A 3 de abril, Oscar Alberto Martinez Ramirez, 25 anos, Vanessa Ávalos, 21, e a filha Valeria, 23 meses, saíram de El Salvador, país da América Central, e rumaram a um acampamento de migrantes no sul do México. Foi aqui que, durante três meses, aguardaram notícias relativamente ao pedido de asilo para os Estados Unidos.

Cansados de esperar, no passado domingo, 24 de junho, apanharam um autocarro rumo à fronteira. Ao chegarem, percebem que havia centenas de imigrantes, também eles na fila de espera para as entrevistas que dariam acesso, ou não, ao asilo. É aí que tomam a decisão: iam fazer a travessia ilegalmente, através do Rio Grande, indo de Matamoros, no México, a Brownsville, já no estado do Texas, nos Estados Unidos.

Oscar e a filha Valeria morreram nesse dia afogados. O homem fez primeiro a travessia, tendo deixado a criança na margem americana do rio. Só que ao ver o pai a saltar novamente para dentro de água, agora para ir buscar a mulher, seguiu-o. Vanessa Ávalos viu a família a ser levada pela corrente, para só a vir a reencontrar sem vida. 

A fotografia, captada por Julia Le Duc, repórter para o mexicano “La Jornada“, mostra pai e filha a vestirem a mesma T-shirt, deitados de barriga para baixo, mortos. Ainda que a crise migratória na fronteira dos Estados Unidos faça notícias, todos os dias, a imagem chocou o mundo. É um retrato do desespero de várias famílias que vivem em condições de pobreza extrema e que arriscam a sorte em busca de um futuro melhor. Só que a entrada naquilo que é visto como o mundo das oportunidades está cheia de obstáculos mortais.

Resta saber: quem são as vítimas que simbolizam este flagelo? O que é que faziam? O que é que as fez deixar El Salvador? O que é que procuravam nos Estados Unidos? A família partilhou detalhes da história.

De acordo com o jornal “Diario de Hoy“, Oscar trabalhava numa pizzaria Papa Johns, onde recebia um vencimento de 350 dólares mensais (307€). Este salário era a única fonte de rendimento da família. Vanessa, que tinha estado a trabalhar num restaurante chinês, teve de abandonar o emprego para cuidar de Valeria.

Não tinham casa própria. Viviam com Rosa Ramirez, num complexo habitacional em Altavista. De acordo com esta mulher, o casal fugia apenas numa busca desesperada por uma vida melhor. O plano era passar alguns anos nos Estados Unidos e juntar dinheiro suficiente para comprar ou construir a sua própria casa.

“Eu implorei para eles não irem, mas ele queria juntar dinheiro para construir uma casa”, disse Rosa Ramirez à Associated Press.

Ao deixarem El Salvador, e chegando ao México, receberam uma visto em Tapachula, que lhes permitia trabalhar, ao longo de um ano, enquanto aguardavam notícias sobre o pedido de asilo.

Dois meses depois, a família optou por aproximar-se da fronteira, numa tentativa de acelerar o processo. Apanharam um autocarro rumo a Matamoros e domingo chegaram à fronteira. Foram diretamente à Gateway International Bridge para tentarem defender o seu caso. O problema é que era domingo e o local estava encerrado. Ao mesmo tempo, disseram-lhes que provavelmente teriam de esperar semanas — ou meses — porque muitas outras famílias, na mesma situação, estariam já à sua frente.

Julia Le Duc, autora da fotografia que mostra pai e filha mortos, lado a lado, na margem do rio em Matamoros, escreveu um artigo para o inglês “The Guardian” a relatar a tragédia. Avançou que estariam 300 pessoas a aguardar pelas entrevistas de asilo, sendo que, por semana, estavam disponíveis apenas três vagas.

Ao serem confrontados com o tempo de espera, Oscar e Vanessa decidiram que tentar atravessar o rio seria a melhor opção, numa tentativa de chegarem à outra margem, já nos Estados Unidos. Antes, Oscar — que já havia descrito a Rosa Ramirez a travessia como sendo “fácil” — enviou uma mensagem à mãe: “Mamã, eu amo-te. Estamos bem aqui. Cuidem de vocês.”

“Espero que isto sirva de lição para todos os que dizem que a travessia é fácil”, disse Rosa Ramirez ao “La Prensa”. “Não é. É arriscar as vossas vidas.”

Vanessa Ávalos a falar com as autoridades, depois de a corrente ter levado o marido e a filha

Le Duc descreveu, na mesma publicação inglesa, como é que a notícia da morte do homem e da criança chegou à fronteira. “Houve uma chamada de emergência sobre uma mulher que estava desesperada ao pé do rio. Ouvimos a notícia e descemos para o rio onde ela gritava e gritava que a corrente tinha levado a filha”, conta. “Mais tarde, descobrimos que ela se chamava Vanessa Ávalos. Ouvimo-la dizer aos oficiais que eles estavam no México há dois meses e que queriam pedir asilo nos Estados Unidos.”

As autoridades mexicanas foram, de barco, à procura de Oscar e de Valeria, tendo suspendido a busca na noite de domingo. Segunda-feira, 24 de junho, os dois foram encontrados sem vida.

A mesma jornalista descreve o Rio Bravo como sendo “muito forte”. “Parece superficial, mas tem muitas correntes e remoinhos”, disse. “Ele morreu a tentar salvar a vida da filha”, acrescenta. De acordo com outro artigo do “The Guardian”, em 2019 dezenas de pessoas morreram a tentar atravessar este rio, cujo nível da água é, agora, o mais alto dos últimos 20 anos.

O governo de El Salvador concordou em pagar os custos para trazer os corpos para casa. A ministra das Relações Exteriores de El Salvador, Alexandra Hill, fez um apelo, pedindo para que mais nenhuma família se arrisque. “O nosso país está de luto, novamente. Eu imploro a todas as famílias, pais, não arrisquem”, disse. “A vida vale muito mais.”

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está a ser acusado das duas mortes. Beto O’Rouke, empresário e político norte-americano, candidato às presidenciais pelo Partido Democrata nas eleições de 2020, fez uma publicação no Twitter.

De acordo com Wendy, irmã de Oscar, em declarações ao jornal “Diario de Hoy”, um dos motivos que levou o casal a optar pela travessia ilegal estaria relacionada com a pressão exercida por Donald Trump, que tem apostado em medidas cada vez mais duras para impedir a entrada de migrantes no país.