Algures entre 1995 e 1996, pelas 17 horas, E. Jean Carroll, na altura apresentadora do “Ask E. Jean”, estava na Quinta Avenida, em Manhattan, do outro lado do passeio onde ficava a loja Bergdof Goodman, aquela de onde tinha acabado de sair de coração acelerado. Por esta altura já tinha sido atacada, dentro de um provador. O agressor, na altura um empresário famoso, viria a tornar-se no 45.º presidente dos Estados Unidos.

“Ele puxou-me os collants, ele puxou-me os collants”, disse ao telefone, repetidamente, à amiga Lisa Birnbach, autora de “The Official Preppy Handbook“. “Acho que ele te violou”, respondeu-lhe, revelou o “The New York Times” esta quinta-feira, 27 de junho.

Mais de 20 anos depois, a jornalista, agora com 75 anos, falou publicamente sobre esta agressão. Acusou Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, de a ter agredido, num texto publicado, a 21 de junho, na “New York Magazine“. Só que no texto que escreveu, e ainda que a descrição do sucedido corresponda ao significado do termo, a autora nunca usa a palavra “violação”.

“No momento em que a porta do provador fechou, ele lançou-se a mim, empurrou-me contra a parede e pôs a boca dele junta aos meus lábios. Ainda totalmente vestido, abre o fecho das calças e, forçando os dedos ao redor da minha área privada, introduziu metade — ou talvez totalmente, não tenho a certeza — do pénis dentro de mim”, revelou, na publicação.

Donald Trump sobre a jornalista que o acusa de violação: “Ela não faz o meu género”

Porque é que deixou esta palavra de fora? À “CNN”, a jornalista admite que aquilo que aconteceu encaixa na definição, mas que preferiu não usar o vocábulo, uma vez que a agressão “não durou muito tempo.” Ao mesmo tempo, considera ainda que muitas pessoas pensam “na violação como algo sexy.”

Eu não fui atirada para o chão e violada. A palavra violação carrega tantas conotações sexuais. Isto não foi só sexual — doeu”, disse. Por isso, preferiu usar a palavra “luta”.

Carroll considera ainda que, ao não usar a palavra “violação”, não se está a pôr no lugar de uma vítima. “Eu penso em todas as mulheres que sofrem de constante violência sexual, portanto digo que este incidente — que durou três minutos num provador — foi uma luta. Assim não sou uma vítima, certo?.”

Ao “New York Times”, esta quinta-feira, 27 de junho, a jornalista confessou que se sentia reticente em usar esta palavra. “Foi violento, eu lutei, mas não penso nisto como tendo sido uma [violação]…”, disse. “Tenho dificuldade em dizer a palavra”, confessou.

Em declarações “The Hill“, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendeu-se dizendo que E. Jean Carroll está “garantidamente a mentir”, acrescentando: “Vou dizer isto com o máximo de respeito: em primeiro lugar, ela não faz o meu género. Em segundo lugar, nunca aconteceu. Nunca aconteceu, ok?”.