Sem cadeira de rodas, aprendeu a andar com as mãos e os braços. Hoje tem 17 medalhas paraolímpicas

Viveu até aos 6 anos num orfanato. Não tinha cadeira de rodas, não praticava desporto ou ia à escola. Hoje é uma atleta paraolímpica.

O desporto foi uma parte fundamental da sua vida, para ficar forte, saudável e ter amor próprio

Tatyana McFadden nasceu em São Petersburgo, na Rússia, com espinha bífitida, uma anomalia congénita do sistema nervoso que faz com que a medula espinhal não se desenvolva corretamente no útero. O problema tende a necessitar de uma intervenção cirúrgica assim que o bebé nasce, porque, de outra forma, este corre sérios perigos de morrer. Mas no caso de McFadden foi diferente: “Fui operada com 21 dias. Foi um milagre ter sobrevivido”, diz, citada pela edição americana da “Woman’s Health”.

McFadden ficou com uma paralisia parcial. Mas, apesar de não conseguir mexer o corpo da cintura para baixo, estará longe de ter problemas em mover-se: tem um corpo extremamente forte, com os músculos da parte superior do tronco notoriamente trabalhados, aqueles que já lhe valeram 17 medalhas nos paraolímpicos, 20 em campeonatos mundiais e vários primeiros lugares de diferentes maratonas — de Chicago, Londres, Boston ou Nova Iorque.

Mas se recuarmos à sua infância vemos uma realidade muito diferente. “Não tive uma infância típica”, diz à revista “Self“. Durante os primeiros anos da vida, aqueles mesmos braços, em conjunto com as mãos, foram as únicas ferramentas que teve para se mexer. A mãe, que não tinha condições para a educar, entregou-a a um orfanato, que, sem outro nome que o identifique, é chamado “número 13”. “Sortudo número 13”, diz a atleta à mesma publicação. Esteve aqui até aos 6 anos.

“Não tive nenhum tratamento médico, nenhuma cirurgia extra, nenhuma escola, nenhuma cadeira de rodas — nada”, relata. Esta etapa da sua vida é triste, mas foi determinante para chegarmos a este presente. É que, foi por não ter nenhum suporte de mobilidade, que McFadden começou a trabalhar o braços e as mãos, com os quais impulsionava o corpo para a frente.

“Por não ter uma cadeira de rodas, descobri como me deslocar como as outras crianças”, relata à “Woman’s Health”. “Isso moldou-me para ser uma pessoa que não se vê diferente de outra qualquer.”

Da cadeira de rodas aos paraolímpicos

Em 1994 a vida desta então criança deu uma volta de 180 graus. Foi nesse ano que passou a usar o apelido por que hoje a conhecemos, depois de ter sido adotada por Deborah McFadden, que trabalhava como comissária de deficiência do Departamento de Saúde dos Estados Unidos da América. “Disse a toda a gente que ela ia ser minha mãe”, diz a atleta à revista feminina de desporto, recordando o dia em que Deborah entrou naquele orfanato e a viu pela primeira vez.

Da Rússia mudou-se para Maryland, nos Estados Unidos, onde a aguardava a sua nova família. Pela primeira vez, foi à escola e recebeu mais tratamento médico: foi operada mais de uma dúzia de vezes, para endireitar as pernas que tinham atrofiado nas costas — e por isso é que hoje consegue sentar-se na cadeira de rodas.

Uma anemia e um estado de saúde debilitado marcaram os primeiros anos de McFadden na América.  “Eu estava muito abaixo do peso”, conta, à “Self”. A solução que os pais escolheram para fortalecerem o seu corpo e a sua mente foi a atividade física, encorajando-a sempre a experimentar diferentes desportos — que ela fez sempre, de forma entusiasmada.

Tatyana McFadden, depois de ter sido adotada

Todas as sextas-feiras, sábados e domingos, os pais iam com a filha para Baltimore, onde havia um programa de desportos local. Sentavam-se durante horas enquanto esperavam pela menina. Os efeitos tornaram-se visíveis a curto prazo: McFadden estava mais forte e independente, tanto que, em pouco tempo, se tornou capaz de empurrar a sua própria cadeira de rodas, durante o dia todo na escola, sem a ajuda de ninguém. “Salvou a minha vida”, conta à revista de lifestyle e saúde.

O gosto pelos desportos aumentou conforme foi crescendo e a sua vontade de ver e participar em desportos, como adolescente, nunca acalmou. Pelo contrário. “Quando ficamos saudáveis e independentes, podemos ter objetivos e sonhos. Eu queria ser atleta.” Estava decidido. Ela queria ser atleta. 

Foi aos 14 anos, em 2004, que a jovem hoje perto dos 30 anos, disse, determinada, aos pais — que sempre lhe deram todo o apoio: “Quero fazer as provas para os Olímpicos”, recorda à “Woman’s Health”.

Um tiro certeiro. Com 15 anos, Tatyana tornou-se na pessoa mais jovem a qualificar-se para os paraolímpicos, tendo ganho medalhas de bronze e prata logo nos Jogos de Verão de 2004, em Atenas, na Grécia. Depois desse, vieram os Jogos Paraolímpicos de Verão de Pequim, em 2008, em que recebeu medalhas de prata; os Jogos Olímpicos de Londres, em 2013, que lhe valeram as primeiras medalhas de ouro; e, em 2016, participou nos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em que levou para casa mais medalhas de ouro e prata.

No meio disto, em 2009, começaram as maratonas. A primeira, lembra, foi das coisas mais difíceis que fez na vida. Está feliz por ter tomado a decisão, porque, como resultado, é uma atleta ainda melhor. Dentro dos planos para 2019 estão seis maratonas: além das quatro em que tem participado anualmente desde que entrou em competições deste universo, pretende acrescentar mais duas (Tóquio e Berlim), perfazendo um total de seis maratonas.

Em abril de 2018, depois de vencer a maratona de Boston

Getty Images

Nenhuma destas vitórias se consegue sem treino. Tatyanna exercita-se a sério todos os dias, com treinos bi-diários. Tem treinos de musculação várias vezes por semana e, em época de maratonas, percorre cerca de 160 quilómetros por semana na sua cadeira de rodas de corrida, para se preparar para a competição. 

Esta é uma história de sucesso e de conquistas, conseguida tanto por sorte do destino, como por força e determinação. Mas não é assim para todos os que nascem como Tatyanna, que acredita que o desporto foi uma peça chave para se sentir “bonita e com amor próprio.”

É por isto que ela quer ajudar pessoas em situações semelhantes àquela em que um dia esteve e em que está. O seu plano passa, aliás, por — a longo prazo e pela altura em que se reformar — deixar um “legado de programas” que já começou, distribuir cadeiras de rodas e motivar e ajudar as pessoas a envolverem-se em atividades desportivas.

A sua história já inspirou outros. Foi com 4 anos que a pequena Maddie Wilson viu pela primeira vez Tatyanna. Estávamos em 2013 e McFadden tinha acabado de cortar a meta da maratona de Boston.

“Eu pensei que talvez quisesse uma cadeira de rodas de corrida, talvez pelos meus anos. E recebi-a. Fiz a minha primeira corrida de cinco quilómetros quando tinha 6 anos”, conta Maddie Wilson, que nasceu com o mesmo problema que Tatyanna, de quem se tornou amiga, ao “CBS Boston“.

“Deixa-me tão feliz. Acho que parte de ser uma atleta de elite é poder ser mentora de alguém e eu adoro”, disse Tatyanna, ao mesmo canal.

À “Woman’s Health” acrescentou: “Quero deixa um legado para que a próxima pessoa a aparecer tenha todas as oportunidades. Tudo está a crescer, mas é sempre importante continuar a rolar.”

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