Da cena do crime ao julgamento, 31 fotos que contam a história dos Central Park Five

Foram condenados por violar uma mulher, mas eram inocentes. "Aos Olhos da Justiça" é a nova série da Netflix.

Apesar da ausência de ADN compatível com algum dos jovens, bem como de qualquer outra prova que os incriminasse, os adolescentes foram condenados

Em 1989, Donald Trump era um empresário do setor imobiliário bem conhecido em Nova Iorque. Um acérrimo crítico do caso Central Park Five — chegou a pagar uma pequena fortuna para promover nos jornais o regresso da pena de morte —, numa entrevista recusou plenamente a ideia de racismo num caso que colocava quatro jovens afro-americanos e um latino a violar uma mulher branca. Bem pelo contrário: para aquele que seria o futuro presidente dos Estados Unidos, no final dos anos 80 viviam-se tempos entusiasmantes para as minorias.

“Por vezes um homem negro pensa que não tem vantagem nisto ou aquilo mas, na verdade, hoje em dia é algo…”, disse. “Se eu estivesse a começar hoje, eu adoraria ser um negro com formação, porque acho que eles têm uma vantagem atualmente”.

Donald Trump não podia estar mais enganado. No final dos anos 80, Nova Iorque estava a fervilhar com a tensão racial. Havia locais onde ninguém queria estar à noite, outros nem sequer de dia. Havia violência em todos os cantos da cidade, a prostituição e tráfico de drogas caminhavam livremente pelas ruas e não havia uma noite em que as sirenes da polícia e ambulâncias não tomassem conta das ruas.

“Para entenderem melhor, Nova Iorque no final dos anos 80 era uma mistura entre ‘Taxi Driver‘, do Scorsese, e o filme de Spike Lee, ‘Faça a Coisa Certa‘”, explicou o jornalista Jelani Cobb ao programa “20/20”, da ABC News.

Havia violência. Havia roubos. Havia agressões. E havia ataques sexuais a mulheres, numa onda quase descontrolada. Só que havia também muito racismo. Não eram tempos excitantes para nenhum afro-americano, ou qualquer outra minoria: eram tempos de medo, privação, dificuldades económicas e sociais e um sentido de falta de justiça.

Foi essa ausência de sentido de justiça que tramou Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise. Sem qualquer tipo de prova ou testemunhas, os cinco adolescentes, quatro afro-americanos e um latino, com idades compreendidas entre os 14 e os 16 anos, foram condenados pela agressão e violação de Trisha Meili. Tudo porque estavam no sítio errado à hora errada.

Se ainda não viu a série, recomendamos-lhe que feche o artigo e volte mais tarde. Vêm aí spoilers.

A verdadeira história de “Aos Olhos da Justiça”

Aos Olhos da Justiça“, a nova série de crime da Netflix, é inspirada na história dos Central Park Five, como ficaram conhecidos. Disponível desde 31 de maio, o drama criado por Ava DuVernay conta-nos, em quatro episódios, como é que cinco jovens acabaram a cumprir pena por um crime que nunca cometeram.

“Aos Olhos da Justiça” não é uma série documental, portanto existem momentos de liberdade criativa. Mas tenta ser o mais fiel possível ao que aconteceu. Tal como é retratado na série, a 19 de abril de 1989, mais de 30 jovens entraram no Central Park e provocaram vários distúrbios. Nessa mesma altura, uma mulher, Patricia Meili, era violentamente agredida e violada.

A polícia criou a sua própria narrativa. Incitados em grande parte por Linda Fairstein, procuradora, que queria uma rápida resolução do caso e que levou a que cinco jovens fossem acusados, tudo porque estavam no Central Park naquela noite.

Kharey Wise e Yusef Salaam eram os únicos que se conheciam — na verdade, o nome do primeiro nem sequer estava na lista de suspeitos, no entanto acabou por envolver-se no caso quando decidiu acompanhar o amigo à esquadra.

Primeiro negaram. Depois negaram novamente. Depois negaram outra vez. Ao fim de horas de interrogatório, porém, quatro dos cinco jovens acabaram por confessar o crime. Ou pelo menos a existência de um crime: nenhum deles disse ter sido o violador, acusando aleatoriamente os nomes que lhes eram dados.

Tal como representado na série, o julgamento dos jovens dividiu-se em dois: o primeiro aconteceu em agosto de 1990 e juntou Yusef Salaam, Antron McCray e Raymond Santana; o segundo desenrolou-se em dezembro com Kevin Richardson e Korey Wise.

Apesar da ausência de ADN compatível com algum dos jovens, bem como de qualquer outra prova que os incriminasse, os adolescentes foram condenados. Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise cumpriram penas entre os seis e os 13 anos de prisão.

Veja as diferenças entre o elenco e as pessoas na vida real.

Tudo mudou em 2002. Matias Reyes estava a cumprir pena de prisão por violar três mulheres perto do Central Park, além de ter violado e assassinado uma mulher grávida, quando decidiu confessar o crime contra Patricia Meili.

“Eu sei que é difícil as pessoas perceberem porque é que alguém se chega à frente e assume a responsabilidade por um crime 12 anos depois. Fiz a mesma pergunta a mim mesmo”, disse Reyes num áudio divulgado pelo “New York Daily News”. Segundo Matias Reyes, o facto de ter encontrado Jesus atrás das grades ajudou a assumir o crime.

Os Central Park Five foram finalmente ilibados de todas as acusações. Depois da exoneração dos crimes, o grupo processou o estado de Nova Iorque por discriminação racial, condenação maliciosa e danos morais.

O caso acabou por ser resolvido através de um acordo, em 2004, e os homens receberam 36 milhões de euros como indemnização.

Recorde a história dos Central Park Five em 31 fotografias.

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