Quando planeamos uma viagem de avião, sabemos de memória tudo aquilo que temos de fazer e como nos devemos comportar durante o voo. Desde apertar os cintos de segurança sempre que nos pedem, a desligar ou pôr os telemóveis em modo de voo, é tudo uma série de ações que desempenhamos quase de forma automática e sem pensar muito nisso. Mas desconhecemos por completo tudo aquilo que se passa nos bastidores de uma viagem de avião.

José Correia Guedes, ex-piloto da TAP, revelou alguns dos segredos mais curiosos que os mais de 30 anos de profissão lhe deram a conhecer. Sabia, por exemplo, que uma boa aterragem não é necessariamente aquela muito suave e que quase nem se sente?

Contamos-lhe os 15 segredos que os pilotos nem sempre revelam.

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1. No cockpit não há distrações — mas os pilotos podem levar vários objetos

Por ser o local mais importante e restrito do avião, José Correia Guedes diz que o cockpit requer “uma certa disciplina”, onde não é aceitável que existam distrações. No entanto, isso não implica que não se possa levar objetos lá para dentro.

“Não, não é verdade que não se possa levar nada para o cockpit. Podemos levar aquilo que nos apetecer. Cada piloto tem uma brief case e pode levar uma máquina fotográfica, por exemplo. Pode levar o que quiser”, sublinha, embora reforce a necessidade de manter a disciplina adequada ao contexto.

2. Sim, os pilotos podem dormir — mas por pouco tempo

Se for necessário, e principalmente nos voos de longo curso, os pilotos podem descansar de forma alternada. E José Correia Guedes não tem dúvidas de que “essas pequenas sonecas fazem toda a diferença.”

“Há uma lenda de que não se dorme no cockpit, mas não é verdade. É claro que se dorme. Normalmente alternamos, principalmente nas viagens muito longas. Cada piloto faz pequenos turnos de 15 a 20 minutos, que fazem toda a diferença. Basta passar pelas brasas ali um quarto de hora e já ficamos com outra energia”, revela.

Mas nas viagens de extra longo curso, por exemplo, as tripulações são reforçadas e há sempre um terceiro piloto bem como um compartimento especial para descansarem. “Atrás do cockpit há um compartimento que tem um beliche e onde o piloto que não estiver a trabalhar pode descansar. Há até quem leve pijama a bordo”, explica. 

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3. Há alturas em que os pilotos são obrigados a viajar como passageiros — e muitos odeiam

Segundo Correia Guedes, a grande maioria dos pilotos não gosta de viajar extra-crew, ou seja, quando viajam como passageiros normais. Geralmente, estes momentos acontecem quando os pilotos têm a seu cargo uma missão específica, como ir buscar um avião ou iniciar uma viagem num outro local.

“A esmagadora maioria dos meus colegas não gosta porque não sabemos passar tempo fora do cockpit. A tendência é refugiarmo-nos no cockpit, porque estamos tão habituados que não é fácil viajar lá atrás”, conta o ex-piloto.

4. Os pilotos não “são uma seca” que só falam de aspetos técnicos

De acordo com José Correia Guedes, “criou-se o mito de que os pilotos são uma seca e que só sabem falar de coisas técnicas”, como parafusos, engenhos mecânicos ou novos modelos de avião. Mas a verdade é que isto não acontece. O antigo piloto afirma que conheceu pessoas muito interessantes que “tocam piano, que pintam ou que escrevem.”

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5. Os pilotos podem viajar de borla (com uma condição)

Pilotos e outros membros da tripulação podem viajar gratuitamente ou com preços convidativos — e muito mais baratos do que os bilhetes normais. No entanto, isso só é possível se houver lugares disponíveis.

“Os aviões agora estão quase sempre cheios porque os bilhetes estão baratos. Se for para Banguecoque, por exemplo, fico sujeito a ficar lá mais uns dias porque posso não ter lugar para voltar. E cada vez que aparece um passageiro pagante, quem vai de borla, sai“, clarifica o antigo piloto da TAP.

6. É muito difícil alguém entrar no cockpit

O 11 de setembro trouxe algumas mudanças ao mundo da aviação. Cerca de 18 anos após os atentados às Torres Gémeas, nos EUA, a porta do cockpit é blindada e está sempre trancada.

“A porta está trancada e tem um código que só a tripulação conhece. Esse código emite um sinal e nós lá dentro abrimos a porta. Se isso não acontecer, não há forma de abrir aquela porta. Isso já deu alguns maus resultados. Há pelo menos dois casos de suicídio confirmados, um deles de um piloto de uma companhia alemã que mandou o avião contra os Alpes. O comandante saiu, ele trancou-se no cockpit e ninguém o conseguiu tirar de lá. Há um lado bom, mas tem um lado mau”, explica José Correia Guedes.

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7. Existem mais do que duas cadeiras no cockpit

Provavelmente já sabia que existem duas cadeiras destinadas ao comandante ao co-piloto. Mas há outras, e uma delas fica localizada atrás da do comandante e sempre para os voos de verificação — aqueles onde um examinador avalia se um piloto cumpre todos os procedimentos estabelecidos pelo fabricante e pela companhia.

A outra serve para colegas de tripulação que não têm lugar para viajar como passageiro nos voos de extra-crew.

8. Uma boa aterragem não é suave

Se calhar é daquelas pessoas que odeia voar e que treme só de pensar na ideia de uma aterragem mais brusca do que o normal. Mas a verdade é que estas são as melhores aterragens — aquelas onde se sentem alguns solavancos no momento em que as rodas tocam na pista.

“A aterragem tem que ser firme, não precisa de ser uma trancada de fazer cair as bagagens, mas tem de ser firme, porque há uma série de sistemas de desaceleração no próprio avião que só funcionam quando sentirem que o avião está no chão”, explica.

Segundo o piloto, “há um sensor na perna esquerda do avião que, quando é comprimido, ou seja, quando tem a informação de solo, ativa esses sistemas de travagem.”

“Nas pistas molhadas, e já aconteceram alguns acidentes por causa disso, é recomendável bater firme para espalhar a água na pista, para que a roda bata no chão. Serve para evitar o risco de aquaplanagem”, revela.

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9. Existe um compartimento no porão com beliches

Normalmente, os porões dos aviões levam cerca de 15 a 20 toneladas de carga. Mas segundo José Correia Guedes, nos aviões mais recentes, existe um compartimento para descanso da tripulação com dois ou três beliches.

Além disso, outro elemento “escondido” é o porão eletrónico que fica por baixo do cockpit. É lá que estão todos os módulos do sistema.

10. Os pilotos só podem sair do cockpit para ir à casa de banho

Esta é mais uma das características que mudou depois dos atentados de 11 de setembro de 2011. Se antes os pilotos podiam sair do cockpit e conversar com os passageiros, hoje isso é impossível.

“Podemos ir à casa de banho, mas depois temos que voltar para o cockpit. O que acaba por se tornar muito monótono, principalmente nas viagens longas”, desabafa José.

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11. As aterragens são feitas em piloto automático

Ao contrário das descolagens, que são sempre feitas manualmente, as aterragens podem ser feitas ou não em piloto automático porque o avião vê aquilo que os pilotos não veem e existe um sistema na pista que guia o avião e o traz para o chão sem problemas.

Para o antigo piloto da TAP, o aparecimento dos computadores e das novas tecnologias, veio contribuir para a diminuição do números de acidentes na aviação.

“As estatísticas dizem que a esmagadora maioria dos acidentes que aconteceram eram provocados por erro humano. Isso contribuiu muito para diminuir os números de acidentes. Em 2017, por exemplo, não morreu uma única pessoa no mundo de acidente de avião [comercial]. Algo extraordinário que nunca tinha acontecido”, revela.

12. Ativar o modo de voo dos telemóveis é importante

José Correia Guedes afirma que é importante ativar o modo voo dos telemóveis, porém, acredita que existe um mito, uma vez que “nunca esteve claramente demonstrado que haja uma interferência direta entre os telemóveis e o que se passa no cockpit”.

“Durante muitos anos, porque não se sabia exatamente se havia ou não essa interferência, pedia-se aos passageiros para desligar o telemóvel. O modo de voo é importante porque bloqueia a radiação, portanto, o telemóvel não emite nem recebe radiação”, explica.

No entanto, como não há essa confirmação da relação causa-efeito entre os telemóveis e as possíveis avarias no cockpit, continua-se a pedir aos passageiros para desligar ou colocar os telemóveis em modo de voo.

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13. Os aviões viajam com o mínimo de combustível necessário

Os aviões só viajam com o mínimo combustível que é necessário para a viagem. Os pilotos fazem as contas considerando a altitude e a direção dos ventos, o que lhes dá o valor do combustível que devem levar. Levar o depósito cheio é sinónimo de excesso de peso no aparelho, que o impede de levantar da pista.

“O avião é tão económico quanto mais alto voar. À medida que vai subindo, há menos resistência aerodinâmica e os motores são mais eficazes e económicos. A ideia é voar com o mínimo combustível necessário, levando sempre combustível para uma alternativa”, diz.

14. Os pilotos minimizam os problemas para não causar pânico

O medo de voar é praticamente universal. O antigo piloto refere que está estatisticamente provado de que a esmagadora maioria dos passageiros tem medo de voar e que, por isso, existe a preocupação por parte dos pilotos em não assustar as pessoas.

“Às vezes não convém dizer a verdade nua e crua. Se nós estamos ali para resolver os problemas, não vamos dizer que temos o motor a arder. Vamos tentar resolver os problemas e dizemos aos passageiros que vamos ter que voltar para trás por motivos de ordem técnica — que normalmente é o que se diz”, revela José Correia Guedes.

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E o ex-piloto da TAP recorda um momento que presenciou num dos seus voos do Porto para Luxemburgo, quando o trem de aterragem não subiu após a descolagem.

“Cada vez que há uma aterragem com anomalias, somos obrigados a declará-la à torre de controlo que aciona o sistema de emergência com carros de bombeiros e ambulâncias. É rotina. Quando os passageiros viram os carros dos bombeiros, entraram em pânico e houve até pessoas que desmaiaram. O stresse e a ansiedade geraram-se no chão com a presença dos bombeiros, apesar de ser rotina, e não durante o voo”, conta.

15. Os aviões são atingidos por raios

Se viajar durante uma tempestade, não se assuste se ouvir um estrondo enorme. É só um raio a atingir o avião, o que acontece com alguma frequência. No entanto, a estrutura e a segurança do aparelho não são afetadas.

A única coisa que um raio causa é um barulho brutal e uma cegueira temporária. “Durante uns segundos os pilotos ficam cegos, porque a descarga luminosa é de tal forma brutal que ficamos encandeados durante um par de minutos. Agora, para a estrutura do avião, não tem implicação nenhuma”, assegura José Correia Guedes.