Crónica. Só tenho amigos estranhos

A cronista Ana Teresa Santos é uma millennial que gosta de pessoas que não têm medo de ser vulneráveis ou de admitir as suas falhas.

"Gosto de pessoas de verdade, que não me cortem as pernas pelo prazer de as ver sangrar", escreve Ana Teresa Santos

Vince Fleming/Unsplash

Desde miúda que só me dou com pessoas estranhas,

Vou trocar isto por miúdos: gosto de desmitificar pessoas, descobrir o que lhes vai por detrás da carapaça. No fundo temos todos uma carga de histórias e um passado, e são eles que nos tornam mais ou menos sapientes, gratos e experientes.

E eu gosto de pessoas que não tenham medo de o ser. Que se mostrem vulneráveis, que admitam as suas falhas, fraquezas e fragilidades. Que agradeçam e que saibam que não é por passarem por cima de quem quer que seja, que irão mais rápido para aonde quer que seja. Que precisamos dos nossos para voar e de os apoiar para sermos e estarmos (ainda mais) felizes.

Gosto de pessoas de verdade, que não me cortem as pernas pelo prazer de as ver sangrar.

Gosto de quem saiba respeitar o próximo e de quem entenda a importância do Ser Humano acima de qualquer outra coisa. Dá-me um prazer tremendo viver lado a lado de quem defende os seus projetos, mesmo que para isso tenha de trabalhar de sol a sol.

Gosto de abraços intensos e de beijos também. Gosto de partilhar o sol, o mar, a praia e uma esplanada. Gosto de gostar de dizer que gosto sem medo de me espatifar ao comprido porque devia estar calada e controlar afetos, vontades e alegrias.

Não quero controlar emoções, sabores nem sentimentos. Quem está mal aqui não sou eu. Quem vive mal não será nunca a personagem verdadeira da peça em questão.

Gosto de pessoas de carne e osso. Não suporto frases, como “vai-se andando”, “uns dias melhores, outros piores”, Porquê? Em prol de quê? Para quem? É a tua vida. Cabe-te a ti criá-la o melhor possível todos os dias.

E sabes porque é que os meus amigos são todos seres estranhos e lunáticos?

Porque nenhum deles tem medo de viver, de recomeçar, de se reinventar, criar, refazer.

Podem ter de trabalhar dia e noite, viver para explorar, ler, estudar e conhecer, mas vão à luta e nunca em tempo algum deixam de tentar fazer acontecer.

Todos os dias eu lhes agradeço por me inspirarem a não desistir e me ajudarem a amadurecer.

Sabem? Eu sei que, se cair, eles aqui estarão para me dizer “Anda daí Teresinha, ainda há muitos outros caminhos para conhecer”.

Partilhe
Fale connosco
Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado. [email protected]