Fomos visitar a escola alternativa (e democrática) mais antiga do mundo

As crianças vão às aulas quando querem, têm tanto poder de decisão quanto o diretor e podem escolher aquilo que querem aprender. Um paraíso?

Summerhill é a escola democrática mais antiga do mundo, e conta com quase 100 anos de existência.

Tudo começou com uma caminhada matinal pelas ruas desertas do centro de Cambridge, no Reino Unido, até à principal estação da cidade. Entrámos em dois comboios, ambos com apenas duas carruagens, nos quais se respirava um clima de calma adocicado com a fragrância a terra molhada. Ao som da frase “Bilhetes, por favor. Obrigada”, que ecoava repetidamente pelos corredores, podia ser uma quarta-feira como qualquer outra — com a exceção de que seguíamos em direção à costa leste britânica.

Uma paragem rápida em Ipswich, uma paragem chuvosa em Saxmundham e um autocarro que atravessou prados de um verde transparente até Leiston — uma cidade em parte incerta, apenas conhecida pelas suas duas centrais nucleares, plantadas à beira de um mar lamacento e ventoso. Estávamos quase lá.

Foi a partir de Leiston que empreendemos a última (mas nem por isso menos bela) caminhada, por entre moradias de tijolos ingleses, plantações agrícolas e algumas estufas de flores, até vislumbrarmos um muro coberto por trepadeiras de um verde bem inglês. Num mosaico colorido lia-se: Summerhill.

Summerhill é a escola democrática mais antiga do mundo, e conta com quase 100 anos de existência. Foi fundada em 1921 por Alexander Sutherland Neill, um educador e escritor escocês que ficou conhecido por defender a liberdade enquanto pilar fundamental na educação escolar — e por ser pioneiro na aplicação da teoria da gestão democrática das escolas. Hoje em dia pode dizer-se que Summerhill é a grande referência de ensino alternativo à escala mundial, inspirando muitas vezes outros modelos de ensino.

Alexander Sutherland Neill escreveu vários livros

Entre 1960 e 1967, o educador e escritor escocês escreveu várias obras, entre os quais se destacam: “Liberdade sem Medo” (1960), no qual conta a história da fundação da escola e como era o seu dia a dia. Mais tarde foi a vez de “Liberdade sem Excesso” (1966), no qual respondeu a inúmeras perguntas enviadas por pais de todo o mundo, aconselhando-os na forma de educar os seus filhos.

 

Rodeada por amplos prados verdes, Summerhill conta atualmente com 75 crianças de ambos os géneros, entre os 5 e os 17 anos, e 15 professores. A maioria dos docentes são internos, ou seja, vivem na escola e dão aulas de uma ou mais disciplinas base. Outros vêm apenas uma, duas ou três vezes por semana, com o objetivo de lecionar matérias mais específicas. Composta por casas pré-fabricadas em tons de castanho escuro, onde ficam as salas de aula e habitações dos alunos, a escola tem ainda parques infantis, um parque de skate e um amplo jardim.

Então mas o que é que distingue Summerhill das outras escolas? O método de ensino. Aqui não há campainhas nem faltas de presença, todos os alunos são livres de frequentarem as aulas se — e quando — quiserem. Se preferirem passar o dia a brincar, podem fazê-lo. Se preferirem passar o dia a aprender, também.

Ele não vai muito às aulas e não faz mal nenhum. Para já, nesta fase, ele é apenas uma máquina de brincar. E isso é muito bom”

Neill acreditava que nenhum aluno poderia aprender contrariado, pelo que não valia a pena instituir um regime obrigatório de ensino. E a verdade é que em Summerhill este método parece resultar. Do ponto de vista curricular, a escola dá equivalência ao nosso 9.º ano de escolaridade, sendo que se os alunos desejarem continuar a estudar, terão de realizar exames específicos para ingressar no ensino secundário convencional.

“Seria muito triste obrigar as crianças a irem todos os dias para as aulas”

Temos apenas uma hora para visitar Summerhill. “Tem que ser algo discreto e pouco formal, uma vez que numa assembleia de escola recente, a maioria das crianças votou para passarem a ser menos frequentes as visitas à escola, nomeadamente pela imprensa”, explica à MAGG Zoe Redhead, a diretora da escola e uma das filhas do fundador. “Esta é a sua casa. A sua privacidade e espaço pessoal não devem estar sempre a ser invadidos”.

Summerhill é a escola democrática mais antiga do mundo, tendo sido fundada em 1921 por Alexander Sutherland Neill

Na teoria, Summerhill é praticamente igual às escolas ditas normais. Na prática, é tudo diferente a partir do momento em que as crianças não têm a obrigatoriedade de ir às aulas. O desafio é redobrado para os professores, que nunca sabem com quantos alunos contar. Mais importante ainda, têm que desafiá-los com projetos e trabalhos que lhes interessem verdadeiramente. É um esforço diário para se envolverem nas vidas dos alunos e conseguirem conquistá-los, mas aqui a palavra “esforço” não é vista como algo negativo — para a política de Summerhill, é assim que deve ser. “Seria muito triste obrigar as crianças a irem todos os dias para as aulas simplesmente para trabalhar a escrita e a leitura”, sublinha Zoe.

É neste momento que aparece uma criança do oriente — 50% das crianças em Summerhill são de países que não o Reino Unido —, com cerca de 6 anos. “Costumas ir às aulas?”, pergunta-lhe Zoe. “Sim, às vezes. Mas não muito”, admite. “Vê?”, diz-nos Zoe. “Ele não vai muito às aulas e não faz mal nenhum. Para já, nesta fase, ele é apenas uma máquina de brincar. E isso é muito bom.”

Os princípios e fundamentos de base de Summerhill são tão lógicos e vão tão ao encontro da essência do que os seres humanos são e de como deveriam viver, que não há razão para [a política da escola] ser alterada”

Numa escola normal, explica Zoe, as crianças estariam todos os dias a ler, a escrever e a fazer contas de forma muito standard, sem qualquer opção de escolha. Em Summerhill, os alunos até podem aprender a ler mais tarde do que é habitual, mas quando decidem que querem realmente fazê-lo, têm toda a motivação e força de vontade do seu lado.

“É um modelo educativo para onde caminham os países escandinavos”, explica. “Eles têm sistemas de ensino muitíssimo mais livres, e muito pouco rígidos e impositivos no que toca à ‘idade certa’ para aprender a ler e a escrever.”

Estamos no jardim central da escola, que conta com um parque de diversões, um parque de skate, entre outras estruturas destinadas ao lazer. “Quando aquela criança com que nos cruzámos agora tiver 12 ou 13 anos, ela vai ver que existe um grande mundo lá fora e que estará na altura de fazer qualquer coisa para se integrar nele. Mesmo que ainda assim não esteja muito motivado para tal, vai perceber que terá de participar ativamente nele. E é aí então que vai começar a trabalhar arduamente e de forma determinada.”

Zoe Redhead, filha do fundador de Summerhill e atual diretora da escola

O plano curricular em Summerhill

Tal como em Portugal, o ano letivo em Summerhill conta com três períodos de aulas, de setembro até junho. O programa curricular é composto pelas seguintes aulas.

  • Aulas generalistas de ensino primário, segundo ciclo e terceiro ciclo;
  • Ciências, Informática, Inglês, Inglês como Língua suplementar (certificado a nível internacional), História, Matemática, Geografia;
  • Psicologia, Música, Arte, Teatro, Carpintaria, Japonês, Chinês, Alemão e Espanhol.

Mas isso não poderá ser um risco? E se os miúdos demorarem demasiado tempo a quererem aprender? “Depende muito de aluno para aluno, e provavelmente será muito complicado para eles começarem a realizar esse trabalho de integração e de adaptação, uma vez que vão estar muito atrasados face aos alunos de uma escola normal”, continua. “Apesar de tudo, nós costumamos dizer que, com auto-motivação, é muito mais fácil trabalhar intensivamente do que com um professor ou uns pais a darem-nos reguadas na cabeça'”.

Na opinião de Zoe Redhead, e do sistema educativo de Summerhill, os anos de brincadeira não podem ser considerados como “perdidos”. Pelo contrário, eles permitem às crianças explorarem os seus interesses, paixões, bem como variadas áreas e atividades diferentes, sem preconceito, desde as mais manuais até às mais intelectuais. Assim, quando as crianças decidirem ou sentirem de que forma querem participar no mundo, estarão provavelmente muito mais encontradas e motivadas para fazerem algo de que gostam e que as irá realizar.

Neste momento estão cinco crianças espalhadas pelo parque a brincar, umas sozinhas, outras em pares. São livres, não têm qualquer controlo ou pressão por parte de adultos. “Estando Summerhill prestes a fazer 100 anos de existência, a escola mudou muito a nível pedagógico desde a sua fundação?”, perguntamos. “A base é exatamente a mesma. Os princípios e fundamentos de base de Summerhill são tão lógicos e vão tão ao encontro da essência do que os seres humanos são e de como deveriam viver, que não há razão para ser alterada”.

Aqui não há campainhas nem faltas de presença, todos os alunos são livres de frequentarem as aulas se — e quando — quiserem

“Até porque nós não evoluímos!”, continua. “Nós gastámos milhões de anos até sermos como somos, e não vamos mudar assim tão radicalmente a nossa essência em apenas 100 anos. As nossas necessidades fundamentais e desejos são talvez os mesmos que há dois mil anos, e este é o método de ensino que, enquanto seres humanos, deveríamos assumir e adotar. Deveríamos ser capazes de viver em conjunto, de resolver os nossos problemas em comunidade. As crianças deveriam ser encorajadas a brincar com outras crianças, e os adultos e as crianças deveriam relacionar-se como pessoas normais, de igual para igual. Isto é algo que é óbvio e não se deveria sequer pensar em alterá-lo. É a nossa base”.

Em Summerhill toda a gente tem uma palavra a dizer

Na escola mais democrática do mundo realizam-se assembleias escolares para tomar decisões comunitárias sobre o dia a dia da escola — ou questões mais profundas. Aqui toda a gente tem uma palavra a dizer: alunos, professores, a direção e todos os funcionários da escola. Estas assembleias decorrem três vezes por semana, e uma criança de 5 anos tem exatamente o mesmo poder de voto do que a diretora da escola.

“Quando as crianças têm apenas 5 anos, é bastante comum imitarem os votos de alunos mais velhos, ou até mesmo dos adultos presentes”, clarifica Zoe. “Ou seja, procuram as suas referências e pessoas nas quais confiam, por ainda não terem maturidade para poderem votar.” As crianças de 5 anos ainda não estão verdadeiramente seguras do que significa realmente votar, e à medida que vão crescendo vão compreendendo e começando naturalmente a assumir as suas próprias posições. Até votarem em consciência, porém, é normal passarem por uma fase em que votam contra tudo o que é colocado em cima da mesa, simplesmente porque podem. “É um momento de afirmação pessoal”, diz.

As assembleias são uma forma evidente de dar poder às crianças e de lhes mostrar que têm possibilidade de mudar e construir uma realidade à sua volta. “Há uma história que me marcou muito numa assembleia de escola, que foi quando uma rapariga de 5 anos, assim com um ar muito delicado e frágil, numa assembleia com cerca 60 ou mais pessoas, levantou a mão no ar e disse: ‘Alguém gritou aos meus ouvidos, e agora estão-me a doer!’. A comunidade escutou-a e lidou com a situação, tendo feito um aviso e uma espécie de reprimenda à outra criança mais velha, que lhe gritara aos ouvidos. Mas o mais importante para Alba, a pequena rapariga, foi ela ter aprendido sobre justiça, bem como ter sentido na sua própria pele que a sua opinião e a sua existência eram importantes. Numa sala com mais de 60 pessoas, apesar dos seus tenros 5 anos idade, ela falou e todos a escutaram e preocuparam-se com o seu bem-estar.”

Os alunos mais velhos são os que vão mais às aulas

Já quase a chegar à sala de Ciências, encontramos um professor: “Este é o James, o nosso professor de Ciências,” apresenta-nos Zoe. Aproveitamos imediatamente para lhe perguntar se costuma ter muitos alunos nas suas aulas. “Muitos. Para dizer a verdade, normalmente tenho a sala de aula cheia. Neste momento está vazia porque as minhas aulas só começam às 16 horas, mas os mais velhos costumam vir muito, já que pretendem mais tarde ingressar no ensino secundário e alguns na universidade. Para tal, têm que fazer os exames de equivalência para entrar no ensino convencional, e eu costumo trabalhar com eles e ajudá-los bastante nesse sentido.”

Seguir com os estudos é uma preocupação transversal à maioria dos alunos de Summerhill. “Os exames têm-se tornado algo cada vez mais importante, porque há cerca de cinco a sete anos, as escolas convencionais entrevistavam os alunos de Summerhill e tinham muito gosto em recebê-los. Agora, as regras e a burocracia são cada vez mais apertadas, e eles pedem exames, certificados e provas de aferição destes mesmos alunos para poderem ingressar nos colleges”.

Se elas quiserem ir para a universidade aos 50 anos, está ótimo, não há qualquer limitação. É crucial é que não façam as coisas porque toda a gente faz, e que tenham força interior para seguir os seus desígnios, a sua liberdade, a sua vontade e quem eles realmente são”

No Reino Unido, os jovens terminam o ensino regular obrigatório com 16 anos, e posteriormente escolhem se querem ou não entrar nos “colleges”. É o equivalente ao nosso ensino secundário: são dois anos adicionais de estudos, preparatórios para os exames de entrada na universidade. A maioria dos alunos de Summerhill faz estes dois anos adicionais, e sensivelmente metade destes alunos opta por seguir os estudos a seguir. “Os nossos alunos entendem perfeitamente a importância de ‘ganhar a vida’, mas não querem ainda assim ser restringidos a seguirem apenas uma via mais académica”, explica James.

“O Christoffer gostava realmente de fazer carpintaria e trabalhos manuais, e esteve durante vários anos a realizar este tipo de atividades ao ar livre”, interrompe Zoe. “Porém, passados alguns anos decidiu ir estudar informática e está agora a trabalhar nessa área.” O objetivo da escola é mostrar aos jovens que há múltiplos caminhos, continua, e que todos eles são válidos e positivos. “O mote é desenvolver a criatividade das crianças e apimentar a sua curiosidade pela aprendizagem. Na verdade, se elas quiserem ir para a universidade aos 50 anos, está ótimo, não há qualquer limitação. É crucial é que não façam as coisas porque toda a gente faz, e que tenham força interior para seguir os seus desígnios, a sua liberdade, a sua vontade e quem eles realmente são.”

O professor James no interior da sala de Ciências

Depois de uma passagem rápida pela biblioteca, cruzamo-nos com a professora da Turma 1, com seis ou sete raparigas a correr atrás dela. Estão muito animadas por a aula estar prestes a começar — tanto que chegam mesmo a ultrapassá-la. “Os rapazes vão provavelmente juntar-se depois”, explica Zoe. “Já o meu pai dizia isto, e agora depois de muitos anos de trabalho também eu posso concordar: as raparigas ganham um sentido de responsabilidade e maturidade mais cedo do que os rapazes”.

É normal haver mais raparigas do que rapazes nas aulas. Salvo as devidas exceções, elas interessam-se mais cedo pelo ensino, gostam de estudar, de pensar e de fazer trabalhos intelectuais. Já os rapazes tendem a gostar mais de atividades físicas exteriores e de coisas mais práticas.

“Apesar de tudo, não quero estar propriamente a fazer generalizações. Trata-se simplesmente de uma observação. Com 10 a 12 anos, eles tendem a misturar-se mais e então quanto mais velhos forem, mais notável será essa integração e fusão entre géneros.”

Terminado o intervalo da manhã, conseguimos entrar ainda numa sala de aula onde estavam três rapazes a jogar um jogo — uma espécie de Scrabble que em vez de letras tinha números — com a professora de Matemática. Em Summerhill, é muito comum o uso métodos de ensino mais livres e divertidos, e os jogos são um excelente exemplo disso. São uma forma fácil de captar a atenção dos jovens, bem como de lhes mostrar que aprender pode ser algo positivo, estimulante e muito enriquecedor.

O facto de estarem três alunos na sala de aula com uma única professora também permite um ensino mais especializado e adaptado às necessidades de cada um — bem como pode facilitar a criação de relações humanas mais profundas entre todos. Summerhill valoriza desde sempre um estilo de aprendizagem mais “húmida” (emocional) e não tão “seca” (mental), como nas escolas convencionais, explica Zoe.

Sala de aula da turma 3, onde testemunhámos o início de um jogo numa aula de Matemática

Como são os dormitórios em Summerhill

Zoe entra numa das casas pré-fabricadas e encontra um rapaz de 5 anos de T-shirt e cuecas. “Podemos ver o teu quarto?”, pergunta. “Sim, mas esperem um bocadinho para eu vestir uma calças”. A diretora aproveita o momento para nos levar ao quarto em frente, onde estão três raparigas loiras, entre os 5 e 6 anos, a brincar com um arco e flecha de madeira. “Arco e flecha? Excelente brincadeira”, diz Zoe. “Nós vimos o A.S. Neill [Alexander Sutherland Neill], nós vimos!”, sussurra entusiasmada uma das raparigas mais altas. “Ele era um fantasma”, diz outra. Zoe responde-lhes: “Acho que é provável que ele ande por aqui enquanto fantasma, não acham? Era ele um homem alto com pés muito grandes?”, pergunta. As três alunas desatam-se a rir.

Nesse momento, Coby (nome fictício) sai do quarto, já com as calças vestidas. Os quartos são standartizados, cada um com dois beliches e capacidade total para quatro crianças. Há ainda um armário para cada criança guardar as suas coisas, roupa para a cama e toalhas. A desarrumação é evidente: há brinquedos, sapatos e roupa espalhada um pouco por todo o lado — o habitual num quarto onde dormem crianças entre os 5 e os 8 anos.

Para cuidar das crianças de cada casa pré-fabricada, existem as chamadas “mães de casa”. No quarto de Coby a responsável chama-se Linda (nome fictício), que tem a seu encargo sensivelmente cinco quartos, ou seja, 20 crianças. Ela cuida das crianças e dos seus quartos, sendo um importante elo afetivo e de manutenção da harmonia do lar. Muitas das crianças mais pequenas (5 e 6 anos) ainda vivem em casa com os pais, e apenas quando sentem que já querem dormir na escola é que se procede à mudança.

E como é que é feita a organização entre géneros? “Quando as crianças têm menos de 8 anos, podem haver rapazes e raparigas nos mesmos quartos. A partir dos 8, os rapazes e raparigas ficam em quartos separados. A partir dos 13 e 14 anos, os alunos passam a ter um quarto individual, podendo rapazes e raparigas ter quartos uns ao lado dos outros.”

Em Summerhill fala-se de liberdade. Mal tal como em qualquer sistema democrático, a liberdade também tem regras

O tema da sexualidade foi muito estudado pelo fundador de Summerhill, que com base na sua experiência e nos estudos das teorias psicológicas, concluiu que repressão da sexualidade não fazia qualquer sentido. Na opinião do educador, a repressão, controlo ou manipulação sexuais estão diretamente ligados a quadros de psicoses, neuroses, entre outros problemas e traumas mentais. Portanto, e tal como qualquer outro tema da vida, a sexualidade deve ser encarada com naturalidade.

Quando as crianças não se adaptam a Summerhill

Nem sempre as coisas correm bem. E sim, existem casos de miúdos que de facto não se adaptaram ao ambiente da escola mais democrática do mundo. “As crianças que vêm para aqui já trazem consigo alguma bagagem e experiência de vida. Até os mais pequeninos de 5 anos”, realça Zoe. “A maioria dos casos que tivemos de inadaptação foi de miúdos mais velhos. Estas crianças, seja pela forma como foram tratadas pelos pais, ou por experiências traumáticas que viveram em escolas convencionais, foram feridas emocionalmente de formas muitos profundas. Uma grande parte tem uma enorme dificuldade em socializar com outras crianças, não tem noção de limites, e comporta-se de forma agressiva e desrespeitosa pelos valores humanos. Como diretora desta escola, não posso permitir que essas crianças continuem por cá a perturbar e impedir o crescimento livre e positivo das outras crianças.”

Não é uma decisão fácil. O modelo de ensino de Summerhill é pensado para integrar todas as crianças, por isso fazem-se inúmeras tentativas para resolver o problema. No entanto, quando chega a um ponto em que já não há nada a fazer, e começa a ser posto em causa o bem-estar de todos os alunos, é preciso tomar uma atitude.

O meu trabalho é assegurar que Summerhill se mantém Summerhill, e eu sei de algumas coisas que verdadeiramente não funcionam: beber álcool, tomar drogas, usar armas”

“Se for o pai de uma criança em Summerhill, irá inscrevê-la aqui para que o seu filho tenha uma infância livre e feliz, e não para ser vítima de bullying. Nós temos de estar preparados para tentar de tudo, e usualmente começamos por sancionar estas crianças através de estratégias construtivas, de modo a que elas compreendam que não podem agir assim perante a comunidade. Quando as situações se tornam mais graves, enviamo-las para casa uns dias. Isto para que elas pensem e reflitam se querem realmente estar em Summerhill e viver da forma com a qual todos nós concordamos viver. Se por ventura elas decidem regressar e não alteram os seus comportamentos, impossibilitando a sua real integração, temos de ser frontais e diretos.”

Como posso inscrever o meu filho em Summerhill

Para inscrever o seu filho na escola mais democrática do mundo, deve enviar um email para [email protected], ou diretamente para Zoe Redhead, [email protected] O número de telefone de Summerhill é +44 01728 830540.

 

 

Mas às vezes há histórias que acabam por ter um final feliz, mesmo que tenha de ser tomada esta difícil decisão. “Estou a pensar num rapaz em concreto que veio para cá há 25 anos, e que era muito problemático — tinha sido encontrado pelos serviços sociais. Nós aceitámo-lo na nossa escola durante cerca de um ano, mas chegou um determinado momento em que não pudemos mais aguentá-lo, ele estava completamente fora de controle. Hoje em dia é casado e tem um filho, dedica-se à jardinagem, e posso dizer que conseguiu encontrar a felicidade. Teve um processo muito complicado mas conseguiu fundar uma família e encontrar um trabalho que o realizasse. Posso dizer-vos que jamais se esqueceu da sua passagem por Summerhill — hoje é um grande amigo nosso”.

Em Summerhill fala-se de liberdade. Mal tal como em qualquer sistema democrático, a liberdade também tem regras. “Aqui há limites, há liberdades e há fronteiras individuais e coletivas — que há que aprender, não só a respeitar, mas também a honrar.”

Uma das poucas regras proibitivas que existem em Summerhill é o consumo de álcool. Foi uma lei implementada por Zoe: “Vi que não podia permitir ter vários alunos completamente alcoolizados a passear pela escola aos ziguezagues”, explica. “O meu trabalho é assegurar que Summerhill se mantém Summerhill, e eu sei de algumas coisas que verdadeiramente não funcionam: beber álcool, tomar drogas, usar armas.”

Estamos prestes a terminar a visita. Depois de darmos um salto na aula de carpintaria, entramos na aula de arte. Uma das raparigas está deitada de barriga para baixo em cima de uma mesa, em tronco nu, enquanto uma amiga lhe faz uma tatuagem nas costas. Tem cerca de 15 ou 16 anos. “É uma aula aberta”, explica-nos a professora, que está ali para ajudar e orientar o processo artístico — mas nunca interferir.

A carpintaria da escola, onde estavam a ser fabricados inúmeros objetos para a feira do final do ano letivo

Já cá fora, e com o verde do abanar das árvores a refrescar as memórias da visita, há ainda tempo para um pequeno desabafo por parte de Zoe.

“Temos estado muito fechados às visitas por parte da imprensa nos últimos anos”, diz-nos. “Fomos muito atacados ao longo da nossa história, principalmente no começo, nos tempos da sua fundação. O nosso foco serão sempre as crianças e o seu bem-estar, e para tal, o nosso trabalho é sempre mais voltado para dentro. Temos tido pouco tempo para nos abrirmos mais ao mundo, mesmo sabendo que somos únicos e um modelo seguido por muitos.”

Preços

Preçário da escola (por período)

Dos 5 até aos 7 anos de idade: 4.770€
Dos 8 até aos 10 anos de idade: 6.250€
Dos 11 até aos 12 anos de idade: 6.750€
Dos 13 até aos 18 anos de idade: 7.369€

Preçário do alojamento e alimentação (por período)

Até aos 7 anos de idade (2.200€)
Dos 8 até aos 10 anos de idade (3.650€)
Dos 11 até aos 12 anos de idade (3.900€)
Dos 13 até aos 18 anos de idade (4.300€)

Desconto de 5% para irmãos e de 10% para filhos de ex-alunos.

Mas Zoe quer mudar isso. “Queremos no próximo ano, e no ano seguinte — 2021, o ano do centenário da fundação de Summerhill — abrir-nos mais à imprensa. Se vir por exemplo a influência que o meu pai teve em muitos professores, pessoas que hoje já estão reformadas, que leram os seus livros quando ainda estavam na universidade, e compreender que ainda hoje as suas ideias e pilares fundadores estão muitíssimo atuais, é simplesmente inacreditável. No ano 2000, o Times Educational Supplement nomeou as 12 pessoas mais influentes a nível educativo no século XX, e o meu pai foi uma delas. Ele teve uma influência enorme, através de um mundo muito pequeno que é Summerhill”.

E remata: “Nós não queremos convencer as pessoas de que este sistema é melhor, mas simplesmente mostrar-lhes que existem outras formas de educação — o que me parece muitíssimo importante”.

*A MAGG viajou a convite da agência Abreu, que organiza viagens de grupo a Cambridge direcionadas para estudantes a partir de 900€

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