Têm poucas horas de sol e noites que parecem nunca acabar. Nada que bons salários, apoios à maternidade e uma educação pública de qualidade não ajudem a reverter.

Os dias curtos dos dinamarqueses são aproveitados ao máximo, de tal maneira que, à semelhança dos portugueses, dão-se ao luxo de inventar palavras sem tradução. Se Portugal tem saudade, a Dinamarca tem hygge. Dito na língua local assemelha-se a algo tipo “hu-ga” e quem inventou o termo garante que é algo que não se explica, sente-se.

Hyyge Kaffe

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Morada: Rua Tomas Ribeiro, 95, Lisboa
Horário: 10h-19h (fecha à segunda-feira)

A verdade é que o hygge passou a ser uma coisa que ninguém fora da Dinamarca sabe pronunciar mas que todos querem sentir. Numa tradução livre podemos falar de aconchego e foi exatamente isso que Joana Pinto Ribeiro quis trazer para Portugal depois de, há três anos, ter estado em Copenhaga a absorver os rituais que via no dia a dia de quem lá vive.

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“Percebi que há uma maior partilha e que as pessoas estão mais felizes e vivem mais offline”, explica à MAGG. A isso junta-se uma estética simples e cómoda da qual Joana é também fã.

Fez questão que teletransportar toda essa atmosfera para o Hygge Kaffe, o restaurante que abriu há pouco mais de um mês em Picoas e no qual faz questão de ter uma relação próxima com os clientes. Não se inibe por isso de tirar uns minutos para conversar sobre o espaço, a comida ou os livros que tem espalhados pelo restaurante e que tentam explicar o tal conceito inexplicável.

O hygge por aqui nota-se na estética que privilegia plantas e madeiras e numa carta de comida de conforto e com muitos pratos pensados para partilhar. É o caso dos brunches, principalmente o Brunch Hygge (20€), composto por pão e croissant, tábua de queijo e fiambre, manteigas e compotas, taça de igurte com granola e frutos vermelhos, tosta de abacate, cinamon roll e duas smørrebrød. Mais uma palavra difícil de pronunciar mas que quando a vir em forma de realidade percebe que afinal é tão familiar quanto uma fatia de pão com toppings. Esta sandes aberta, típica da Dinamarca, aqui é servida em cinco variantes, mas sempre acompanhada de batatas fritas: (1) salmão fumado, Philadelphia e alcaparras; (2) roastbeef; (3) abacate e ovo escalfado; (4) bacon de peru, ovo mexido e cebolinho; (5) e camarão.  

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Das terras frias vêm ainda as pandekager, umas minipanquecas mesmo a pedir que o prato fique no meio da mesa para que, mais uma vez, a experiência seja de partilha. As panquecas podem ser servidas com compota e maple syrup (4€), frutos vermelhos, chantily ou bola de gelado (6€) ou ganache de chocolate, avelã e chantily (6€).

A carta tem mais opções de menus de brunch e pequeno-almoço, bolos caseiros à fatia, iogurtes, açai e ainda bowls que servem perfeitamente de almoço. Aliás, de terça a sexta-feira (o restaurante fecha à segunda-feira), há um menu de almoço por 10€ do qual faz parte a sopa do dia, um sumo e um dos itens à escolha: smørrebrød ou bowl, sendo que esta última pode ser de frango, salmão, tataki de atum, camarão ou vegetariana.

Não há estômago anatomicamente preparado para provar tudo isto numa só refeição, mas fizemos uma gestão bem calculada para que no estômago coubesse um pouco de tudo o que a Dinamarca tem para oferecer.

Como o relógio bate as 13 horas, saltamos o pequeno-almoço e fazemos uma refeição mais composta. A sopa do dia é densa, com crouton, um molho de iogurte e, se o nosso paladar não nos engana, foi feita com legumes levados ao forno antes de triturados. Já bem aconchegados, como o hygge assim o exige, partimos para a aventura de uma consistente bowl vegetariana — desengane-se quem pense que vai comer uma aborrecida taça de alface e tomate — e um smørrebrød feito com abacate e ovo escalfado. Aqui Joana admite que teve que adaptar a comida nórdica ao paladar português, pouco habituado ao pão escuro e denso dos países nórdicos. “Trocamos por pão da Gleba e acho que não ficamos a perder”. De todo.

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Os doces chegam à mesa em forma de mini panquecas e mini cinamon rolls, perfeitos para ir picando enquanto se aprecia um café. “Não queremos filas à porta, nem pessoas a comer com pressa. Queremos que venham, em família, com amigos, com crianças, e que vão ficando, que vão conversando, sem prestar atenção às horas”, explica Joana. Mas já que se fala em horas, deixem-nos só confirmar a quantas andamos. Depois de três horas de pão da Gleba, sopas quentes, sandes abertas, panquecas em miniaturas e muita conversa, são quatro da tarde. Passámos no teste de hygge com distinção.