Era bom que os primeiros encontros fossem tão simples como vemos nos filmes. Em “(500) Dias com Summer“, Tom (Joseph Gordon-Levitt) e Summer (Zooey Deschanel) vão à IKEA e brincam nos expositores como se fossem miúdos. Em “Notting Hill“, William (Hugh Grant) leva Anna (Julia Roberts) a um jantar de amigos e tudo corre na perfeição. E em “Grease“, que uma sessão de cinema dentro do carro torna-se no encontro ideal? Melhor impossível.

Repetimos: era bom que os primeiros encontros fossem tão simples como vemos nos filmes. Infelizmente, há alturas em que mais parecem visitas às finanças, com direito a esperar horas até ser atendido, preencher inquéritos intermináveis e correr até à porta, ao estilo de Usain Bolt, assim que tem ordem de soltura.

Nem oito, nem 80. Os primeiros encontros até podem não ser tão descontraídos como aqueles que vemos nos filmes, mas também não devem ser tão aborrecidos como a burocracia. O equilíbrio está num bom meio termo, que pode surgir ou não — afinal, esta é uma espécie de corrida de estafetas, só 50% depende de si.

E enquanto anda de um lado para outro a receber “o testemunho”, vale a pena prestar atenção a tudo o que lhe é passado. É que num primeiro encontro é importante para perceber alguns sinais do outro, que podem revelar-se ótimos ou terrivelmente assustadores.

Mas o que é que devem ser encarados como sinais de alerta? A MAGG pediu a quatro especialistas que identificassem as red flags a ter em consideração e, alerta sentidos apurados, há pontos a que deve mesmo prestar atenção. Por mais que lhe pareçam descabidos no momento, podem dizer muito sobre a personalidade de alguém.

Realizar os pedidos por si e insistir em escolher tudo, ser cavalheiro ao extremo ou não ouvir o outro, são sinais a ter em conta. Mas há outros. Liliana Brazuna, coach do amor e terapeuta; Rita Fonseca de Castro, terapeuta de casais, e Gustavo Pedrosa, psicólogo clínico, ambos da Oficina de Psicologia; e Manuela Peixoto, psicóloga clínica e terapeuta sexual, explicam.

1. Chega atrasado e não tenta sequer justificar-se

Uma coisa é chegar atrasado. Outra coisa completamente diferente é chegar atrasado e nem sequer comentar o assunto. “Um atraso num primeiro encontro pode sugerir alguma falta de respeito ou de consideração por si”, salienta a psicóloga clínica e terapeuta sexual Manuela Peixoto. “Por outro lado, se a pessoa nem sequer tenta justificar-se, pode bem indiciar atitudes desrespeitadoras em relação a si.”

2. A aparência é completamente diferente do esperado

“Isto poderá suceder quando um primeiro encontro ocorre na sequência de conhecimentos travados com recurso a aplicações ou sites de encontros, o que é uma das formas atualmente mais frequentes de conhecer pessoas novas”, começa Rita Fonseca de Castro, terapeuta de casais na Oficina de Psicologia. “Desde logo, o primeiro embate com a realidade pode ter que ver com a aparência física, quando, por exemplo, as fotografias escolhidas para utilização nas redes sociais estão desatualizadas e já têm pouco que ver com a aparência atual, ou quando foram excessivamente ‘trabalhadas’ com ferramentas de edição de imagem.”

Para a terapeuta de casais, é legítimo que surja a questão sobre o que é que aquilo quer dizer sobre a pessoa na sua frente. “Sente-se insegura em relação à sua aparência atual? Terá “disfarçado” mais algum aspeto sobre a sua vida?”. Independentemente da resposta, é um mau sinal.

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3. Não olha nos olhos

Pode mostrar falta de confiança em si próprio ou que esconde alguma coisa. “Mostra pouca honestidade e verdade. Até porque se costuma dizer que os olhos são o espelho da alma”, explica a coach do amor e terapeuta Liliana Brazuna.

4. Realiza os pedidos por si e insiste em escolher tudo

“Este pode ser um primeiro sinal de alerta em relação às necessidades de controlo dessa pessoa. O grau e o tom de insistência devem ser tidos em consideração e distinguir-se quando é uma tentativa de demonstrar ser capaz de tomar decisões a tentar controlar tudo o que vamos comer ou escolher de futuro”, diz Manuela Peixoto, psicóloga clínica e terapeuta sexual.

5. Leva o cavalheirismo ao extremo

“Uma coisa é segurar a porta para a deixar passar, outra coisa é ir abrir-lhe a porta do carro, segurar-lhe a porta, ajudá-la com a cadeira e demonstrar um elevado nível de cavalheirismo”, diz Manuela Peixoto. “Esteja atenta, pois pode bem passar do cavalheirismo num primeiro encontro, ao machismo e conservadorismo em encontros subsequentes. Atualmente vivemos numa sociedade de mulheres fortes e independentes que intimidam os homens mais conservadores”.

6. Ferve em pouca água e é rude com os empregados de mesa

“Este pode ser um indicador do temperamento e não é um indicador nada favorável”, explica Manuela Peixoto. “A baixa tolerância à frustração e a irritabilidade fácil são características psicológicas que sugerem a presença de dificuldades ao nível da regulação emocional. Se num primeiro encontro a pessoa não conseguiu controlar a irritação e a hostilidade, imagine num momento de maior tensão.”

7. Quer ser o centro das atenções

“Da mesma forma que são cativantes, especialmente perante os olhos dos mais introvertidos, as pessoas que falam muito ou são muito extrovertidas, são igualmente desafiantes numa relação, pois tendem também a ser muito desgastantes numa relação a longo prazo”, alerta Gustavo Pedrosa, psicólogo clínico. “Ou se aceita essa forma de ser e aceita ser uma eterna figura secundária, ou está na altura de se afastar dessa pessoa.”

8. É de opiniões extremadas

“Voltando a relembrar que nos primeiros encontros estamos particularmente focados em agradar e atentos aos outros, se existem opiniões, ideais, crenças ou valores muito extremados e diferentes dos nossos, e isso é alvo de atenção, discussão ou argumentação nos primeiros encontros, provavelmente está na altura de repensar a possível relação com essa pessoa”, diz Gustavo Pedrosa. “Da mesma forma, sentir-se especialmente retraído em abordar temas sensíveis, que sabe que serão mal aceites pelo outro, podem ser sinais vermelhos num primeiro encontro.”

9. Ou intolerante à diferença

É “indiciadora de potencial falta de empatia pelo outro, pelo seu mundo, opiniões, gostos e interesses, e de aceitação de que a nossa realidade e visão do mundo não é a única, a mais válida e nem nos confere qualquer tipo de superioridade. É apenas isso, a nossa”, explica Rita Fonseca de Castro, terapeuta de casais. Exemplo: “Quando, por exemplo, alguém não consegue compreender como é que é possível não gostar de música jazz quando esse é o seu estilo musical de eleição, chegando mesmo a tecer comentários depreciativos e que invalidam a diferença e o gosto do outro”.

10. Não tem opinião ou tem sempre a mesma opinião do que a sua

“Se do outro lado não existe uma opinião própria sobre nada ou sente que a pessoa está a mentir ou simplesmente a tentar agradar, pode ser um sinal de alerta para mais tarde, quando as pessoas deixam de fazer esse esforço ou de ter essa tolerância para a diferença de opinião”, acrescenta Gustavo Pedrosa.

11. Esquece-se de aspetos importantes sobre o outro

“O esquecimento de aspetos importantes acerca do outro e da sua vida que já haviam sido conversados anteriormente, poderão ser lidos como falta de compromisso e interesse com o encontro e a pessoa que se está a conhecer”, garante Rita Fonseca de Castro, terapeuta de casais.

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12. O comportamento físico é exagerado ou intimidante

“Se o espaço pessoal e o contacto físico é exagerado ou demasiado ‘ocupado’ pelo outro, se a sua postura física é intimidante, ou se sente que estão a abordar temas demasiado íntimos ou físicos demasiado depressa, provavelmente será o momento de considerar uma saída airosa desse encontro”, garante o psicólogo clínico Gustavo Pedrosa.

13. A linguagem é desajustada

É perfeitamente natural que, num primeiro encontro, exista um esforço para agradar ao outro — e muito mais cuidado na forma como se expressa e comporta. Quando isso não acontece, pode ser um sinal de alerta. Gustavo Pedrosa explica: se ” o conteúdo ou estilo da linguagem ou até a falta de assertividade é desajustada, o mais certo é as coisas não melhorarem a partir daí.”

“Mas tenha em atenção que a ansiedade gerada pelos primeiros encontros podem deixar as pessoas mais trapalhonas ou com uma necessidade extrema de agradar ou passar uma imagem que não corresponde à sua verdadeira identidade ou forma de estar.”

14. Passa o tempo todo a olhar para a televisão

“Particularmente se for para ver um jogo de futebol. Nada contra que a pessoa com quem decidiu ter um primeiro encontro seja apaixonada por desporto, mas se já sabia que ia dar uma Final da Liga do Campeões, poderia ter sugerido o encontro noutro dia ou horário”, explica Manuela Peixoto, psicóloga clínica e terapeuta sexual. “Afinal de contas, acabou de a conhecer de forma mais íntima e já está a preteri-la em relação a um jogo de futebol.”

15. Não se inibe de olhar para outras mulheres e fazer comentários sobre elas

“Ainda que este seja apenas um primeiro encontro, que pode não conduzir a outras saídas, este tipo de atitudes pode ser considerada desrespeitosa e sugerir mesmo a dificuldade que a pessoa apresenta em controlar-se no que toca ao sexo feminino”, diz Manuela Peixoto.

16. Sente que não está a ser ouvida

“Só falar dele próprio, não deixar o outro falar ou falar por cima”, exemplifica Liliana Brazuna, coach do amor e terapeuta. “Denota falta de respeito, narcisismo (porque não) ou até mesmo necessidade exacerbada de ser ouvido e de atenção.” Para Rita Fonseca de Castro, num espectro mais amplo é a sensação de estar perante uma “presença ausente”.

“Quando sentimos que estamos na presença de alguém que não está efetivamente, e ‘de corpo inteiro’, no momento, no ‘aqui e no agora’ da nossa companhia. As manifestações podem ser diversas, como o olhar que se desvia para o telefone, para um ecrã de televisão exposto, o foco de atenção que se dispersa pelo ambiente – espaço e/ou pessoas – circundante.”

17. Percebe que há uma intromissão excessiva no espaço pessoal e vida privada do outro

Ou exatamente o contrário ao ponto anterior, está a ser ouvida demais — querer saber detalhes e muitos pormenores do quotidiano da pessoa que está a conhecer naquele encontro pode ser uma red flag. Liliana Brazuna dá alguns exemplos: “Estar muito em cima da pessoa, querer ler mensagens, ou saber quem ligou, por exemplo.”

Para Rita Fonseca de Castro, terapeuta de casais, a preocupação excessiva é tão preocupante como a ausência total de preocupação.

“Se, em momento algum, existe a atenção de perguntar se se está a gostar da refeição que se está a partilhar, do filme ou peça de teatro a que se foi assistir, ou do passeio que se está a dar, será que a pessoa tem realmente em si o genuíno interesse em saber como o outro se sente?”, questiona. “Se, por outro lado, o questionamento é permanente e sobre tudo o que está a acontecer, quase não deixando espaço livre para desfrutar verdadeiramente do momento, de forma que pode parecer paradoxal, a preocupação pode, tal como no primeiro caso, não ser verdadeiramente com o outro, mas consigo próprio.”

18. Passa o tempo a falar de experiências sexuais passadas

“Se a pessoa que a acompanha neste primeiro encontro passar o tempo todo a vangloriar-se de experiências sexuais passadas, fique atenta pois pode estar na presença de alguém bastante egocêntrico e com traços de personalidade narcísicos”, alerta Manuela Peixoto, psicóloga clínica e terapeuta sexual. “Estas pessoas são tendencialmente pouco empáticas em relação aos sentimentos dos outros e demonstram incompreensão em momentos de sofrimento emocional.”

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19. Ou simplesmente a falar das relações anteriores

Gustavo Pedrosa, psicólogo clínico, explica: “As expectativas são muito relevantes, mas não podemos ser apenas o contrário (ou iguais) do que foi a relação anterior. Não podemos ser apenas uma check list de alguém que procura uma nova relação. Temos que deixar a outra pessoa ‘amadurecer’ um pouco mais essa separação.”

A terapeuta de casais Rita Fonseca de Castro vai mais longe: “A presença destes temas no discurso poderão indiciar que se está, ainda, emocionalmente ligado a alguém que fez parte do passado, com dificuldade em superar algum acontecimento ou relação (o que pode ter sentimentos negativos associados, como o ressentimento ou a raiva), ou, no extremo, ainda sem disponibilidade e espaço para ter uma pessoa nova na vida.”

E continua: “Embora muitas pessoas tenham o desejo real de conhecer novas pessoas e avançar para novos envolvimentos ou relações – o que se materializa, por exemplo, na marcação de encontros – podem não estar verdadeiramente conscientes de que ainda não estão realmente preparadas e com a disponibilidade emocional necessária para o fazer.”

20. Critica constantemente a(s) ex companheira(s)

Manuela Peixoto, psicóloga clínica e terapeuta sexual, não tem dúvidas: “A crítica constante surge habitualmente em pessoas com dificuldade em estarem numa relação positiva e de compaixão para consigo próprias. As pessoas que criticam continuamente ex companheiros/as costumam apresentar dificuldades em estabelecer novas relações pois despendem bastante tempo a pensar sobre as falhas dos outros ou delas próprias.”

21. Começa logo a falar de casamento e de filhos

“Ou então já lhe fala em apresentá-la à família, no próximo almoço de domingo. Pode ser apanhada de surpresa e nem se aperceber que marcou um primeiro encontro com alguém que está numa luta contra o tempo para encontrar uma mulher para constituir família”, alerta Manuela Peixoto. “Os primeiros encontros devem ser momentos agradáveis para as pessoas se conhecerem e não para se sentirem pressionadas.”

22. Não sente segurança durante o encontro

“As relações são feitas de e para nossa segurança. Logo, se essa sensação de estarmos seguros e apaziguados não aparece minimamente nos primeiros encontros, dificilmente acontecerá mais tarde”, explica Gustavo Pedrosa.

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23. Está no encontro já a pensar em mudá-lo

“Por mais que se tenham alimentado muitas, e boas, expectativas acerca da pessoa com quem se vai ter um primeiro encontro, quando se começam a aprofundar os temas de conversa e se detectam diferenças assinaláveis e fraturantes em temas que são estruturais na vida da pessoa, como os dos princípios, crenças e valores, este será um aspecto a merecer uma atenção muito especial”, começa Rita Fonseca de Castro.

“Muitas vezes, alimenta-se a esperança de que a outra pessoa possa vir a mudar, o que pode não ser mais do que uma enorme ilusão. Antes de mais nada, porque o desejo de mudança tem que ser intrínseco e não proveniente do exterior. Existem, naturalmente, mudanças e cedências que qualquer pessoa pode, e está disposta, a fazer em prol de uma relação e da pessoa com quem quer estar.”

Algo completamente diferente é desejar que a outra pessoa mude em algo que é estrutural em si, isto é, que o define — como crenças, princípios e valores. “Neste contexto, falamos daquilo a que alguns autores dão o nome de ‘problemas perpétuos’ nas relações de casal e que começam, precisamente, por ser diferenças desvalorizadas no início das relações, mas que se vêm a revelar, posteriormente e com a passagem do tempo, como um foco de conflito recorrente. Estes conflitos podem conduzir, mesmo, a um desgaste relacional profundo e ao inevitável términos da relação.”

24. Não sente um clique

“Sem clique nos primeiros encontros, dificilmente esse clique aparecerá mais tarde. A racionalidade não pode sobrepor-se à paixão”, remata Gustavo Pedrosa.