Encontrar trabalho nem sempre é uma tarefa fácil e, muitas vezes, vemo-nos obrigados a aceitar um emprego que não nos agrada tanto só para porque o salário é mais alto. Problema: isso pode trazer consequências para a nossa saúde.

Existem alguns motivos que nos levam a odiar um trabalho. Problemas com o chefe, más condições e salários baixos são alguns exemplos, bem como ter um emprego que não se enquadra com as nossas preferências, interesses e área de formação. Tudo isso leva-nos a altos níveis de stresse e ansiedade, que são prejudiciais para o nosso corpo.

Mas também depende da relevância que o trabalho tem para nós. Maria José Chambel, psicóloga de trabalho, revela que, de um modo geral, “o trabalho é uma dimensão bastante relevante da nossa vida”. Segundo a especialista, “ter um trabalho de que não se gosta ou que é muito diferente daquilo que se esperava, pode ser, efetivamente, um aspeto que pode trazer repercussões negativas para a saúde”.

Estivemos à conversa com três especialistas da área da saúde que confirmam isso mesmo: não gostar do trabalho tem consequências para o nosso corpo. Mas quais? Ana Isabel Pedroso, médica de medicina interna do Hospital de Cascais, Maria José Chambel, psicóloga de trabalho, e a nutricionista Mariana Abecasis, explicam.

As dores menstruais fazem-nos perder 9 dias de produtividade num ano

1. Acordar, bocejar, bocejar e bocejar

Uma das áreas afetadas é o sono. A médica de medicina interna do Hospital de Cascais, Ana Isabel Pedroso, afirma que está tudo ligado com o stresse e, assim, acabamos por ter “dificuldade em dormir, não conseguir adormecer de todo ou acordar mais cedo do que é normal”. Ou seja, a qualidade do sono “não é a melhor” e ficamos mais cansados durante o dia.

O especialista do sono Joaquim Mota concorda que a ansiedade causada por não gostarmos do que fazemos afeta o sono, mas deixa o alerta de que o mesmo acontece se estivermos sobrecarregados de trabalho.

“Quando uma pessoa está ansiosa, vai para a cama, vai a pensar no trabalho de que não gosta, não dorme, desenvolve uma insónia, tem dificuldades em adormecer ou acorda com frequência. Mas também acontece o contrário. O facto de estarmos sempre disponíveis para trabalhar tem implicações, como ter dificuldade em adormecer, conciliar o sono com o trabalho ou dormir pouco”, explica.

2. Ter dores no corpo

Outro aspeto que é afetado pelo ódio ao trabalho é o corpo. O stresse gerado faz com que se sintam algumas contraturas ou dores nos musculares. “É uma coisa que as pessoas têm muito e sentem quando estão stressadas. É algo que, quando não se gosta realmente do trabalho, pode acontecer muito e é físico”, revela Ana Isabel Pedroso.

Fazer maratonas de séries aumenta em 50% a probabilidade de morrer mais cedo

3. Não se sentir bem

Parece que não, mas o facto de não gostarmos do trabalho pode levar-nos a ficar doentes — mas não de imediato. De acordo com a psicóloga Maria José Chambel, “a probabilidade de a pessoa vir a sofrer alguma doença por esse motivo vai aumentar, mas também está bastante dependente da própria maneira como encara a situação”.

As doenças são variadas e podem ir desde doenças mentais — como depressão, também mencionada por Ana Isabel Pedroso — até doenças do foro respiratório.

“Hoje em dia, há estudos que relacionam o facto de não gostarmos do trabalho, não só com a saúde mental das pessoas (depressão, desinteresse, desmotivação), mas também com consequências físicas como cansaço em excesso ou até doenças do foro cardíaco, alérgico ou respiratório”, indica a psicóloga e professora na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa.

4. Ter comportamentos pouco saudáveis

Mas as doenças não surgem apenas por não gostarmos da nossa profissão. Não há uma relação direta — têm de existir motivos mais concretos (e existem), até porque muitas vezes este sentimento de desmotivação, tristeza ou frustração leva-nos a arranjar formas de os esquecermos.

Segundo a psicóloga Maria José Chambel, estes estados psicológicos podem fazer com que “a pessoa adote comportamentos pouco saudáveis, como fumar em demasia ou beber bebidas alcoólicas. Vai deixar de ter comportamentos saudáveis e, consequentemente, potenciar o aparecimento da doença”.

Baraza Studio. O estúdio de ioga mais bonito de Lisboa fica em Santos

5. Já comeu uma pizza, dois pacotes de bolachas e ainda tem fome

Normalmente, quando estamos tristes, gostamos sempre de comer qualquer coisa doce para nos animarmos. A nutricionista Mariana Abecasis afirma que a parte emocional e psicológica “tem muito impacto no nosso apetite”.

É a chamada “fome emocional”, que acontece quando a pessoa não está a nutrir o corpo, pois só se alimenta de alimentos pouco saudáveis e vai desregulando o organismo. “Acontece muito quando está a fazer um trabalho de que não gosta. As pessoas comem alimentos mais açucarados porque lhes dão um bem-estar imediato. Quando estamos tristes a nossa tendência é comer alimentos que nos dão essa sensação”, explica.

Como combater esta fome emocional

Mostrar Esconder

Primeiro há que ganhar consciência de que não é o corpo que está a pedir este tipo de alimentos, mas sim a mente. Depois, uma das coisas fundamentais é “comer várias vezes ao longo do dia.

Devemos fornecer alimentos com mais nutrientes ao nosso corpo — como ovos cozidos, iogurtes, queijo cottage ou queijo fresco.

Outro aspeto fundamental passa por beber líquidos. “Se tivermos hidratados não temos tanto apetite. Não só água, mas limonada sem açúcar, por exemplo”, revela a nutricionista.

Mas não se trata de algo consciente. “É a mente que pede este tipo de alimentos que não têm reais nutrientes e que não fazem bem”, revela Mariana Abecasis.

Para a médica de medicina interna Ana Isabel Pedroso, o que acontece muitas vezes é que  “ou temos uma compulsão ou obsessão pela comida, ou então a uma diminuição do apetite”, mas o resultado é o mesmo. “Acabamos por não nos alimentarmos da melhor forma”, diz a especialista.

O que se deve fazer para combater esta situação?

Se não gosta do seu emprego e já sente o corpo a dar sinais, saiba que existem soluções. Ana Isabel Pedroso aconselha o afastamento daquilo que nos está a fazer mal, o que neste caso passa por resolver o que quer que seja no trabalho.

Outra das possibilidades de resolução do problema passa por pedir ajuda profissional. Segundo a psicóloga Maria José Chambel, se a pessoa está num “beco sem saída” e não consegue resolver o problema sozinha, “existem especialistas que as ajudam a reorientar os seus interesses e a sua atividade profissional dando-lhes algumas ferramentas, forças e ânimo para que não desistam de procurar um melhor ajustamento entre o que querem e o que está disponível”.

A psicóloga aponta ainda uma dificuldade: “Muitas vezes, a pessoa também tem ideias muito fixas sobre o que gostaria de fazer e não cria alternativas”.