O Festival Internacional de Teatro — Actor of Europe considerou Maria do Céu Guerra a Melhor Atriz da Europa, revelou a companhia de teatro A Barraca, esta quarta-feira, 3 de julho.

Apesar de um currículo que inclui 18 participações em televisão e dez em cinema, foi no teatro que a atriz, natural de Lisboa, consolidou grande parte da sua extensa carreira. O interesse pelas artes cénicas nasceu oficialmente no tempo em que frequentava o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, onde integrou o Grupo Cénico. Em 1963 pisa um palco pela primeira vez, na peça “Assembleia ou Partida”, encenada por Claude-Henri Frèches.

E assim começa o seu percurso. A atriz e encenadora faz parte da equipa que funda a Casa da Comédia, seguindo para o Teatro Experimental de Cascais. Nos anos 70, passa pelo Teatro da Revista para em meados da mesma década vir a fundar, juntamente com o cenógrafo Mário Alberto, a companhia de teatro A Barraca, aquela onde, até hoje, vem a dedicar a maior parte da sua atividade no mundo do teatro.

O comité desta companhia, presidido por Jordan Plevnes, refere-se à atriz como “uma das figuras maiores do Teatro e da Cultura em Portugal”, referindo também que “aos 75 anos, é uma das mais extraordinárias atrizes do teatro português e a alma da companhia teatral independente A Barraca.”

A Ministra, Graça Fonseca, também já se pronunciou, em comunicado, sobre a vitória de Maria do Céu Guerra: “É um dia particularmente feliz para a cultura portuguesa quando uma das suas atrizes, que numa longa carreira tem entretido, comovido e maravilhado o nosso público, vê a sua obra internacionalmente reconhecida.”

Também em 2019, Maria do Céu Guerra recebeu o Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, sem esquecer a placa de homenagem no salão nobre do Teatro Nacional D. Maria II. Mas vamos fazer uma viagem no tempo: a MAGG reuniu as principais obras que lhe valeram distinções e nomeações, desde os anos 70.

A propósito da nomeação, a MAGG reuniu as obras que lhe valeram nomeações e prémios, fazendo uma viagem pelo percurso da atriz.

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1. ”O Zé Faz Tudo”

Maria do Céu Guerra ganhou o seu primeiro prémio em 1970, na altura com 27 anos. Recebeu o Prémio da Imprensa, na categoria Teatro de Revista, pela participação na revista “O Zé Faz Tudo”.

2. ”É Menino ou Menina”

Cinco anos depois da sua fundação, o teatro A Barraca viu o seu trabalho amplamente reconhecido na década de 80. Exemplo disso foi a peça “É Menino ou Menina”, uma colagem com vários textos de Gil Vicente feita por Maria do Céu Guerra — que integrou o elenco, formando dupla com o também encenador Hélder Costa.

A peça valeu à companhia quatro prémios atribuídos pela Associação Portuguesa de Críticos: Melhor Espetáculo, Melhor Encenação, Melhor Atriz e Melhor Companhia.

3. ”Um Dia na Capital do Império”

Estreou a 21 de janeiro de 1983, a propósito da XVII Exposição de Ciência, Arte e Cultura. Baseada em textos de António Ribeiro, poeta do século XVI, conhecido por Chiado (por lá viver) e pelo seu tom satírico.

Adaptada por Maria do Céu Guerra, a peça foi encenada por Hélder Costa. O elenco contou com a participação de Carla Osório Mourão, João Maria Pinto, José Carretas, José Gomes, José Rui, Luz Câmara, Madalena Leal, Manuel Marcelino, Maria do Céu Guerra e Orlando Costa.

Volta a ser apontada pela Associação Portuguesa de Críticos, que entregou a Maria do Céu Guerra o prémio na categoria de Melhores Figurinos e de Melhor Atriz. Hélder Costa recebeu o de Melhor Encenação.

4. ”Calamity Jane”

Mais uma interpretação que valeu à atriz muito boas críticas. “Calamity Jane” estreou-se a 21 de novembro de 1986, no Teatro d’a Barraca com encenação e texto de Hélder Costa. É uma alusão a Martha Jane Canary-Burke, uma mulher do século XIX, no oeste americano, conhecida por ser aventureira e por ter lutado contra os nativo americanos.

Recebeu dois prémios da revista “Mulheres”: na categoria de Melhor Atriz, pela interpretação de Maria do Céu Guerra, e de Melhor Encenação, entregue a Hélder Costa.

5. ”A Relíquia”

Uma adaptação da obra do escritor Eça de Queiróz, um romance em torno do protagonista e narrador Teodorico Raposo, um homem que vivia com a tia, de quem planeava herdar a riqueza, mostrando-se, falsamente, um cristão devoto. É uma peça da companhia A Barraca, estreou-se em 2000, no Teatro Cinearte, contando com a encenação de Hélder Costa. Entre o elenco com 11 atores está Maria do Céu Guerra.

A peça não recebeu nenhum prémio, mas a atriz foi nomeada, na Categoria Teatro, a Personalidade do Ano, nos Globos de Ouro da SIC, em 2001.

6. ”Havemos de Rir?” 

Estreou-se no TeatroCinearte a 4 de outubro, de 2002. Foi encenada por Maria do Céu Guerra, que esteve também responsável pelo guarda-roupa e por integrar o elenco, juntamente com João D’Ávila, Carla Alves, Alexandre Ferreira e Sara Noronha. O texto, pensado para o teatro, foi escrito pela portuguesa Maria Judite de Carvalho, uma das mais importantes autoras femininas do século XX.

A peça não recebeu nenhum prémio, mas a atriz volta a ser nomeada na categoria de Melhor Atriz nos Globos de Ouro.

7. ”Todos os que Caem”

Uma produção teatral, desta vez no Teatro da Comuna, em 2006. “Todos os que Caem” é uma peça de Samuel Beckett, coordenada por João Mota, onde se reflete, com humor, sobre a condição humana, contando a história de um casal de idosos, Mr. Rooney, cego, e a mulher Maddy, doente e conformada com a vida. A peça subiu também ao palco do Teatro Nacional Dona Maria II, em 2014.

Maria do Céu Guerra recebeu o prémio de Melhor Atriz, na categoria Teatro, nos Globos de ouro a SIC, em 2007.

8. ”Play Strindberg”

Estreou-se no Teatro da Comuna em 2015, sob encenação de João Mota. A comédia negra, escrita em 1968 pelo suíço Friedrich Dürrenmatt, que se inspirou em “A Dança da Morte”, de 1900, do sueco August Strindberg. Conta a história de um casal resignado, que vive isolado numa ilha, longe até dos filhos, e que celebra as bodas de prata.

A peça não recebeu nenhum prémio, mas Maria do Céu Guerra, na personagem da mulher desse casal, recebeu uma nomeação na categoria Teatro de Melhor Atriz, nos Globos de Ouro.

9. “Os Gatos Não Têm Vertigens” 

Realizado por António-Pedro Vasconcelos e escrito por Tiago Santos, “Os Gatos Não Têm Vertigens” conta a história de uma amizade pouco vulgar e incompreendida, entre uma mulher de 73 anos, recém viúva (Maria do Céu Guerra), e de um rapaz de 18 anos, expulso de casa do pai (João Jesus).

O filme, que se estreou em 2014, venceu um total de 12 prémios. Nove foram atribuídos pelos Prémios Sophia, da Academia Portuguesa de Cinema — entre as categorias, incluem-se Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Ator Principal ou Melhor Atriz Principal. Maria do Céu Guerra venceu ainda na mesma categoria um Globo de Ouro, bem como o prémio de Melhor Atriz dada pela Sociedade Portuguesa de Autores.