Os leitores perguntam, a psicóloga Sara Ferreira responde. É assim todas as semanas. Saúde, amor, sexo, carreira, filhos — seja qual for o tema, a nossa especialista sabe como ajudar. Para enviar as suas perguntas, procure-nos nos Stories do Instagram da MAGG.

Querida leitora,

Antes de mais, quero dar-lhe os parabéns pela coragem de assumir um tema completamente tabu na nossa sociedade. A sua honestidade brutal em relação a esta questão faz-me também agradecer-lhe aqui a sua confiança por me ter aberto um pouco esta página (com certeza, mais ou menos secreta) deste capítulo no livro da sua vida.

Diz-se que “quando nasce uma mãe, nasce a culpa”, e essa é daquelas expressões que só conseguimos compreender em profundidade quando nos tornamos mães. Ser mãe é viver em êxtase e abismo ao mesmo tempo, é ter um riso com lágrimas, um choro com redenção, é encontrar na vulnerabilidade uma resistência impensável, é viver a vida que não é mais a do nosso corpo e é sentir a culpa e a fantasia caminharem de mãos dadas. É, sim, padecer no paraíso. É das coisas mais incríveis, mas ao mesmo tempo das mais difíceis que podemos experienciar.

Como deixar ir as ligações emocionais do passado?

Há muitas contradições que envolvem o nascimento e a criação de um filho, e o que muitas vezes falta é uma evolução que permita integrar na mentalidade das pessoas esta ambivalência que muitas mães sentem (quer sejam de primeira, segunda, terceira ou muitas viagens) sem tanto julgamento social.

Aquilo que a leitora me revela (“dei à luz há uma semana e não sinto uma ligação emocional com o meu filho. O que é que eu faço?”) é mais comum do que se imagina e é motivo de sofrimento emocional (e culpa) por uma fatia considerável das puérperas (recém-mamãs). A depressão pós-parto acomete entre 10% a 20% das mulheres no nosso País.

Sim, percebo e pressinto que a leitora está a sofrer. A leitora quer amar o seu filho e precisa de ajuda. A leitora interessa-se e interroga-se acerca disso. Mas mais do que isso: a leitora quer saber o que fazer para mudar a situação (se não, não me teria escrito).

Minha querida, agora vamos às coisas como elas são. Não posso garantir, obviamente (isso necessitaria de uma avaliação profissional apurada e criteriosa, no espaço e tempo certos), mas algo na sua questão parece indiciar que a leitora poderá estar a “chocar” a referida depressão pós-parto ou, no mínimo, talvez o denominado “baby blues” (melancolia pós-parto).

O “baby blues”, que é mais comum e menos grave do que a depressão pós-parto, apresenta sintomas semelhantes e tende a passar sozinho dentro de duas semanas. Depois disso, o mal-estar já pode ser classificado como doença e precisa ser tratado como tal.

Se realmente for este o seu caso, é bom sabermos (para darmos a atenção e cuidados que a situação merece) que se trata de algo patológico. Sim, é preciso estar alerta e pedir ajuda (a sua pergunta foi claramente um pedido enquanto tal).

E porque é que hoje me refiro a isto num tom bem sério? Porque o problema não é para brincadeiras. É um problema de saúde pública e pode ter consequências negativas tanto para a saúde da mãe, como para o desenvolvimento do bebé. Informação útil nestes casos é tudo. Então, vamos lá.

Há muitos fatores que podem estar a contribuir para o que sente (ou deixa de sentir).

Não sei se a sua gravidez foi planeada, se foi vivida com algumas fragilidades ou se foi de risco, se existe histórico de crises ou abusos com o pai da sua criança, também não faço ideia se há histórico prévio de transtornos depressivos na sua família ou história prévia sua de depressão (fora do puerpério); enfim, há muitos fatores psicobiológicos (todos estes e mais alguns) que, digamos, podem tê-la predisposto a este estado de desconexão com o seu bebé.

Também não sei de que forma decorreu o seu parto (se foi traumático ou com complicações), se a leitora tem pouca ou mais idade, se o bebé é pré-termo, se está ou não empregada, se pode contar com uma rede de apoio, quais eram as suas expectativas para o pós-parto, se está a ter dificuldades em amamentar, entre uma série de tantos outros fatores psicossociais de risco que seriam importantes conhecer para se ter em linha de conta.

Agora, uma coisa é certa. Apesar das elevadas taxas de prevalência da depressão pós-parto, esta é uma patologia sub-diagnosticada. E porquê? Provavelmente porque as mulheres com este tipo de depressão são relutantes em discutir os seus sintomas com o seu pediatra ou obstetra (ou mesmo psicólogo, que seria o ideal!). As razões incluem o receio de serem vistas como “más mães” ou “malucas” e o estigma associado a tudo isso.

Mas, cara leitora, há outra coisa que eu lhe quero dizer. Se o seu filho nasceu e você não sente ligação com ele, sentir-se culpada não resolve nada (rima e é verdade!). Nesta fase, as suas hormonas e neurotransmissores poderão falar mais alto, desgovernados, afinal, acaba de concluir aquilo que foi uma verdadeira revolução no seu corpo e mente: uma gravidez.

Além disso, saiba que o processo de vinculação é algo que vai sendo gradualmente consolidado, nas primeiras semanas de vida do bebé, pelo que – sim – a hora é agora. De agir conscientemente. Reparadoramente. Adequadamente. E se conseguir fazê-lo, com o passar dos dias, irá ser conduzida, nada mais, nada menos, do que à relação e amor quiçá mais fortes que uma pessoa poderá alguma vez sentir.

Para algumas mães, o processo de vinculação pode demorar semanas ou até meses. Este vínculo vai sendo consolidado durante o primeiro ano de vida do bebé e vai-se tornando gradualmente mais forte.

Portanto, e como em qualquer outra relação, convém lembrar que a criação de laços é um processo e não um momento final e único. Da mesma forma, e tal como em qualquer outra relação, a ligação com o seu bebé pode não ser direta ou imediata. Ao contrário de outras formas de ligação, com os bebés, o elemento de reciprocidade não existe durante meses. Eles não conseguem interagir nem responder com os elementos verbais e não-verbais que esperamos das pessoas de quem somos próximas. Isso pode ser mesmo desanimador.

É cultural a idealização da maternidade, e ai da mãe que direccione qualquer afeto negativo para si mesma e para com o bebé. Existem sempre toneladas de expectativas em relação ao tema da gravidez, da maternidade e depressão. Afinal, a mulher deve estar radiante com a chegada de um novo ser. Seria muita ingratidão não estar a sentir-se plena ao viver o milagre da maternidade, assim se julga.

Contudo, todo o ciclo gestacional e também de pós-parto é considerado de alto risco para o psiquismo da mulher.

Como lhe referi antes, a depressão pós-parto é muito mais comum do que se imagina e acomete entre 10% a 20% de todas as mulheres, já a melancolia materna, o famoso “baby blues” chega a afetar 80%!

Sim, o senso comum tende a esconder a real natureza do que é vir a ser mãe. A mulher passa por inúmeras transformações e necessidades de adaptação, de entre as quais 3 delas não podem ser ignoradas. Ela tem a transformação da “filha” em “mãe”, ela tem uma transformação da sua auto-imagem corporal, além de uma transformação na sua relação conjugal (e sexual) com o seu companheiro. E isto sem falar de diversas outras preocupações que podem surgir, como por exemplo, como voltar ao trabalho?

Uma depressão pós-parto pode começar no primeiro mês e pode ir até 2 anos. É portanto um quadro clínico severo que precisa de muita atenção, tanto do ponto de vista da psicologia como, muitas vezes, da psiquiatria. Devido à gravidade da situação, pode haver casos em que haja necessidade de recurso a medicação.

Devido à sua importância, peço-lhe que preste muita atenção a alguns sintomas como irritabilidade? Mudanças bruscas de humor? Indisposição? Tristeza profunda? Ou até mesmo a falta de cuidado com o próprio asseio e de cuidado com o seu corpo ou com o corpo do seu bebé? É possível ainda uma sensação de desesperança, de incapacidade de cuidar desse bebé e até mesmo de desinteresse. E porque chamo a sua atenção para isto?

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Porque é crucial o diagnóstico precoce.

Porém, nem toda a tristeza é depressão pós-parto. O “baby blues” (que costuma aparecer entre a primeira semana e tem duração de até 1 mês), apesar de ser um estado de humor depressivo, é considerado como coerente com todas as transformações que a mulher passa e que precisa elaborar. É preciso ressignificar.

Os sintomas são muito parecidos, mas o que vai diferenciar o diagnóstico é a persistência dos mesmos, já que na melancolia materna, o “baby blues”, o quadro regride por si só no primeiro mês. É realmente um ajuste de uma recém-mamã a todas as expectativas que ela tem a respeito da maternidade.

As mães, nesta fase, precisam de se adaptar uma nova “linguagem”, a uma nova rotina, precisam de desacelerar o seu tempo e passar a colocar-se dentro do tempo de uma outra pessoa, o bebé.

E o que é que as pessoas próximas podem fazer (mas frequente e infelizmente não fazem) diante dessa alteração de humor? Compreensão e atenção (dois bens raros à escala planetária).

A família podia ajudar sendo compreensiva e não criando expectativas como os media, por exemplo, criam em cima dessa mãe. Afinal, e em boa verdade, o que ela menos sente nesse momento é plenitude, candidez e completude! Sente-se incompleta, pois ela acabou de perder uma barriga! Ela perdeu o seu corpo de antes! Ela perdeu uma parte da sua anterior identidade e tem de se reajustar a uma totalmente nova (e desconhecida)! Atenção e compreensão são as palavras-chave para este momento.

Uma mulher irá precisar de um tempo até que elabore todo este processo.

As pessoas em geral necessitariam entender que quando nasce um bebé, também nasce uma mãe. Eu, por exemplo, com a chegada dos meus pequeninos, deixei de ser somente a Sara para me transformar na Mãe da B. e do D. (e é esse “mãe” o “nome” que nos ocorre à mente quando perguntamos por “nós”). É claro que ninguém nos prepara para isso, nem mesmo os cursos mais avançados de pós-parto ou parentalidade. E mesmo a quantidade absurda de livros que podemos ler sobre o tema pouco nos dizem *de facto* sobre como é isto de ser (ou melhor, tornar-se) uma mãe (real).

A maternidade chega e começam as verdadeiras mudanças, o que pode ser muito difícil. Quando os filhos nascem, a nossa vida pode pura e simplesmente virar de pernas para o ar. A minha sofreu (ou melhor, beneficiou-se) de uma pequena (para mim, grande) revolução, a vários níveis. Muitas mulheres referem sentir-se absolutamente diferentes do que eram antes. E a vida nunca mais é a mesma.

Não só ficamos cansadas como, por vezes, desorientadas, e algumas de nós podem entrar num profundo quadro depressivo.

Bom, quanto ao “porquê?” e ao “como” da sua questão (“não sinto uma ligação emocional com o meu filho) talvez já tenha dado para ficar com uma ideia. Agora, vamos ao que interessa, ou seja – e tal como pergunta (e muito bem!) – “O que é que eu faço?” para reverter isso.

Compartilho alguns exemplos (mas há mais) ou “dicas”, que provêm de casos reais. Histórias como a sua, sobre mulheres que num primeiro momento das suas maternidades se sentiram menos disponíveis para se ligarem emocionalmente aos seus bebés. Todas elas estavam com o “bicho papão” dessa temida depressão pós-parto. Porém, todas elas conseguiram superar a situação. 

Mas antes de mais, prometa-me uma coisa: não desista (nem de si, e muito menos do seu bebé). Tudo pode e deve ser superado. Vamos lá!

1. Aceite o que está a acontecer consigo

Tenha em conta os sintomas que atrás lhe mencionei porque podem bem ser aquilo porque está a passar (irritabilidade, tristeza, angústia, alterações repentinas de humor, desorientação, ansiedade, desinteresse). Procure ajuda profissional para um diagnóstico correto. Depois de diagnosticadas com uma depressão no pós-parto, muitas mulheres não querem aceitar essa realidade (ou simplesmente negam-na), mas o que quer que lhe seja confirmado nesse sentido, pense o seguinte. Se você tratar o problema, seja lá o que for, poderá ser só uma fase. Ponha isto na cabeça e não perca tempo. Como lhe disse, este é um assunto sério e quanto mais cedo for feito o diagnóstico, melhor (para si e para o bebé)!

2. Se precisa de ajuda, peça ajuda

Quando nos tornamos mães, algo imediatamente se activa dentro de nós que nos faz sentir e pensar que já não somos a prioridade. Sim, nem mesmo para nós mesmas! Agora que tem um filho, é preciso cuidar dele e protegê-lo. Por isso, nos primeiros tempos, se tiver uma rede de apoio na sua retaguarda que possa assegurar algumas necessidades quotidianas, como ir às compras, cozinhar, limpar a casa, passar a ferro, etc., socorra-se disso. Assim, poderá sentir-se mais “livre” para se doar ao seu filho, sem se perder de vista. Ninguém afronta a maternidade sozinha.

Com mais ou menos ajuda, o facto é que precisamos dela. Então, peça-a. Se pedir, provavelmente receberá. Assim, aproveite esse apoio necessário e tente descansar um pouco mais, durma com o seu bebé, aproveitando os cochilos dele. Tome um bom banho ou coma de forma mais relaxada quando alguém mais próximo estiver com ele. Verá que essas pequeninas coisas (somadas, dia a dia) farão uma grande diferença no seu estado de ânimo.

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3. Dê-se um tempo para se conhecer melhor a si e ao seu bebé

Se nós não cuidarmos de nós, é difícil estarmos verdadeiramente aptos a cuidar dos outros, então, a leitora tem de entender que você é importante e que sem o seu equilíbrio físico e mental o seu bebé não estará bem. Dê o seu primeiro passo. Procure orientação profissional para saber ao certo como cuidar de si (ao mesmo tempo que cuida do seu bebé). Conforme passem os dias, vá-se redescobrindo (com curiosidade e sem grandes expectativas) no seu novo papel de mãe e vá conhecendo o seu bebé.

Mãezinha, deixe-me dizer-lhe outra coisa. É completamente impossível estar “desligada” do seu bebé, mesmo que por um motivo ou outro (que deverá ser investigado com o apoio de um técnico de saúde mental) a sua mente (que muitas vezes nos mente) lhe dê a impressão do contrário. E eu explico. Se há coisa mais certa no vosso “universo” é que vocês dois tiveram uma conexão especial e profunda durante os 9 meses (talvez um pouco mais ou talvez menos, não sei) no seu ventre.

No entanto, assim que um bebé (e uma mamã) nascem, nasce também o processo de individuação, de separação. E aí adquirimos o olhar (que nos acompanha vida fora) sobre o outro como “diferente” de mim. Por mais que uma pessoa acredite saber tudo sobre bebés (porque eventualmente até leu muito durante a gestação, cof cof), vá por mim, cada bebé é um ser único e distinto do outro e tem o seu próprio temperamento. Não se foque tanto em seguir à risca as “regras” dos livros e procure mais conhecer o seu filho. Como é que ele é? Do que ele gosta? Do que não gosta? Quando é que sente fome? De que forma fica mais tranquilo? Contemple os seus movimentos…os seus sons (ai que saudades senti, de repente,  “daqueles” barulhinhos de recém-nascido)… concentre-se no olhar dele.

Uma outra forma de estabelecer uma ligação com o seu bebé, tal como em todas as relações saudáveis, é criar rituais. Uma coisa ou um momento que vos pertença só aos dois… Pode ser o ritual de banho e cama, ou um passeio, ou quando faz contacto visual, fala, dá miminhos e canta para o seu bebé (acredite ou não, a sua voz é pura sinfonia para os seus ouvidinhos)… Experimente! Cedo perceberá o que melhor vos convém.

De repente, pode até ser que – embora provavelmente ninguém lhe peça para fazer isso – você queira falar com o seu bebé, para expressar como se sente, enquanto o acaricia. Coloque-o, por exemplo, no seu peito para que ele ouça o seu coração bater, e diga-lhe que ele não é responsável por você se sentir assim, pedindo desculpas por lhe transmitir eventualmente alguma tristeza. Por mais estranho que lhe possa parecer, os bebés percecionam muito mais do que aquilo que gostamos de supor. Depois diga-me se achou ou não emocionante.

Logo perceberá que se estiver em paz, o seu bebé tenderá a chorar menos e dormir melhor. Todas as suas atitudes, os seus modos, e mesmo o que você come, sente, pensa e diz afetam o seu filho. Vocês dois têm uma conexão emocional impressionante e você, nesta fase, é o seu termómetro.

Uma mãe não aprende a sê-lo nas cartilhas de maternidade. Vai aprendendo, a pouco e pouco, na prática… no aqui e agora, no que faz e faz e faz e é nesse teste (por vezes diáfano, por vezes cruel) de realidade que então compreendemos que até podemos ser uma “boa mãe” (ou melhor, uma “mãe suficientemente boa”) de verdade, simplesmente porque passámos a conhecer os nossos bebés muito além das teorias dos livros.

A maternidade é um dia de cada vez e perceber isso irá permitir-lhe desfrutá-la por meio da aprendizagem.

É claro que haverá dias em que o seu pequenote só quererá dormir agarrado ao seu peito, mas noutros tantos dias ele conseguirá dormir sozinho e aí poderá ler um livro (desculpe hoje a ‘fixação’ nos livros… enfim, substitua pelo que preferir). Por isso, resolva ajustar expectativas e enfrentar a maternidade da maneira que ela é, sem se apressar demasiado ou tentar ser uma super-mãe da noite para o dia.

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4. Se o bebé mama, você ama-se

E cuida-se!… Sabe, é neste ponto que você começará a entender a lógica por detrás das máscaras de oxigénio nos aviões. A orientação é a de que antes de colocarem a máscara a uma criança, os adultos devem colocá-las em si mesmos. Caríssima, a maternidade é um voo de longa duração, pelo que se você não se coloca uma máscara de oxigénio a si mesma, não terá como ajudar o seu bebé. Ou melhor, não terá como se ajudar a ajudar o seu bebé! Muitas vezes o que acontece é percebermos que a sensação de asfixia que se sente nos primeiros dias de atenção ao recém-nascido provém em grande parte de uma falta de cuidado para connosco mesmas. Cuidar-se, amar-se (e se não o consegue fazer, por si só, é caso para procurar ajuda também) é preparar-se melhor para todos os desafios que a maternidade (e, em especial, a recém-maternidade) exige.

E note que neste quesito, não me refiro apenas ao cuidados estéticos (como talvez arranjar-se um bocadinho, pentear-se, se gostar, maquilhar-se, mesmo que não saia muito, abolir ficar de pijama o dia todo). Falo sobretudo do auto-cuidado emocional, mas quanto a este ponto já lá vamos. O corpo também muda (pudera, esteve 9 meses a preparar, gestar e parir uma vida humana!) e é importante a aceitação disso. A volta ao corpo “de antes” pode levar algum tempo, mas se entretanto fizer um esforço para se alimentar da forma mais saudável possível, fazer algumas caminhadas (mesmo que dentro de casa) e parar de inundar os seus pensamentos com negatividade (para isto é que também existe apoio profissional), descobrirá uma nova forma de se amar através dos seus próprios cuidados (bolas, é o mínimo que todas as mães merecem).

5. Permita-se expressar o que sente

Se o seu humor estiver depressivo, a tendência é que quanto mais triste e desanimada se sentir, menos se abrirá. E tem a sua razão! O medo do julgamento nestas coisas é bem plausível. Medo do que os outros irão achar ou dizer, ou pensar acerca de si e de supostamente poder ser uma “má mãe” (no entanto, sem terem um pingo de noção do que se possa estar a passar consigo, ou quanto mais não seja, da mudança hormonal avassaladora que bomba aí dentro).

Procure um centro de apoio a bebés e mamãs e compartilhe os seus sentimentos com outras mães. Sentir-se compreendida e apoiada por outras mulheres que atravessam a maternidade é muito importante. Descobrirá que todas elas têm algo a dizer-lhe, algo a desabafar e muito a ouvir. Algumas delas podem até mesmo estar a passar pelo mesmo, só que a leitora ainda não sabe. A maternidade é um lugar de muita solidão (mesmo que até estejamos rodeados de gente), porém, quando se sentir compreendida, sentir-se-á menos sozinha.

Se achar por bem, diga ao seu companheiro, pais e amigos como se está a sentir verdadeiramente. Assim, poderá receber a ajuda prática e o apoio emocional necessários, apoio esse que no caso da confirmação de um quadro de depressão pós-parto (ou mesmo para um “baby blues”) não substitui um cuidado mais especializado com vista ao seu efetivo tratamento. Se forem devidamente tratadas, ambas as condições poderão (dependendo da severidade do problema, obviamente) verificar uma remissão dos sintomas logo, logo, para a leitora poder seguir em frente.

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Volto a dizer. É importante que todas as mães de primeira viagem que não saibam o que ocorre com os seus sentimentos, falem deles e busquem ajuda o mais rapidamente possível, pois pode ser que a tristeza seja algo passageiro, como na maioria dos casos, ou pode ser que seja algo mais delicado, que deve ser tratado com a ajuda de profissionais.

O primeiro passo que é a tomada de consciência da situação, é a parte que costuma ser mais difícil. Por isso, não perca o seu precioso tempo a sofrer, procure uma ajuda profissional de qualidade.

Ainda que a vinculação seja um processo que tenha que ser desenvolvido, existem maneiras simples de aprofundar a relação mãe-filho.

É importante que a mãe perceba o seu papel, e sua importância para o desenvolvimento emocional de um filho, pois é através dela que se dá início ao desenvolvimento da saúde mental do bebé, e dos processos de relação entre o outro e o mundo. Então, tendo a consciência da importância dos seus cuidados e atenção para com o seu bebé, uma mamã poderá doar-se cada vez mais a esse processo, fortalecendo o seu vínculo afetivo, o qual foi preparado pela natureza, e cujo nome disso é amor.

Ser mãe é um desafio físico, psicológico, emocional e espiritual muito grande e o que muitas vezes a sociedade (atual) se esquece é que quem cuida, também deveria ser cuidado ao invés de lhe serem cobrados, às mães, ideais irrealistas de perfeição de vária ordem, mesmo em pleno puerpério. O mundo inventou esse ideal de que uma mãe é perfeita e isso ainda hoje é um assunto tabu (como futebol, política e religião).

A maternidade é algo, sem dúvida, transformador, e em tempos de redes sociais tudo é compartilhado até à exaustão. De um lado, temos a maternidade idealizada, a de anúncio de televisão, e do outro, temos a que chamam de maternidade real, com algum antagonismo e muito sangue, suor e lágrimas (e noites longas de amena solidão).

O que ninguém comenta é que, tratando-se de ser mãe, dá, sim, para ser incrivelmente feliz e padecer ao mesmo tempo, mas as mães atuais parece que perderam o direito de contar o lado B da maternidade, pois o julgamento oprime-as.

Para mim, a maternidade assemelha-se muito com o outono. Lembro-me de uma vez estar a olhar para as folhas das árvores nessa altura do ano, folhas essas que antes estavam tão floridas e cheias, e vê-las amarelar, a ficarem mais avermelhadas, a adquirir novas tonalidades e texturas… e a pensar: “Estas árvores nunca mais vão voltar a ser as mesmas. Elas continuarão fortes, continuarão árvores, mas elas nunca mais serão iguais, porque elas darão uma pausa agora, para vir o Inverno, um período frio, difícil, escuro para elas, e depois elas irão renascer.”

Sim, elas renascerão. Mas quando isso acontecer, as folhas já não serão as mesmas, porque as folhas anteriores já caíram. As novas folhas serão outras. Talvez por causa do clima, talvez porque a coloração seja um pouco diferente, e nunca exactamente igual ao ficou para trás, talvez elas tenhas mais folhas, talvez tenham menos…mas elas não mais serão as mesmas árvores.

Não terão de ser necessariamente melhores ou piores. Apenas diferentes. Enfim, esta metáfora é um desabafo, mas é também para si um abraço!

Até para a semana.