Dia Mundial das Alergias. “A alergia alimentar pode matar”

Uma especialista fala sobre as alergias respiratórias mais comuns dos portugueses e alerta para o grande aumento das alergias alimentares.

Ninguém nasce alérgico, mas as primeiras alergias podem aparecer logo nos primeiros meses de vida

Três milhões de portugueses sofrem de alergias. Um terço da população vive com esta patologia, que é adquirida com o tempo, sendo que as alergias respiratórias são as que prevalecem — 30% dos portugueses tem rinite alérgica e 10% asma.

Na data em que se assinala o Dia Mundial das Alergias (8 de julho), quisemos saber quais são as maiores alergias dos portugueses e Sofia Luz, alergologista do Hospital Lusíadas Lisboa e criadora da plataforma Senhora Alergia, dedicada às alergias alimentares, não tem dúvidas: “Dentro das alergias respiratórias, que são as mais comuns, os alergénios mais frequentes são os ácaros do pó e as gramíneas, ou seja, a alergia ao pólen”.

Ao contrário dos ácaros do pó, que não têm um carácter sazonal, quem é alérgico ao pólen (ou às gramíneas) vive um momento complicado na primavera. “É a estação que afeta mais estes doentes, principalmente os meses de abril e maio. Mas é preciso ter em conta que ias estações do ano estão diferentes, as temperaturas estão diferentes e, às vezes, temos épocas clínicas um bocadinho fora do habitual, a começar mais cedo no ano e a prolongar-se até meio de agosto”, explica Sofia Luz à MAGG.

Não há cura para as alergias, mas há muito por onde prevenir

Apesar de as alergias serem uma doença crónica e, por isso, sem cura, existem muitas atitudes preventivas que pode tomar para reduzir o impacto desta patologia na sua vida — e a prevenção começa no seu quarto.

“Quando falamos das alergias aos ácaros do pó, a nossa maior preocupação enquanto alergologistas é o estado do quarto. Não é que o quarto tenha mais pó do que uma sala, antes pelo contrário, mas é nesta divisão que as pessoas passam mais tempo, onde dormem horas seguidas”, afirma Sofia Luz.

De acordo com a especialista, os colchões devem ser aspirados semanalmente, deve dar-se preferência a lençóis de algodão (e nunca utilizar fibras de flanela ou polares, mais propícias ao desenvolvimento de ácaros), deixar de lado os cobertores e preferir o edredão. “Nunca de penas, sempre sintético”, diz Sofia Luz.

Para além destas medidas, os quartos devem ter uma decoração minimalista e a abertura das janelas, de forma a arejar a divisão, é recomendada — mas com regras.

“Se a pessoa for apenas alérgica aos ácaros do pó, deve abrir as janelas quando acorda e deixá-las abertas durante o dia. No entanto, caso alguém seja também alérgico ao pólen, tem de se ter um cuidado redobrado. Assim, as recomendações são que as janelas sejam abertas muito cedo, por volta das seis da manhã, fechando-as ainda nas primeiras horas da manhã, e que sejam abertas novamente ao início da noite, por volta das 20 ou das 21 horas”, explica a alergologista.

Já num ambiente de escritório, Sofia Luz refere que os principais perigos são os espaços alcatifados, onde se acumula muito pó, e os aparelhos de ar condicionado: “Estes aparelhos devem ter uma limpeza eficaz de seis em seis meses, mas há empresas que não os limpam durante dois ou três anos. Aliás, há pessoas que acham que são alérgicas ao ar condicionado, mas são, na verdade, alérgicas ao pó que está nas ventilações que não são limpas de forma eficaz”.

Apesar de não existir uma cura para esta doença, existem terapias que podem minimizar os efeitos das reações alérgicas: são elas as imunoterapias específicas, vulgarmente conhecidas como vacinas antialérgicas.

Sofia Luz explica: “Podem ser injeções mensais ou gotas debaixo da língua, feitas diariamente, em que são administrados ao doente os alergénios a que este é alérgico. No caso das alergias ao pólen, se este tratamento for feito durante todo o ano, o doente chega à primavera seguinte com mais resistência e mais tolerância a estes alergénios. São tratamentos preventivos, o corpo fica habituado, e apesar de a pessoa não deixar de ser alérgica, reage de uma forma muito mais suave aos efeitos das alergias”.

As alergias alimentares podem matar

Embora tenham uma menor prevalência do que as alergias respiratórias, as alergias alimentares são uma preocupação crescente, dado que falamos de uma patologia que pode ser mortífera. “Essa é a grande diferença entre as duas: a alergia respiratória é muito incomodativa, principalmente na primavera, mas não se morre disso. Mas a alergia alimentar pode matar”, alerta Sofia Luz.

De acordo com a especialista, os alergénios mais comuns deste tipo de alergias são o leite, os ovos, o trigo, o peixe, os frutos secos, o marisco e a soja. “As reações podem ser leves, apenas uma urticária ou um inchaço, mas também pode levar à morte”, refere a médica, que salienta o grande aumento desta patologia a nível mundial.

“Nos últimos 10 anos, estas alergias aumentaram em 50%. Existe um estado realizado nos Estados Unidos que concluiu que, entre 1997 e 2011, estas alergias aumentaram para mais de metade nesses 12 anos. E prevê-se que nos próximos 12 ou 20 anos o aumento seja ainda maior”, conclui a médica.

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