Pulseiras de picos, cruzes invertidas, música ainda mais extrema e uma ideologia assumidamente anti-cristã. Foi assim que, em meados de 1990, nasceu na Noruega aquela que viria a ser conhecida como a segunda vaga de Black Metal — apenas um dos muitos subgéneros do Heavy Metal.

A ideia não era particularmente nova e foi inspirada em grupos como Venom ou Bathory que, na década de 80, já usavam a música e as suas letras como forma de ir contra o sistema. A sonoridade assemelhava-se à do punk, só que com o dobro da velocidade.

Quem o diz é Jonas Åkerlund, ex-baterista de Bathory, em entrevista ao jornal britânico “The Guardian”. “O som que criámos era uma mistura daquilo que mais gostávamos de ouvir. Um bocadinho como a música punk, só que tocada muito mais rápida. Mas o Metal de hoje nada tem que ver com aquilo que era na altura”, explica.

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O que veio depois foi totalmente diferente, tanto em forma como conteúdo. Estávamos em 1987 quando os Mayhem, uma das bandas mais influentes do género, anunciaram estar à procura de vocalista.

Per Yngve Ohlin, de apenas 18 anos, tinha acabado de chegar à Noruega vindo da Suécia. Interessado no estilo de música que o grupo praticava, enviou uma maqueta juntamente com um rato morto preso a uma cruz e aguardou um contacto. Na altura não o sabia, mas viria a mudar por completo a história da banda e do estilo musical em geral.

Sem grande surpresa, Ohlin foi aceite na banda. Afinal, parecia ter tudo aquilo que o grupo procurava: uma voz distintiva, um sentido de humor mórbido e a personificação do mal que viria a marcar a imagem do grupo e de todos os outros que se seguiram.

Ohlin, ou Dead (morto, em português), como viria a ser conhecido, viu nos Mayhem uma forma de extravasar os seus demónios e de estar em contacto com um imaginário que lhe era querido: a morte. Antes dos concertos, o vocalista fazia questão de enterrar as roupas durante vários dias de maneira a permitir que elas apodrecessem e era comum levar animais mortos — como corvos — para os ensaios.

O alinhamento original de Mayhem, com Ohlin (Dead) maquilhado

The True Mayhem Collection

Segundo contam várias figuras que conviveram com ele, era próximo da morte que Ohlin mais se sentia confortável. Tanto o é que, antes dos concertos, Ohlin tingia a pele com maquilhagem preta e branca que mais tarde viria a ser conhecida como corpse-paint. O objetivo? Assemelhar-se a um corpo sem vida.

Hoje é claro que, na altura, parecia apenas uma brincadeira de miúdos. O jovem lutava diariamente com problemas de saúde mental e era através de certos comportamentos, como a mutilação fora ou em cima do palco, que extravasava o que sentia.

À mesma publicação, Dolk, fundador dos Kampfar, recorda que aquele comportamento já não era novidade para ninguém. “Estávamos numa festa e ele começou a cortar-se com uma faca. Estávamos tão habituados àquilo que o algemámos e deixámo-lo sentado a um canto. Durante todo esse tempo ele nunca parou de beber. Mais tarde, levámo-lo a uma esquadra de polícia só para garantir que ele não fazia mais nenhum estupidez a si próprio”, continua.

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Independentemente dos demónios com que Ohlin pudesse estar a viver, a verdade é que toda a aquela imagem atraia os fãs de heavy metal mais extremo. A temática da morte aliada à critica da religião, e à promoção do culto a Satanás (que na verdade servia apenas para chocar) vendia discos, enchia pequenas salas de concertos e ajudava a formar um culto.

Segundo Dolk, “o cristianismo nunca serviu à Noruega e o Black Metal reagiu a isso mesmo.” Depressa o imaginário do subgénero foi sendo composto por morte, corpse-paint, cruzes invertidas e pentagramas. Os Mayhem declararam-se satanistas e ganharam mediatismo.

Mais ainda quando, em 1991, Ohlin se suicidou cortando os pulsos e dando um tiro na cabeça com uma caçadeira. Na nota de despedida, apenas o seu humor negro: “Desculpem o sangue.”

O suicídio do jovem marcou um ponto de viragem na cena musical, a começar por Øystein Aarseth, guitarrista da banda, que assim que encontrou o corpo de Ohlin, tirou uma fotografia e usou-a como capa de um dos discos da grupo. O ambiente adensou-se e tudo ganhou proporções ainda mais negras.

Do culto da música à queima de igrejas e aos assassinatos

Após o suicídio de Ohlin, Aarseth fundou uma editora musical e uma loja de discos em Oslo chamada Helvete (inferno, em português). A ideia era criar um ponto de encontro elitista e secreto onde só as pessoas conhecedoras do meio pudessem fazer parte. Estava, então, criado o “círculo negro” — como ficaram conhecidos.

Desse círculo viria a fazer parte Kristian Vikernes, o fundador da banda Burzum que tirou todo o protagonismo a Aarseth. É que enquanto este promovia uma espécie de culto de personalidade em redor de si próprio através de entrevistas, Vikernes gravou vários discos e incendiou igrejas. Uma delas foi a de Fantoft Stave, uma das mais icónicas da região, em 1992.

O que restou de uma das igrejas incendidas por Aarseth e Vikernes

Eeg, Jon/TT News Agency/Press Association Ima

Em “Aske” (cinzas, em português), o disco fazia acompanhar-se por um isqueiro e a imagem de capa era da igreja queimada que muitos acreditam ter sido tirada por Vikernes após o incêndio. Mas seria apenas a primeira de uma série da ataques que durou até 1996 — e que resultou na destruição de 50 igrejas pela região e na morte de um bombeiro.

Vikernes percebeu desde cedo o poder que os meios de comunicação teriam. Deu uma entrevista anónima a uma revista local e underground, onde revelou que “a cena Black Metal estava por detrás do incêndio.” Segundo escreve o “The Guardian”, citando a entrevista, Vikernes admitiu de imediato o seu envolvimento: “O nosso propósito é espalhar o medo e o mal.”

Segundo escreve a BBC, assim que a primeira igreja foi queimada, os fãs de Vikernes e da cena Black Metal escandinava perceberam o chamamento. “Dezenas de outras igrejas foram queimadas e algumas tinham crucifixos invertidos e o número 666 pintado nas ruínas.”

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No livro “TRVE: The Norwegian Black Metal Scene”, Kevin Hoffin revela, citado pela BBC, que “a maioria dos músicos de Black Metal queria parecer o mais demoníaca possível e para isso promoviam o satanismo e a inversão de algumas conceitos promovidos na bíblia.”

Apesar de os incêndios terem continuado até 1996, também é verdade que muitos foram consequência da necessidade de fãs imitarem os seus ídolos. Aliás, a forma como um movimento musical depressa se tornou em terrorismo foi tão mediático que, atualmente, há igrejas a serem queimadas nos EUA por jovens que dizem ser influenciados pelo Black Metal.

Ao “The Guardian”, Jonas Åkerlund não tem dúvidas de que os miúdos que se envolveram neste tipo de crimes passaram a pensar numa lógica de grupo, onde o objetivo era chocar e causar revolta.

“Eles viviam numa espécie de bolha onde é muito fácil tornares-te imune: dás um passo, depois dás outro, e antes, de dares conta, a ideia de puderes matar outra pessoa não te parece tão chocante”, revela.

E o movimento ficou manchado por dois assassinatos. O primeiro aconteceu em 1992 quando Bård Eithun, baterista dos Emperor, foi abordado na rua por um homem gay. Nesse mesmo instante, Faust lançou-se a ele, esfaqueou-o 37 vezes consecutivas e fugiu. Seria condenado a 14 anos de prisão, em 1994, mas acabou por sair em liberdade, em 2003, por bom comportamento.

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Um ano depois, seria Aarseth a morrer pelas mãos de Vikernes. Em causa estaria um conflito devido à falta de pagamento de Arseeth pelo dinheiro que a música de Vikernes — e o grupo Burzum — tinham rendido à editora. Em 1994, Vikernes foi condenado pelo assassinato do colega e por ter incendiado dezenas de igrejas. Desde 2009 que está em liberdade condicional.

Atualmente, há cada vez mais bandas a praticar o mesmo tipo de sonoridade violenta. Mas o extremismo das letras e da forma como se vestem ou pintam para os concertos, já que tudo faz parte da teatralidade do género, limita-se apenas à música. Dolk, dos Kampfar, diz que o ambiente é muito diferente do que era há 28 anos.

“Hoje achamos toda aquela situação engraçada e triste ao mesmo tempo. Somos os mesmos gajos que há uns anos enviámos ameaças de morte uns aos outros e hoje estamos sentados à mesa a jantar a conversar”, revela.