Porque é que estrelas como Kit Harington pedem ajuda após o fim de uma série

Jon Hamm virou-se para o álcool. Uma psicóloga explica que isto é transversal a várias áreas — e dá dicas para evitar a rutura.

Kit Harington internou-se numa clínica de reabilitação especializada em lidar com o stresse e o consumo de álcool

Getty Images

Na última leitura de “A Guerra dos Tronos“, os atores reuniram-se em volta de uma mesa para descobrir finalmente o que iria acontecer às suas personagens. No momento em que percebem que Jon Snow iria matar Daenerys Targaryen, Emilia Clarke deu uma gargalhada nervosa e Kit Harington começou a chorar.

As imagens divulgadas no documentário “A Guerra dos Tronos: A Última Patrulha” tornaram-se virais, mas ganharam outro significado quando, dias depois, foi divulgado que o ator de 32 anos tinha dado entrada numa clínica.

Semanas antes de o último episódio chegar à HBO, Kit Harington, o ator que deu vida a Jon Snow na série, internou-se numa clínica de reabilitação especializada em lidar com o stresse e o consumo de álcool. Segundo fontes próximas a Kit Harington, o final da série “abalou-o profundamente”.

“Ele apercebeu-se de que aquilo era mesmo o fim. Foi um projeto no qual todos trabalharam arduamente durante tantos anos que, assim que acabou, o levou a um momento de reflexão. Ele pensou: ‘O que é que vai acontecer agora?’”, revela uma das fontes ao “Page Six“.

O caso de Kit Harington está longe de ser o único. Quando “Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2” chegou aos cinemas, corria o ano de 2011, Daniel Radcliffe, a estrela que interpretou Harry Potter, confessou a sua dependência com o álcool. Jon Hamm confessou ter o mesmo inimigo, e internou-se numa clínica para resolver o problema da dependência de álcool dois meses antes de a final de “Mad Men” chegar à televisão.

Jon Hamm também pediu ajuda após o final de "Mad Men"

Talvez não seja assim tão surpreendente que os atores procurem ajuda após o final de uma série. Se os próprios fãs ficam tristes quando percebem que não há mais episódios para ver, e são obrigados a lidar com uma sensação de vazio, o que dizer dos atores e atrizes que fizeram daquele trabalho a sua vida? Durante anos, às vezes mais do que uma década, eles gravaram horas e horas por dia, semanas seguidas, sem pausas, sem idas a casa. Tudo o que tinham eram aquelas pessoas.

“O trabalho de um ator é intenso, desgastante, emocionalmente exigente, stressante e envolvente. A pressão é constante, os prazos são apertados, o descanso é reduzido, a exposição pública (só por si muito stressante) é elevada”, explica à MAGG a psicóloga Cristina Sousa Ferreira, da Oficina de Psicologia.

“Se o ator vive, convive e foca-se exclusivamente no trabalho, no papel a desempenhar, na personagem que ‘leva para casa’ e com quem se ‘deita’, as necessidades básicas como comer e dormir ficam comprometidas, os recursos pessoais esgotam-se e o bem-estar desaparece. Passa da paixão à exaustão. Como em muitas outras profissões”.

Kit Harington pode ter tido um burnout

É verdade que um ator tem uma vida altamente desgastante quando está a gravar. No entanto, o stresse continuado não é específico desta profissão.

“Os comerciais a quem se pede ‘agressividade’ na venda e objetivos apertados, os gestores a quem se pede uma liderança de pulso e de pressão sobre as equipas, os enfermeiros a quem se exige menos tempo com um doente do que gostariam, os professores a quem se pede muita burocracia, podem estar também em conflito de valores e sujeitos a tensão e exigências exageradas. E da paixão chegam à exaustão”.

Nem a propósito: o esgotamento profissional, commumente conhecido por burnout, foi reconhecido recentemente como doença pela Organização Mundial de Saúde e ocorre em situações de stresse prolongado. A longo prazo, pode evoluir para ansiedade e depressão, bem como levar ao abuso de substâncias como álcool ou drogas.

Cristina Sousa Ferreira faz a comparação com um carro. Quando fazemos viagens longas, em aceleração, mas não verificamos se está tudo bem com o óleo, bateria e gasolina, o que é que acontece? O carro dá sinais de que não está bem: os cursores apontam para falta de óleo e gasolina, o motor fica sem bateria. Se continuarmos a ignorar esses sinais, vamos acabar por destruir o carro. E depois temos que levá-lo com urgência para o mecânico.

Acontece exatamente o mesmo com o corpo humano. “Quando colocamos os ‘ovos todos no mesmo cesto’ (o cesto profissional), e nos esquecemos de atender a aspetos básicos como comer e dormir, nos dedicamos à profissão de forma intensa e continuada, com isolamento, privação do lazer e de atividades lúdicas e de prazer, comprometemos o nosso equilíbrio físico e emocional”. Quando a nossa “máquina” fica destruída, temos de procurar ajuda — neste caso, a um profissional de saúde.

Quando um trabalho acaba e deixamos de saber quem somos

“Mas podemos olhar para esta situação por um outro prisma. O fim de um trabalho emblemático é uma perda. Perda de protagonismo, perda de uma atividade gratificante, de uma rotina, de um desafio, de um sonho, de uma identidade”, diz a psicóloga da Oficina de Psicologia.

Isto também pode explicar o porquê de Kit Harington ter pedido ajuda. Tal como o fim de uma relação ou a perda de alguém importante, é preciso fazer o luto do trabalho perdido. E o luto passa por sentimentos de tristeza, vazio, irrealidade, zanga e até medo do que aí vem. As perguntas são uma constante: quem sou eu? Quem era eu com e sem este trabalho? O que vou fazer agora?

“O luto é um processo, uma travessia, um percurso. Há que aceitar e permitir a expressão das diferentes emoções e não evitar as questões mais desagradáveis. É nestas alturas que, para as evitar ou afastar, podem surgir hábitos não saudáveis como fumar ou beber em excesso.”

Só que este espaço vazio não vai ficar assim para sempre. Pelo contrário, nada vai ficar igual depois da perda, verdade, mas vai haver transformação. Como lidar com esta mudança? Para começar, a mudança precisa de um período de transição.

“A transição é o processo psicológico de aceitar e integrar as novas condições e detalhes que vêm com a mudança. Pode ser um processo doloroso, mas é absolutamente necessário e leva o seu tempo.”

A mudança é assustadora. E é preciso tempo para enfrentá-la, de modo a ganharmos consciência do que verdadeiramente nos motiva e dá energia. Digamos que é como atravessar um deserto: em alguns momentos vamos querer desistir, noutros estamos cheios de força porque descobrimos que já temos “técnica” para enfrentar tanta areia. No final, somos pessoas diferentes — mas melhores.

Todos nós teremos de enfrentar momentos em que temos de enfrentar o deserto. Seja porque há um novo membro da família ou porque vamos entrar no mercado profissional, seja porque acabámos uma relação ou porque surgiu a oportunidade de mudar de país. No entanto, e no que ao trabalho diz respeito, há cuidados que devemos ter de modo a prevenir situações de burnout ou de perda de identidade com o término de um trabalho. Cristina Sousa Ferreira dá-nos 5 dicas.

Não esgotar totalmente os recursos pessoais

“Voltando à metáfora do automóvel, como garantimos que ele se mantém por muitos anos apesar das viagens que fazemos? Cumprimos com o plano de manutenção e asseguramos óleo e bateria.

Connosco temos que fazer o mesmo. Assegurar as necessidades básicas de descanso e de equilíbrio, e não colocarmos os ovos todos no mesmo cesto. Há mais para além do trabalho, há família, amigos, atividades lúdicas e de prazer.

‘Ah,  mas temos que estar mais focados no trabalho porque os prazos, a pressão, as exigências…’. Claro que há alturas em que abdicamos de umas saídas com amigos, uns jantares de família ou uma ida ao ginásio, porque o trabalho tem que se fazer. Mas não o podemos fazer sempre, temos que colocar ovos em mais cestos.

O cesto da família, dos amigos, do exercício, da música. Os cestos que estão alinhados com os valores e necessidades fundamentais de vida, de saúde e de bem-estar. Assim asseguramos que a bateria, os nossos recursos, estão carregados e mesmo em viagens mais longas não há risco de o motor gripar.”

Definir um plano de transição com objetivos alcançáveis a curto prazo

“Voltar ao ginásio com a regularidade desejada, rever amigos, acompanhar a família, voltar a ler, a ouvir música, descansar, voltar a ter vida para além do trabalho, aprender algo de novo.”

Ser  consistente com o propósito de vida, não deixar dúvidas sobre o que se quer alcançar

“Querer ser um bom pai mas também marido e profissional, querer ter uma carreira numa determinada  empresa, querer fortalecer as amizades e aprender a viver sozinho, ter tempo para aprender e se desenvolver. Tanto a alegria das conquistas como a dor do luto fazem parte da vida e dão origem  a transformações e podem trazer maturidade e crescimento pessoal.”

Deixar o passado para poder abraçar um novo presente

“É importante aceitar a perda e processar a dor e o sofrimento. Tomar consciência da necessidade de redefinição de tarefas e reorganização logística e emocional ajustando-se ao novo papel como protagonista da sua própria vida. ‘Baixar o volume emocional’ e ‘despir o fato’ do projeto que acabou deixando caminho aberto a novos projetos. Permanecer preso ao passado não permite adaptar a novas realidades.

Reservar tempo, reavaliar a história, ver o que aprendeu e de que se quer livrar, que lastro se quer deitar fora, descobrir o que realmente se quer. Preparar-se para quebrar velhas regras e deixar a criatividade e a curiosidade fluir pode fazer toda a diferença.”

Aproveitar as oportunidades e não se assustar com os constrangimentos

“O processo de transição é aprender a lidar com o medo e a incerteza. Crescer é doloroso, mudar é doloroso mas nada é mais doloroso do que ficar num sítio vazio e sem sentido, a que não se pertence.”

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