Joe Nicchi, proprietário e fundador da CVT Soft Serve, uma carrinha de gelados estacionada num mercado conhecido de Los Angeles, tornou-se num fenómeno na Internet, depois de recusar dar de graça cones de gelados a influenciadores digitais, ameaçando-os do contrário: publicou uma fotografia de um cartaz conta de Instagram do negócio onde se pode ler: “Influencers pagam a dobrar.”

Ao “Insider“, o proprietário da carrinha explicou que a fotografia surge no seguimento de vários anos a receber pedidos de gelados de borla: influenciadores querem o produto sem qualquer custo, oferecendo em troca “exposição” nas suas redes sociais.

“Acontecia esporadicamente quando abrimos e, nos últimos anos, ficou fora do controlo”, disse à revista americana, acrescentando que este tipo de pedidos tanto surge online como pessoalmente. Na abordagem, explica, os influenciadores referem o número de seguidores que têm no Instagram, para depois lhe proporem um post em troca de um gelado. “Eu ficava a olhar para eles, tipo ‘Perdeste a cabeça?’”, conta. “É a toda a hora, a toda a hora. Adoram usar a palavra ‘exposição’, estão sempre a usá-la.”

Mas isto vai mais longe. Joe Nicchi conta à “Insider” que ainda há poucos dias recebeu um pedido para servir de graça uma festa de 300 pessoas, ao longo de todo o fim de semana. “Disseram-me que iam estar lá muitos influencers, todos juntos com um total de 10 milhões de seguidores. Sou um ator em LA, tenho família. Eu quero exposição para o negócio, mas ainda tenho de pagar as minhas contas”, explicou.

Na página de Instagram da carrinha de gelados, além da sua fotografia a segurar no cartaz, também partilhou uma imagem da carrinha, em cuja legenda se lê: “Decidimos tornar a coisa oficial, com sinalização. Nós não queremos mesmo saber se vocês são influenciadores e quantos seguidores têm. Nós nunca vos vamos dar um gelado de borla em troca de um post nas redes sociais. É, literalmente, um item de 4 dólares… Bem, para vocês agora é de 8 dólares.”\

O primeiro cartaz publicado

E assim, Nicchi conseguiu a “exposição” de que precisava, sem o prejuízo de dar gelados de graça. As mensagens no Instagram começaram a cair e o post foi partilhado no Reddit. A história espalhou-se: chegou a vários órgãos de comunicação social, desde a “BBC“, à ao “Huffington Post“, “CNN” e ainda revistas gregas, polacas ou suecas. Foi também partilhada pela estrela de wrestling John Cena.

“É emocionante ter sido capaz de expor algumas das atividades fraudulentas em que essas pessoas participam”, disse. “Tenho certeza de que existem influenciadores legítimos, mas quando fiz uma pesquisa descobri que muitos deles são falsos —  têm 80 mil seguidores e 10 comentários.”

A indignação face aos pedidos dos influenciares já tinha sido partilhada por Nicchi no Instagram. O homem partilhou um printi-screen com o tal pedido para servir gelados de graça (ou em troca de exposição) na festa de 300 pessoas. Na legenda, escreveu: “Se é do conhecimento público que qualquer um pode comprar seguidores e gostos, então por que um ‘influenciador’ tem peso? Vamos tornar isto de não pedir às pessoas para trabalharem de borla grande. Não estamos impressionados ou somos influenciados pelos vossos seguidores… Provavelmente compraram-nos.”

Nicchi contou à “Insider” que conhece muitos pequenos negócios que se sentem forçados a dar coisa grátis às pessoas. “É incompreensível”, diz. “Talvez eu tenha inspirado uma pequena empresa a dizer a um influenciador que não.”

A CVT foi considerada uma das melhores food trucks em Los Angeles, poucos meses após a sua abertura. Um ano depois da inauguração, o proprietário organizou o evento “Bill Murray Ice Cream Social”, na esperança de encontrar o ator preferido. O inesperado aconteceu e o convidado de honra apareceu. Apesar dos comentários de vários millennials, chocados pela conta de Instagram da carrinha ter apenas cinco mil seguidores, a verdade é que o negócio está a prosperar. Tanto que já estão a ser preparadas mais duas carrinhas, sendo que Nicchi já serviu celebridades como Halle Berry, Brad Pitt ou Adam Levine.

“Se o Instagram desaparecesse amanhã, nós continuávamos a vender gelado”, disse. Mas não deixa de notar a ironia do destino: ao gozar com a tal “exposição” de que os influenciadores tanto falam nas redes sociais, acabou por ter muito mais visibilidade.

“Acho hilariante. E espero ter impedido alguns influenciares de se aproximarem de outros pequenos negócios, sob o risco de eles mesmo serem expostos.”