Crítica. O Out of the Blue é o lugar perfeito para quem viaja sozinho

É um hostel de cinco estrelas que nos dá pequenos-almoços nutritivos e tours pela ilha numa carrinha elétrica. Contamos-lhe tudo.

Um dos sítios preferidos: o jardim, com uma enorme mesa, uma pérgola, piscina aquecida e muitos cantos para ler e apanhar sol

Dizer adeus ao Out of the Blue Hostel traz à memória aquela sensação de quando na adolescência nos tínhamos de despedir dos novos amigos que fizemos na colónia de férias. Estava na ilha de São Miguel há uma semana e foi neste espaço bem no centro de Ponta Delgada que me instalei nos últimos três dias de viagem.

Morada: Rua da Boavista 38, Ponta Delgada, São Miguel, Açores

Contacto: 932 181 722

Preço: 20€ a 120€

Nunca tinha viajado sozinha. A experiência superou as expectativas e foi espetacular, mas provavelmente não teria sido igual se tivesse ido parar a outro alojamento. Foi um feliz acaso: foi aqui, neste hostel aberto desde 2015, que me deparei com mais mulheres exatamente na mesma posição que eu, mas com a vantagem de já conhecerem todas as manhas disto que é desbravar o mundo sem ninguém atrás. Explicaram-me várias coisas e há duas principais a reter: ficar em dormitórios pode ser seguro e muito cómodo e, quando o plano é ir a solo, a pesquisa por hostel deve ser filtrada, tendo como requisito o ambiente do local, que deve ser solo traveler friendly. Na mouche.

Esta troca de informação não acontece por acaso. Como explica à MAGG Filipe Silva, 31 anos, proprietário do espaço, natural de Lisboa (que faz a vida entre o continente e a ilha), o objetivo deste hostel passa precisamente por unir as pessoas. “Queremos que as pessoas se sintam em casa”, diz. Mas sem imposições: tudo isto acontece de forma orgânica, com uma fluidez absolutamente natural. Quem quer fazer amigos, faz amigos. Mas quem procura privacidade, também não terá dificuldade em encontrá-la.

Um espaço de partilha

Para isto contribuem vários serviços e espaços do Out of the Blue. Os pequenos-almoços — que garantem uma refeição feita de produtos locais e de qualidade, verdadeiramente saborosos, como panquecas, iogurte natural dos Açores, compotas, pão de trigo e de milho e um snack surpresa bem nutritivo — são servidos num dos sítios mais bonitos do hostel: o jardim, aquele onde se colocou uma enorme mesa retangular, onde todos os hóspedes estão virados uns para os outros. A timidez é gradualmente substituída pela descontração e às tantas já estamos todos a conversar.

Ao jantar, a mesma coisa: é este o ponto de encontro para saborear as refeições temáticas que todas as noites ali são servidas, por 10€ e com tudo incluído.

As Electric Blue Tours também são um ponto absolutamente diferenciador — e de união — neste sítio: são visitas organizadas pelo hostel, que levam os hóspedes a vários pontos de São Miguel, numa carrinha elétrica. “Foram criadas, sobretudo, para os que vêm sozinhos e não querem estar a alugar um carro“, diz.

Foi aqui que conheci a italiana Lidia Di Ghionno, que há dois anos se apaixonou e mudou para São Miguel. É uma das pessoas que guia estas visitas, apesar de ser formada em engenharia alimentar.

Foi com ela, e num grupo só de mulheres que viajavam sozinhas — a representarem desde a Irlanda, à Grécia, Espanha ou Finlândia — que, numa manhã, pudemos conhecer a Lagoa das Furnas ou a vegetação e cascatas da incrível Mata José Cardoso. Também pudemos beber chá com água mineralizada da Lagoa das Furnas no Chalet da Tia Merces, sem esquecer o quente banho nas águas acastanhadas do Parque Terra Nostra, outro ponto de visita obrigatório, outra maravilha desta ilha.

Vilas, dormitórios, aulas de ioga, co-work e exposições. Tudo no mesmo sítio

Fiquei instalada na vila Out of the Blue — uma área com dois quartos com casas de banho privativas e uma cozinha e sala comum — que fica separada do resto do hostel, ainda que a muitos poucos metros, do outro lado da estrada, na mesma estreita Rua da Boavista. “É um espaço mais íntimo, para as famílias que visitam a ilha e que querem mais privacidade”, explica Filipe Silva.

As madeiras, a cama baixa, as paredes cor de rosa pastel, os lençóis branquíssimos, as janelas com vista para Ponta Delgada e o cheiro sempre a limpo deram-nos todo o conforto e introspeção que estas férias a sós pediam, até porque aqui também se joga com o minimalismo — que não polui as ideias. O único contratempo prendia-se mesmo com o facto de existirem escadas entre a casa de banho, no piso de baixo (onde também está uma ótima uma varanda), e a cama, esta na parte de cima, numa mezzanine.

Mas vamos voltar para ao prédio principal. O Out of the Blue tem três andares, por onde se distribuem os dez quartos — sete são duplos e três são dormitórios, ora de seis, quatro ou três pessoas. Tem também uma sala interior onde fica a cozinha comum (que os hóspedes podem usar à vontade), sem esquecer, claro, o bonito jardim, cuja entrada se faz através do segundo andar.

Apesar de descontraído e de moderno, o espaço não perdeu os vestígios daquilo que noutros tempos foi. “Optámos por manter o mais possível a traça da casa. O papel de parede está aqui desde os anos 50 e os puxadores das portas também são originais”, explica Filipe Silva. O proprietário contou-nos ainda que aquele pequeno prédio tem mais de 100 anos e que antes era um solar de família. “Além dos três andares, temos uma torre, que servia para, antes, se verem os barcos a aproximarem-se de Ponta Delgada.”

Tudo aquilo que se teve de construir para que o antigo solar se transformasse em hostel teve mão de Filipe Silva e da sua equipa, não fosse o proprietário formado em engenharia civil. “Fizemos tudo: as camas, a receção, este banco em que estamos sentados [grande tronco de madeira cortado], que veio da Ribeira Grande e que chegou aqui cheio de lagartas. Enchemos a rua de lagartas”, recorda. “Limpámos e fizemos este corte”, acrescenta.

O banco onde decorreu a entrevista entre Filipe Silva e a MAGG, junto à recepção

Só que este é muito mais do que um sítio para dormir. No jardim, além da grande mesa coberta por uma pérgola, há uma piscina aquecida, uma nova zona para aulas de ioga e ainda uma área de trabalho, para aqueles a quem a profissão permite o nomadismo. A acompanhar, o som da cascata que corre ali. “Há muita gente que trabalha e que procura hostels que tenham secretárias e um local para trabalhar”, conta o proprietário.

Junto à receção, há um corredor que funciona como uma espécie de galeria de arte, onde vários artistas vão expondo as suas obras — tanto podem ser habitantes locais, como de hóspedes que passam pelo Out of the Blue e que mais tarde regressam para expor. A última teve inicio a 8 de maio e é da artista Gréta Candová. Filipe Silva conta-nos ainda que está a ser planeada a abertura — provavelmente já para julho — de um restaurante de fine dinning, dentro do hostel.

Boas condições para dormir, boas condições para conhecer pessoas, boas condições para a privacidade, boas condições para trabalhar, boas condições para comer. É como nos dizia o artista dinamarquês Emil Klein, que todos os anos passa temporadas no Out of the Blue e que frequentemente vemos passear nas zonas comuns com o seu roupão às riscas: “Isto é um hostel de cinco estrelas” — mas com a vantagem de um alojamento mais barato: os preços por noite vão de 20€ (num dormitório) a 120€, numa vila.

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