Tinham passado poucos dias desde a explosão nuclear em Chernobyl, na Ucrânia, a 26 de abril de 1986. O azul do céu e o sol radiante que se sentia a mais de 120 quilómetros de distância, em Kiev, não fazia prever aquele que mais tarde viria a ser conhecido como um dos piores desastres nucleares da História. Mas se dúvidas ainda existissem do impacto do acidente, Dmytro Yatsyuk, 44 anos, guarda na memória — e no corpo — as marcas desse tempo. Um tempo que lhe levou a inocência e parte da família.

Dmytro, ex-jornalista e membro da Comunidade Ucraniana de Moçambique, tinha apenas 11 anos quando tudo aconteceu. Em exclusivo à MAGG, recorda uma infância semelhante à de outras crianças da sua idade, onde a única preocupação era estudar e jogar à bola nos intervalos. Tudo isto enquanto ansiavam o final do ano letivo.

Durante uma aula, o alarmismo. “Poucos dias depois do desastre, uma das professoras correu até à nossa sala de aula e disse-nos que, devido a um acidente grave numa ‘estação energética’, deveríamos ir para casa, fechar as janelas e não sair à rua”, revela em exclusivo à MAGG.

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Agora, 33 anos depois, Dmytro recorda que tudo lhe pareceu “irreal” e muito semelhante às imagens de explosões de bombas atómicas a que era sujeito na disciplina de Defesa Civil, uma disciplina bastante militarista que fazia parte do currículo da escola soviética.

No entanto, conta que recebeu a notícia com “uma certa naturalidade”. Muito devido à propaganda soviética que inundava o lar do cidadão comum.

“A propaganda soviética era omnipresente e estava nos meios escritos, na televisão, na rádio e até mesmo nos monumentos. E toda ela recordava que o mundo ocidental, em especial os Estados Unidos da América, possuíam uma bomba nuclear. Que já a tinham usado e que gostariam de a usar novamente — mas desta vez contra a União Soviética”, explica.

A naturalidade com que recebeu a notícia, continua, é também facilmente explicada com uma frase que a mãe lhe disse quando ele tinha apenas 7 anos, mas que evidencia o pragmatismo vigente do quotidiano soviético da altura.

“Quando Leonid Brezhnev [líder soviético entre 1964 e 1982] morreu, a minha mãe disse-me: ‘Que, pelo menos, não haja guerra.’ Hoje, nem ela se lembra de me ter dito isto. Afinal, ninguém discutia este tipo de assuntos com uma criança.”

O quadro pintado pelo tio de Dmytro, Valery Slovokhotov, que mostra a natureza "exuberante da Ucrânia" que, após 1986, ficou contaminada

Valery Slovokhotov

Mas mesmo depois de todas as crianças terem sido impedidas de regressar à escola, Dmytro recorda como o pai nunca se mostrou alarmado. E considera-o uma “vítima do sistema paternalista” da sociedade da altura.

“Talvez por sempre ter sido um admirador mais ou menos envergonhado de Estaline, raramente contestava as coisas que eram ditas ou impostas publicamente na imprensa e na televisão. Mesmo que desconfiasse que aquilo que ouvia não correspondia à realidade. Apesar de não ser uma pessoa inculta e até ler bastante — era fã incondicional de Dostoiévski —, creio que foi um alvo fácil da propaganda estatal.”

Mas a falta de informação, que interessou ao governo soviético, contribuiu fortemente para o desnorte e até para a inércia das entidades responsáveis que poderiam dar resposta em situação de catástrofe. Segundo conta Dmytro, “cada um reagiu à sua maneira.”

Os que podiam, e tinham meios para isso, decidiram abandonar a Ucrânia e ir para o mais longe possível de Kiev e das regiões afetadas. Mas houve quem tivesse recorrido a medidas que em nada ajudavam às chances de sobrevivência. “Uns refugiaram-se no álcool enquanto outros davam de beber tintura de iodo às crianças.”

As gotas da solução eram diluídas num copo de água para as crianças embora, na realidade, aquela fosse uma ação “praticamente inútil” difundida pelos ditados populares que faziam crer que era isso que ajudava a expulsar a radiação do organismo. Não era.

A grafite que ficou exposta após a explosão do quarto reator da central nuclear incendiou. E a radiação foi sentida na Bielorrússia, Ucrânia, Rússia e vários países da Europa. Segundo um relatório da Organização das Nações Unidas, o número de vítimas a sofrer com a exposição terá sido entre 40 a 50 mil pessoas.

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O contacto com a morte sempre fez parte da infância do ex-jornalista. Depois da morte das duas primas num acidente, que aconteceu anos antes ao desastre nuclear, Dmytro acompanhava a avó nas suas idas ao cemitério local nos arredores de Kiev. E foi isso que lhe permitiu afirmar o que para o governo soviético nunca foi reconhecido: que as mortes como consequência do desastre de Chernobyl ultrapassaram as 31 reportadas pelo estado.

“Lembro-me que, durante uma década, o cemitério que visitava com a minha avó não cresceu porque mortes na vila eram bastante raras. Dez anos após Chernobyl, o tamanho duplicou. Os casos de cancro subiram a pique e com isso vieram as mortes. Mas houve também quem morresse sem uma razão aparente, ou vítimas de ataque cardíacos repentinos”, conta.

Um ano após o desastre, Dmytro Yatsyuk começou a sentir na pele as consequências da radiação a que tinha sido exposto em Kiev — uma das regiões afetadas. Dia após dia, começou a perder todo o cabelo que tinha e até as sobrancelhas desapareceram.

“De certa forma, fiquei marcado para sempre e de forma visível com a queda de cabelo”, diz, acrescentando que isso lhe deixou sequelas psicológicas graves: foi rejeitado pelos colegas, sofreu bullying e passou a ser uma criança permanentemente insegura. Conseguiu ultrapassar tudo isto, mas foram precisas quase duas décadas porque, na altura, “os psicólogos eram uma coisa do cinema.”

Dmytro em criança

No entanto, Dmytro ainda não é considerado uma vítima oficial do desastre nuclear. “Os mais de dois milhões de habitantes de Kiev não estavam nos planos do governo soviético e, mais tarde, ucraniano. Muita gente foi atingida e todos eles precisavam de ser tratados, de subsídios e de diversas formas de ajudas sociais.” Mas fechar os olhos era mais fácil.

“Foi mais simples dizer que a capital não estava contemplada nestas medidas, embora tivesse sido atingida em pleno pela radiação.”

Assim que o cabelo começou a cair, toda a família do ex-jornalista sabia o porquê. Mas as hipóteses avançadas pelos médicos eram várias. Disseram que Dmytro se automutilava ou que o que estava a acontecer era uma consequência direta de vários exames raio-x — mesmo que nunca tivesse feito um.

Em todas as consultas a que foi, nunca ninguém associou o problema de Dmytro à explosão de Chernobyl. Estava expressamente proibido.

“Soube que no Ministério da Saúde da Ucrânia Soviética tinha sido posto a circular um decreto que proibia os médicos de relacionar quaisquer sintomas com o desastre. A explicação era sempre a mesma: se as pessoas nunca tivessem vivido na zona de exclusão — a cerca de 30 quilómetros em redor de Chernobyl — então não fazia sentido falar de consequências de exposição a radiação.”

Mas fazia todo o sentido. Especialmente quando, “natural e oficialmente desligado de Chernobyl”, a avó materna morreu com um cancro agressivo, ou quando o meio-irmão passou por uma série de problemas de saúde graves.

“Toda uma geração de ucranianos foi atingida em pleno pela radiação. E toda outra geração vai ter de lidar com doenças ou a perda de pessoas próximas graças à maneira como a União Soviética lidou com o desastre”, continua. E estima-se que tenham sido cerca de 150 mil as pessoas ignoradas pelo governo soviético.

Denunciar esta inércia era especialmente difícil porque todos os envolvidos nas operações pós-desastre foram tratados longe dos olhares dos mais curiosos. Mas nos hospitais “normais” (leia-se, onde eram acompanhados os cidadãos comuns), Dmytro viu pessoas igual a si: crianças sem cabelo e sem saber o que esperar do futuro.

“Durante vários anos fui diagnosticado com pancreatite, sem perceber se os médicos que me estavam a tratar sabiam ou não da verdade.”

Mas mais de 30 anos depois, o ex-jornalista que agora vive em Moçambique diz estar “razoavelmente bem”. No entanto, não esquece a carga negativa ao lembrar-se do desastre sempre que regressa à cidade que o viu crescer.

“A 1 de maio de 1986, os níveis de radiação no centro de Kiev estavam mais de 100 valores acima daqueles que são considerados normais. Mesmo assim, o poder soviético obrigou as crianças a marcharem na coluna festiva.”

A marcha coletiva de crianças em Kiev, quando os níveis de radiação estavam altíssimos na região

E embora reconheça que isso permite analisar as coisas de uma outra forma, garante que se tornou num pessimista — principalmente quando, com apenas 18 anos, estava em aberto a hipótese de ser chamado para servir no exército soviético.

“Poderia ser enviado para o Afeganistão ou para qualquer outro ponto do império, onde ficaria incumbido de matar para manter a grandiosidade da pátria”, recorda. Incoformado, ponderou fugir através de várias redes clandestinas que auxiliavam os mais críticos do regime que se recusavam a servir o exército. Felizmente, nunca aconteceu.

Antes do desastre, chegou a estar em cima da mesa a possibilidade de se mudar com a mãe para Pripyat, a cidade mais próxima da central nuclear, através de um programa de distribuição dos universitários recém-formados pelas regiões soviéticas. Mas a má fama da central salvou-o.

“As amigas da minha mãe contaram-lhe que o local não era muito seguro e que tinha morrido uma jovem numa praia fluvial do rio Pripyat, sem razão aparente. É a prova de que nem todos os rumores são maus, porque estes salvaram-nos. Caso contrário, dificilmente estaríamos a fazer esta entrevista”, desabafa.

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Durante a década de 90, mudou-se com a mãe para Moçambique onde aprendeu a falar fluentemente português através do Centro Cultural Brasileiro, em Maputo.

Quanto a “Chernobyl”, a série da HBO, Dmytro diz que há muita verdade, mas aponta um exagero: a presença omnipresente do pessoal militar. Por outras palavras, não havia um controlo militar excessivo como o ucraniano diz ver na série.

“Após quase 70 anos de regime soviético, não havia necessidade disso. É mais uma realidade Orwelliana onde as pessoas recorriam antes à autocensura face àquilo que diziam e faziam e até ao que pensavam.” Mas não nega um controlo absoluto do estado.

“Lembro-me de uma conversa telefónica entre a minha mãe e vários familiares sobre a situação em Kiev que chegou a ser bruscamente interrompida pela operadora da central telefónica. ‘Você não percebe que não pode falar disso [o desastre nuclear]?'”, recorda. A chamada foi desligada e, segundo conta, a mãe não teve coragem de voltar a ligar.

Apesar disso, diz que a série “consegue captar o verdadeiro espírito da época”. Uma altura onde as vidas das pessoas e a dignidade humana “valiam pouco e eram constantemente sacrificadas em prol de um suposto bem-estar comum.”