O Alasca está a aquecer duas vezes mais rápido do que a média do planeta. Prova disso são as temperaturas máximas atingidas na sexta-feira, 5 de julho, em Anchorage, uma cidade deste estado americano: ultrapassou os 32 graus centígrados — as temperaturas mais altas normais para esta época do ano rondam os 18 graus. Por esta razão, e sob o risco de incêndio, o tradicional fogo de artificio para a celebração do feriado de 4 de julho teve de ser cancelado. E se tivermos que encontrar uma justificação para este fenómeno, culpemos o aquecimento global.

Apesar de governar um dos países que mais sofre com eventos climáticos extremos, Donald Trump continua a achar que as alterações climáticas não passam de uma farsa, tendo, inclusivamente, retirado os Estados Unidos do Acordo de Paris, aquele que elabora medidas que visam diminuir a emissão de gases de efeito de estufa para a atmosfera.

Aquilo que a evidência lhe diz é indiferente, mesmo que 97% da comunidade cientifica defenda que as alterações climáticas e o aquecimento global são uma realidade. E nem quando uma multidão sai à rua a exigir medidas eficazes, como foi o caso da protesto de estudantes que, por todo o mundo, se manifestaram a favor do clima, a opinião de Trump é abalada. Nem mesmo quando as entidades oficiais — como as Nações Unidas ou a NASA — apresentam estudos bem sustentados que demonstram a aceleração do processo de destruição do planeta, derivado de ações humanas. Mas ainda que em minoria, Trump não está sozinho. Ele é só a representação da corrente cética e do negacionismo climático.

O Ártico está a derreter, o nível das águas está a subir a uma velocidade cada vez mais assustadora. Há plástico no mar numa proporção que corresponde à área de França, os habitats naturais dos animais estão a desaparecer e, como consequência, também eles correm o risco de extinção. Há vagas de calor, secas, inundações ou furacões com efeitos devastadores. Mesmo assim, há quem prefira defender que na base dos acontecimentos estão os ciclos naturais da Terra — ao invés dos fatores externos, provocados pela atividade do homem.

Os fenómenos são anormais e flagrantes, de acordo com as conclusões da esmagadora maioria da comunidade cientifica — relembramos que 97% considera a atividade humana a principal responsável pela degradação da Terra. Mas que argumentos usam os 3% que não acreditam nas alterações climáticas? Em que é que se baseiam para contradizerem os alertas que entidades oficiais têm dado? A MAGG foi à procura dos argumentos e contra-argumentos.

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1. O clima já mudou várias vezes

Argumento. É uma das teses mais utilizadas pelos céticos das alterações climáticas: o aquecimento global tem como causa os ciclos do planeta e a comunidade cientifica está a ignorar outros fatores naturais.

Piers Corbyn, um físico e meteorologista, numa entrevista ao “The Guardian”, defende isto mesmo: as mudanças no clima da Terra e nas temperaturas são ditadas, maioritariamente, pela atividade cíclica na superfície do sol — e não pelos efeitos do dióxido de carbono emitido para a atmosfera. “Tudo o que acontece agora já aconteceu antes”, disse, sustentando o argumento com a análise de mapas meteorológicos alemães com mais de 200 anos.

“Estão todos errados”, disse ainda numa alusão àquilo que chama de “opinião estabelecida” por cientistas do clima e governos em todo o mundo, acreditando ainda que na base da crença das alterações climáticas está a desindustrialização dos países ocidentais.

Contra-argumento. A afirmação é verdadeira. No decorrer dos 4,5 mil milhões de anos de existência da Terra, o clima já sofreu várias alterações.

“Muito antes da era industrial, nos quase quatro bilhões de anos em que a Terra arrefeceu e formou sua atmosfera, o clima mudou diversas vezes. Algumas eras climáticas duraram pouco tempo, apenas alguns anos, e outras centenas de milhares de anos”, explicam à MAGG Vanda Cabrinha, Álvaro Silva e Ricardo Deus, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). “As maiores mudanças climáticas ocorreram entre as eras glaciais e os períodos mais quentes, o que levou a mudanças e transformações nos habitantes da Terra (seres vivos e plantas). As mudanças mais recentes foram o Período Quente Medieval e a Pequena Era do Gelo.”

Neste momento, a Terra encontra-se num período interglaciar, aquele que “sucedeu um período glaciar, com início há cerca de 120 mil anos e que terminou há cerca de 20 mil anos.”

Ainda assim, aquilo que deveria mudar num espaço de milhares de anos, está a mudar em muito menos tempo. Tanto assim é que as temperaturas globais nunca foram tão elevadas: 17 dos 18 anos anos mais quentes registados aconteceram desde 2001. Isto não é uma coincidência: a revolução industrial — e o consequente aumento de emissões CO2 para a atmosfera (produzido na indústria do carvão, petróleo ou alimentar) — surgem lado a lado e são a justificação mais plausível para o fenómeno do aumento da temperatura e do aumento dos fenómenos naturais extremos.

“O aquecimento global, que se verifica nas últimas décadas, é reconhecido pelos cientistas como sendo devido à ação humana, sendo que uma das características deste aquecimento global é a rapidez com que está a acontecer. Estudos mostram que o clima da Terra reagiu de forma rápida e mensurável ao aumento das emissões de carbono no começo da era industrial”, dizem os especialistas do IPMA.

“De acordo com o 5.º relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), uma organização científico-política, criada pelas Nações Unidas, o aquecimento do sistema climático é inequívoco e, desde a década de 1950, verificam-se mudanças sem precedentes ao longo de décadas a milénios, nomeadamente: aquecimento da atmosfera e do oceano, diminuição das quantidades de neve e gelo, aumento do nível médio do mar aumentou, e aumento das concentrações de gases com efeito de estufa.”

2. Já houve anos mais quentes

Argumento. Uma declaração amplamente utilizada pelos céticos: no período a que se chama de Quente Medieval, que decorreu entre 800 e 1400 d.C, as temperaturas eram tão ou mais quentes comparativamente às de hoje.

Contra-argumento. O que é que falha nesta teoria? As evidências sugerem que, em algumas partes da Terra, como no Atlântico Norte, as temperaturas eram, de facto, superiores às que se sentiram no início do século passado. Porém, também há evidências que mostram que, noutros locais, como no Tropical Pacífico, as temperaturas eram muito inferiores às atuais. Ou seja, tudo somado, tendo em conta os lugares quentes e frios, o resultado é que, de uma forma geral, o calor era semelhante ao do início do século XX. Só que, desde o século XXI, as temperaturas subiram muito face às do período Quente Medieval.

Tanto assim é que um relatório da The National Academy of Sciences, de 2006, referente ao clima, mostrou que, no Hemisfério Norte, as temperaturas são superiores àquelas alcançadas no ano de 1400. 78 cientistas, de 60 instituições cientificas de todo o mundo, que integram o Past Global Changes (PAGES), confirmaram isto num relatório de 2013.

Há mais um contra-argumento: sabe-se que este neste período medieval havia radiação solar acima da média e menos atividade vulcânica, dois fatores que, conjugados, resultam em aquecimento. Mudanças nos padrões de circulação oceânica têm também influência na temperatura, tendo trazido água mais quente para a zona do Atlântico Norte.

Ou seja: não só as temperaturas estão mais altas hoje, com as causas para o aumento são outras.

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3. A medição das alterações climáticas não é fidedigna

Argumento. Em 2009, um estudo veio dizer que, nos Estados Unidos, as estações meteorológicas estavam mal posicionadas — junto a exaustores de ar condicionado, de estradas de asfalto ou telhados quentes e prédios, que irradiam mais calor —, sendo que 89% não cumpriam os requisitos de localização do Serviço Nacional de Meteorologia.

Contra-argumento. “A consideração da contribuição da influência humana em vários componentes do sistema climático, possibilitada pelo avanço nos modelos climáticos e por séries de observações mais longas, permitiu o desenvolvimento das simulações do clima futuro, incluindo a descrição da incerteza associada”, diz o IPMA. “Hoje em dia, é possível caracterizar com detalhe o clima de determinada região, as alterações climáticas verificadas e esperadas da temperatura, da precipitação, do nível médio do mar, e não menos importante, da frequência de fenómenos meteorológicos e climáticos extremos.”

Há provas “inequívocas” sobre as causas das alterações climáticas, sobretudo naquilo que à relação com a concentração de CO2: o conjunto das emissões antropogénicas [aquelas derivadas de atividades humanas] de gases com efeito de estufa produz um forçamento radiativo médio global 25 a 70 vezes maior do que o das variações naturais — flutuações da energia solar incidente no topo da atmosfera.

4. O dióxido de carbono não provoca alterações climáticas — e até é bom para a vida na Terra

Argumento. Isto é uma cadeia: se o homem não consegue provocar alterações climáticas, então o dióxido de carbono (CO2) emitido para a atmosfera também não é capaz de criar mudanças, pelo menos nas proporções em que este gás tem sido produzido. Há quem vá mais longe, afirmando que o dióxido de carbono até é bom para a atmosfera e para as próximas gerações. “Não há nenhum problema no clima”, disse, citado pelo “Público”, Michael Limburg, então vice-presidente do European Institute for Climate and Energy, que marcou presença numa conferência internacional, no Porto, onde se reuniram várias figuras com visões céticas sobre o problema das alterações climáticas.

“Mesmo se o aquecimento global fosse causado por humanos — o que duvido — não é mau. Um clima mais quente é melhor para a Humanidade do que um clima frio. Sabemos disso pela nossa própria História: em períodos quentes houve abundância, e nas fases frias as pessoas passavam fome”, disse, agora citado pelo “DeSmog”.

Antón Uriartre, professor na Universidade de Saragoça, especializado em climatologia, também é radical nas suas crenças. Defende que o CO2 não é um gás tóxico, argumentando que este é até bom para o Planeta: segundo o mesmo, a história do clima demonstra que sempre que há mais CO2, há mais vida e que o aumento deste gás pode ser vantajoso para a flora terrestre.

Também Scott Pruitt, ex-diretor da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), é cético em relação ao impacto do dióxido de carbono no ambiente. “Creio que medir com precisão a (influência da) atividade humana sobre o clima é algo muito desafiante. Existe um grande desacordo sobre a dimensão deste impacto. Portanto, não estou de acordo que seja uma causa principal do aquecimento global”, disse, citado pelo “Diário de Notícias”.

As emissões de CO2 para a atmosfera

Contra-argumento. A noção de que estes gases poderiam levar ao aumento da temperatura já existe desde que o físico inglês John Tyndall começou a fazer experiências, em 1859, que mostraram que as emissões de CO2 na atmosfera absorvem as radiações e calor do sol.

Os números falam por si: “Desde o início da revolução industrial que a concentração de CO2 atmosférico aumentou desde 280 partes por milhão (ppm), para se situar no atual valor de 410 ppm”, sublinham os especialistas do IPMA. “Durante as últimas cinco décadas, a taxa média anual do aumento da concentração do CO2 tem sido crescente”, acrescenta. Segundo o Observatório Mauna Loa, o aumento tem tido o seguinte ritmo: mais 1.5 ppm por ano na década de 90; mais 2 ppm por ano na primeira década do século XXI; mais 2.4 ppm no período entre 2011 e 2018.

“Este aumento da concentração de CO2 deve-se, em grande parte, às ações antropogénicas — sobretudo à queima de combustíveis fósseis mas também à desflorestação e outras alterações no uso dos solos e ainda atividades industriais (por exemplo, a produção de cimento)”, diz o IPMA, apontando que “há outros gases com efeito de estufa cujas concentrações estão também a aumentar, devido a causas antropogénicas, como por exemplo o CH4, N2O e os CFCs.”

Porém, acrescenta: “Mas de facto o mais importante, à luz do conhecimento atual, em termos de forçamento radiativo é o CO2.”

Mas podemos referir ainda mais dados. Em janeiro de 2017, a NASA avançou que, desde o final do século XIX, houve uma subida da temperatura média da superfície da terra em 1,1 graus celsius, atribuindo como principal causa o aumento da emissão do CO2 (com os níveis mais altos dos últimos 65. 000 anos) e de outros gases emitidos para a atmosfera, todos de responsabilidade humana.

Mais: o IPCC tem vindo a mostrar o impacto destas emissões no ambiente. “É extremamente provável [95% de certeza] que a influência humana tenha sido a causa dominante do aquecimento observado desde meados do século XX”, concluiu, em setembro de 2013.

No ano seguinte, no 5.º Relatório de Avaliação sobre Mudanças Globais, a mesma entidade avança que “a influência humana sobre o sistema climático é clara” e que “as recentes mudanças climáticas tiveram impactos generalizados sobre os sistemas humanos e naturais”. Em 2018, deu o alerta, noutro relatório: “O mundo precisa decretar reduções substanciais nas emissões de dióxido de carbono até 2030 para evitar aumentos de temperatura acima de 1,5 °C que poderiam causar calor extremo, secas, inundações, e pobreza.”

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5. O degelo não tem que ver com o nível das águas do mar

Argumento. Há quem afirme que o aumento do nível das águas do mar não está relacionado com o degelo. É o caso do sueco Nils-Axel Morner, investigador, que tem-se dedicado a estudar estas alterações. O argumento que utiliza para sustentar a sua teoria diz que muitos fatores interferem com estas oscilações, como é o caso da velocidade a que a terra gira.

O investigador fala ainda de um caso “Sealevelgate”, disse na conferência a que o “Público” assistiu — numa alusão àquilo que acredita ter sido a falsificação de números indicados por cientistas: “Em 2003, o registo de altimetria de satélite foi alterado misteriosamente de maneira a sugerir um aumento abrupto do nível do mal de 2,3 milímetros por ano.”

Há ainda quem considere quem ignore as consequências, fazendo apenas alusão a supostas vantagens económicas. É o caso de Mike Pompeo, um secretário de estado americano, que, em maio, apontou benefícios no derretimento do gelo do Ártico, de acordo com o que revelou numa conferência internacional, na Finlândia.

Considerou que a região estaria na “vanguarda da oportunidade da abundância”, dada a redução do gelo marítimo e aos recursos naturais que contém., dando “uma arena de poder e competição global”, pela abertura de novos caminhos que permitem criar novas rotas comerciais: “As rotas marítimas do Ártico poderão tornar-se o Suez e os canais do Panamá do século XXI”, disse, citado pela “CNN“.

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Contra-argumento. “É uma realidade, os glaciares das montanhas estão a recuar e esse recuo tem acelerado desde a década de 80 do século XX”, diz o IPMA. “Nas últimas duas décadas, os níveis de gelo na Gronelândia e na Antártica têm vindo a perder massa, os glaciares continuam a fundir e a extensão de gelo no mar Ártico assim como a cobertura de neve na primavera no Hemisfério Norte tem, continuamente, vindo a diminuir significativamente.”

O aumento do nível médio global do mar — que durante o século XX, se reflete entre mais 10 a 20 centímetros — “resultou principalmente da dilatação térmica provocada pelo aumento da temperatura das camadas superficiais dos oceanos induzido pelo incremento da temperatura da atmosfera à superfície”, explica o mesmo instituto.

Segundo o IPCC, aquilo que explica perto de 75% do aumento nível médio do mar observado no globo, relaciona-se com a perda de massa dos glaciares somada com a expansão térmica dos oceanos, provocada pelo aquecimento.

“Verificou-se que, a partir de 1850, o nível médio do mar aumentou a uma taxa maior do que a dos últimos dois milénios, sendo que, cerca de 55% a 60%, deve-se à dilatação do oceano e cerca de 35-45% à fusão dos glaciares”, conta, sublinhando o facto de mais de 90% da energia extra — devido às alterações climáticas — “é absorvida pelos oceanos, especialmente até aos 700 metros de profundidade.” Como consequência, “o oceano libertará esse calor para a atmosfera, duma forma diferida.”

“Se continuarmos assim, a Gronelândia vai derreter”, diz, citado pela NASA, Andy Aschwanden, um professor da Universidade do Alasca que conduziu um estudo relacionado com a subida do mar nesta zona do globo. “O que estamos a fazer agora, em termos de emissões, num futuro próximo, terá um impacto muito grande a longo prazo sobre a camada de gelo da Gronelândia e, por consequência, caso ela derreta, para o nível do mar e sociedade humana.”

Consequências deste fenómeno? Além da erosão, da perda de vida animal  pela consequente destruição dos seus habitats, sentem-se, em primeira instância, em cidades costeiras. Por exemplo: os bairros mais próximos do oceano, como os Outer Banks, no estado americano da Carolina do Norte, já começaram a desaparecer. Miami já está a desenvolver planos para adaptação da subida do mar. Nos Himalaias o degelo está a formar lagos que levam a inundações.