Como é que os alimentos influenciam a transpiração?

O organismo é uma fábrica: quando muitas máquinas trabalham ao mesmo tempo, a temperatura aumenta. Resultado? A pele liberta o calor.

O álcool e as bebidas picantes aumentam a transpiração

Becca Matimba/Unsplash

Todos os corpos são diferentes e, por isso, a intensidade com que se transpira também. Percorrendo a mesma quantidade de quilómetros, ou fazendo exatamente o mesmo treino, há quem fique com uma T-shirt manchada de suor e há quem aparente não ter feito esforço nenhum, ainda que não seja verdade.

A transpiração funciona como uma defesa do corpo, que é acionada quando é necessário regular a sua temperatura. Ou seja: quando externa ou internamente se dá um aquecimento do organismo, ele trabalha para repor os valores, eliminando água contida, através das glândulas sudoríparas. No fundo, é o nosso sistema de ventilação: serve para aliviar o calor do corpo.

Só que há alguns fatores que influenciam a quantidade de água expelida, bem como o cheiro desta secreção. Além de questões geográficas, que fazem com que povos diferentes tenham odores diferentes e uma quantidade de transpiração mais ou menos elevada, há também que considerar a alimentação.

É que, mais uma vez, comprovámos a teoria: nós somos o que comemos. “Lembro-me de um indivíduo que ia ao ginásio e que cheirava a whisky. Era um individuo que tinha hábitos alcoólicos grandes”, recorda Pedro Lôbo do Vale, médico de Medicina Geral e Familiar e presidente da Sociedade Portuguesa de Alimentação Racional e Suplementos. “Muitas vezes a transpiração é o reflexo do que ingerimos.”

Que alimentos é que nos fazem transpirar mais?

As bebidas alcoólicas, começa por explicar, fazem aumentar muito a transpiração. “É um vasodilatador”, explica. Quando se dá uma dilatação das veias sanguíneas, dá-se também a perda de calor para o exterior.

Aquilo que acontece também é que, quanto mais energia houver no corpo, mais potencial há para um aumento da transpiração. Basta pensar que o organismo é uma “fábrica”, como indica o médico — quanto mais trabalhar, mais vai aquecer. Resultado: surge a regulação da temperatura, que estimula a produção de suor. Daí que “comer muito no geral” seja também um fator que faz aumentar a ação das glândulas sudoríparas.

“Os nutrientes que nós ingerimos — hidratos de carbono e, sobretudo, proteínas (as gorduras também, mas menos) — provocam o aumento da temperatura do corpo. Porque é que no verão se comem refeições ligeiras? Nós somos uma fábrica: o organismo assim [com comida mais leve] tem de trabalhar menos.”

As carnes, aponta também, quando ingeridas em excesso, e sobretudo no caso das vermelhas, não só aumentam a transpiração, como são capazes de criar um odor diferente: “É por causa da amónia, que é um produto parecido com o amoníaco”, explica.

A cebola e o alho também aumentam a transpiração, bem como o gengibre, picantes, cafeína ou chá verde que, ao aumentarem a temperatura interna do corpo, obrigam-no a repor os valores normais, o que faz com que a produção de suor aumente.

“O leite também pode provocar um pior odor na transpiração — não que aumente, só muda o cheiro”, diz. Os motivos não são claros, adianta, mas “é o que está descrito.”

Devido à presença do enxofre, algumas couves têm também a capacidade de alterar e intensificar o cheiro da transpiração, efeito que se replica no sistema digestivo — a fermentação no intestino é maior, o que também gera gases e um odor diferente.

“A comida processada é sempre um problema”, diz. Com a junção de vários aditivos a comida torna-se mais complexa, o que não deixa ver com clareza os efeitos dos diferentes componentes no corpo. Naquilo que se refere à transpiração, não há certezas, mas Pedro Lôbo do Vale tem suspeitas: “Acredito que sim. Quanto mais complexos os alimentos, mais potencial há.”

Basta pensar que, em casos de doença, se recomenda a ingestão de cozidos e de grelhados. Nestas circunstâncias, a fábrica precisa de descanso e as máquinas não precisam de estar todas ligadas. “Quando fazemos refogados, a juntar muitas especiarias, o organismo tem de trabalhar mais, porque envolve mais processos químicos.”

O médico termina chamando a atenção para as diferenças entre os corpos. “Apesar de tudo, as pessoas não reagem todas da mesma forma. Há quem, na mesma situação, possa transpirar muito e quem possa não transpirar nada. Pessoas mais gordas, por exemplo, transpiram sempre mais.”

E quais são então os produtos alimentares que interferem mais com a transpiração: “Bebidas alcoólicas e picantes.”

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