Editorial. Estamos a criar uma sociedade de clones indignadinhos

Já não há gente feia, nem gorda, não há homens, nem mulheres. E ai de quem diga o contrário.

As marcas agora já nem arriscam, para não se envolverem em polémicas

As pessoas politicamente corretas são umas chatas do pior. Umas ofendidinhas, indignadinhas. Isso até não é o mais grave, porque podiam ser ofendidinhas e indignadinhas e ficarem lá no canto delas, mas o pior é que estas pessoas adoram ser polícias da internet, adoram dizer aos outros o que podem e não podem dizer, fazer, o que podem e não podem ser e até como devem viver. Tudo, de acordo com aquilo que elas julgam serem “as normas”, sendo que essas normas não são mais do que as suas normas, aquelas em que essas pessoas acreditam, e a que querem submeter toda a gente. Acontece que nem toda a gente cabe dentro da mesma caixa. Até porque há uma coisa chamada liberdade, que nos permite fazer com a nossa vida aquilo que bem nos apetece, desde que não prejudiquemos ninguém com isso.

Ainda esta semana, na sua página de Instagram, a apresentadora Laura Figueiredo publicou esta foto de biquíni, exibindo um corpo magro, mas definido. Um dos primeiros comentários era de uma senhora com um perfil fechado que dizia apenas: “Horrível anoréxica”. Mais nada. Depois de levar com algumas respostas de outros seguidores, insistiu: “Acham isto bonito por amor a santa. Que corpo feio. De cara sim é linda”. Ou seja, esta senhora acha que a Laura Figueiredo não tem o direito a ser magra. E se o é, não o pode mostrar, porque se o mostra vai levar com ofensas por parte de quem acha que ela não o deve fazer.

Esta semana, o Reino Unido veio anunciar que vai acabar com os estereótipos de género na publicidade. Vão passar a ser proibidos anúncios em que a mulher está a passar a ferro e o homem a ver televisão, ou em que o homem mostre dificuldades em executar uma qualquer tarefa doméstica ou relacionada com a rotina dos filhos. Tudo muito bonito.

A pressão para que desapareçam dos anúncios imagens de mulheres magras também é cada vez maior, sobretudo se associado ao corpo feminino vier uma mensagem positiva. Começa a ser quase obrigatório que a publicidade passe a ser feita por pessoas que não são particularmente bonitas, que não são magras, que têm os dentes tortos, gente imperfeita, gente comum. Certo.

Mas se até aqui a coisa ia sendo feita com base nesta pressão social (as marcas não arriscam, porque também não quer estar ligadas a polémicas), a partir de agora a tendência é começar a legislar sobre estas coisas, e é isso que me parece pouco razoável. Quando se impõem leis que obrigam a seguir um caminho numa área como a publicidade, o que inevitavelmente acontecerá é que se perderá a criatividade. Para se ser criativo é preciso ser-se livre, e cada vez menos existe espaço para sermos livres. Estamos a caminhar para uma sociedade de clones normalizados, em que todos somos iguais, temos as mesmas ideias, os mesmos princípios, os mesmo valores, os mesmos julgamentos, os mesmos cortes de cabelo, os mesmos sapatos da Zara. Estamos a construir um mundo onde não há gente feia, nem gorda, não há homens, nem mulheres, somos todos um ser global indistinto, sem opinião e orientado por regras muito certinhas que defendemos em público — porque é assim que deve ser — mas que desrespeitamos dentro da nossa cabeça, ou quando estamos escondidos no anonimato atrás de um teclado.

Eu preferia viver numa sociedade com menos regras e mais bom senso, em que as pessoas  pudessem falar, comentar, discutir, debater, respeitando-se e aceitando as diferenças de cada um, sem ser preciso isso estar escrito nos livros de Direito. Preferia poder continuar a admirar homens e mulheres bonitos nos anúncios, e a ver homens ou mulheres normais a lavar a louça e a tratar das crianças. Preferia não ter de estar a pensar se aquele anúncio é sexista ou não, se está a ofender três pessoas que acham que uma publicidade que mostra uma família a comer cereais ao pequeno-almoço é um crime ou que a mulher que aparece é demasiado magra ou gira e isso chateia as que não são tão magras e tão giras.

Até porque gosto de olhar para as coisas de todas as perspetivas. Se se fizer um anúncio em que é um homem a fazer as tarefas domésticas sozinho qual será a reação? Um aplauso generalizado. Se uma marca usar uma mulher com claro excesso de peso num anúncio qual será a reação? Um aplauso generalizado. Normalmente quando os aplausos são generalizados, tendo a desconfiar.

Um dos anúncios de que mais gostei esta semana foi o do regresso dos Jogos Sem Fronteiras, esse clássico dos anos 80 e 90. A televisão vive outros tempos, e se seguramente haverá muitos interessados no formato que foi liderado pelo mítico Eládio Clímaco, a nova geração deve estar mais numa de séries. Também esta semana ficámos a saber que já há data de estreia para “This Is Us”. A jornalista Ana Luísa Bernardino mostra também esta semana na MAGG o vídeo que compara as imagens da série “Chernobyl”, da HBO, com as imagens reais.

Se está de férias, ou vai de férias em breve, deixo-lhe duas sugestões: vá conhecer as novidades do incrível Sublime Comporta ou, ainda num mood calmo, e alentejano, dizemos-lhe o que vai ser o Empower Yourself Retreat, que vai decorrer em julho perto de Évora.

Para quem tem bichos, recomendo a leitura deste artigo da jornalista Marta Proença que o ajudará a identificar os sinais de tristeza do seu animal de estimação.

Por fim, fique a saber que podemos ter desenvolvido um novo osso na cabeça à custa de estarmos sempre a olhar para os ecrãs dos telemóveis. A jornalista Mariana Leão Costa conta tudo aqui.

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