos, assentam nessa ideia de nos definirmos consoante os nossos comportamentos. “Porque é que gostar de carros define um homem, por exemplo? Podes ser homem e não gostar de carros ou gostar de bonecas e até vestir cor-de-rosa”, remata.

“Eu próprio já fui mais machista. Não percebia o quão grave são os piropos na rua e como daí podiam crescer para uma coisa muito mais grave. E foram várias as amigas minhas que me explicavam que não, já não se trata apenas de uma questão de liberdade de expressão. É uma demonstração de poder que condiciona e afeta a vida de milhares de mulheres diariamente”, conclui.

Texto de Fábio Martins, fotografia de Samuel Costa.
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