Editorial. Carta aberta a David Carreira, o “rei” disto tudo

O rei foi top esta semana, passou a perna aos jornalistas. Lol. Lolz. Lolada. Emojis. Bem, vamos a uma lição do que é o jornalismo, David?

Tu não passaste a perna à imprensa, David, condenaste o teu próprio futuro

Olá David,

Tu não me conheces, mas não te preocupes muito com isso — estamos praticamente em pé de igualdade, eu também não sei quase nada sobre ti com exceção do nome do teu pai e do teu irmão. Se te fizer sentir melhor, o meu pai chama-se João e a minha irmã Raquel. Agora que estamos taco a taco, gostava de falar contigo sobre o que aconteceu esta semana.

Ora bem, esta semana puseste a imprensa a falar sobre ti, numa jogada de… bem, não sei o que lhe queres chamar. Jogada de marketing? De génio? De miúdo esperto que manda nisto tudo?

Vamos chamar-lhe apenas jogada. Para dar aqui algum contexto a quem não sabe o que se passou, tinhas um videoclipe para promover e não sabias bem o que fazer. Decisão estratégica: ter a tua manager a mentir numa revista, dizendo que tinhas sido detido nos Estados Unidos, devido a problemas com autorizações para gravar no local.

O caso era tão grave que nem sequer sabíamos quando é que ias sair.

Só que tu não foste preso. “Preso? Eu? Só no videoclipe mesmo”, escreveste no teu Instagram, seguido de um emoji a deitar lágrimas de tanto rir. Eu também deitei lágrimas David, infelizmente não foi de me rir.

David, meu querido David. Tu não foste esperto. Tu não foste “top”. Tu foste mentiroso. Tu colocaste a tua manager a mentir por ti porque achaste que era uma ideia incrível enganar toda a gente para te promoveres. Perante as críticas, atacaste os jornalistas. Afinal, nós é que acreditamos em tudo e não confirmamos nada.

Tens razão, David, nós às vezes fazemos asneira. Só que neste caso havia uma confirmação oficial dada pela tua manager. Ela disse, com as letras todas, que tu tinhas sido detido. Mas sim, tens razão. Se calhar devíamos ter enviado um jornalista imediatamente para os Estados Unidos para averiguar a tua detenção. Só que, David, meu querido David… se nós infelizmente não temos condições de fazer isso com aquilo que realmente importa, porque é que faríamos contigo?

E era exatamente aqui que queria chegar, àquilo que interessa. Enquanto tu nos fazias este “strike”, como um dos teus fãs escreveu, enquanto tu te rias a ler as notícias que iam saindo e sentias-te o maior espertalhão do mundo, nós estávamos a perder tempo. Vamos a uma lição daquilo que é jornalismo, David?

O jornalismo nasceu para transmitir informação. E essa informação pode ser tão fundamental à vida de cada cidadão, como por exemplo a informação política e económica, como pode ser meramente útil ou divertida. Nem tudo o que fazemos são grandes trabalhos de investigação, como sei que me queres dizer. Eu sei. Mas isso não quer dizer que trabalhemos com tanto rigor um tema relacionado com uma série como tratamos um tema ligado à saúde.

Vou explicar-te isto com um exemplo, para ser mais fácil. Esta semana tivemos ótimos trabalhos, como aquele em que a Ana Luísa Bernardino fez, em que nos mostra como Lisboa está a ficar mais verde. Ou aquele em que a Marta Cerqueira falou com mães que são vítimas de bullying, porque infelizmente a maternidade ainda é difícil em Portugal — se leres o artigo perceberás.

Sobre o facto de Kit Harington se ter internado numa clínica após o fim de “A Guerra dos Tronos”, falámos com um psicólogo. É que pode parecer completamente trivial o tema, mas aquilo que o ator teve poderia acontecer a qualquer um de nós. Mais uma vez, se leres o artigo perceberás.

Mas como não somos uma revista de hard news, temos outros temas mais leves. A propósito dos 21 anos de “Sexo e a Cidade”, descobrimos peças de roupa iguais (ou muito parecidas) às usadas pela personagem Carrie Bradshaw, que estão à venda no eBay. Mostrámos a nova linha de swimwear de Luísa Beirão, uma nova app para encomendar comida e analisámos séries como “Chernobyl” e “Aos Olhos da Justiça“.

Também tivemos fait divers esta semana — por exemplo, reunimos 23 fotos de atores de Hollywood com os seus duplos —, demos novidades curiosas — sabias que o Ed Sheeran já tem o seu próprio ketchup? — e contámos histórias aterradoras — como a do ex-enfermeiro que foi condenado por 85 homicídios.

Por fim, tivemos as polémicas do mundo do social. Fizemos um apanhado do que aconteceu entre Anitta, Luana Piovani e Pedro Scooby, explicámos a polémica entre Neymar e a modelo que o acusa de violação e mostrámos como reagiu Miley Cyrus ao facto de ter sido agarrada por um fã de uma forma muito indesejada.

Poderíamos passar horas a discutir a relevância de cada um destes temas, David. Mas mesmo que cheguemos à conclusão de que não são do teu interesse, sabes o que é que todos têm em comum? São histórias verdadeiras. Aconteceram mesmo. E os nossos jornalistas sustentaram cada um dos temas que escreveram com fontes, citações, entrevistas e pesquisa, muita pesquisa.

Quando tu nos pregaste esta “partida”, fizeste-nos perder tempo. Houve uma notícia verdadeira que não demos para dar a tua mentira. Pior do que isso, fizeste-nos enganar o público, que é aquilo que todos nós mais abominamos. E a culpa é tua, porque esta fake news não é responsabilidade nossa, mas sim tua. O jornalismo não existe para dar voz a meninos que acham que têm o rei na barriga, David. O jornalismo existe para informar.

Tu não passaste a perna à imprensa, David, condenaste o teu próprio futuro. Sabes porquê? Porque a partir de agora ninguém vai acreditar em ti. Nenhum jornalista vai escrever o que quer que seja que tu digas sem suspeitar que tu (ou quem te representa) está a mentir. E apesar de sermos tão horríveis como tu achas que somos, somos nós que te damos tempo de antena. Que fazemos com que o público te conheça e se torne, ou não, teu fã.

E, David… se nós estamos desesperados para vender jornais e revistas, tu claramente também estás para vender álbuns. Felizmente, só temos mais profissionalismo (e juízo) do que tu.

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