Na madrugada desta segunda-feira, 3 de junho, Agustina Bessa-Luís morreu, aos 96 anos, no Porto, depois de uma doença que se arrastou durante mais de uma década.

Uma das mais importantes figuras da ficção portuguesa, viveu para escrever, tanto que, sempre que via um pedaço de papel em branco, o seu ímpeto lhe dizia que a preenchesse. Vingou num mundo que era de homens e aceitou o desafio, ainda na adolescência, quando prometeu que iria escrever o melhor livro de um escritor português.

Profundamente marcada pelas vivências de uma infância e adolescência passadas nas margens do Douro (fixa-se definitivamente no Porto nos anos 50), admiradora de Camilo Castelo Branco, um dos escritores que mais terá influenciado os seus romances, teve sempre na escrita um meio para se expressar e refletir, o que não significa que as suas ideias não tenham saltado do papel. As palavras Agustina Bessa-Luís chegaram a muitas outras formas de arte, passando pelo cinema ou pelo teatro.

Marcelo Rebelo de Sousa já reagiu à sua morte: “Há personalidades que nenhumas palavras podem descrever no que foram e no que significaram para todos nós. Agustina Bessa-Luís é uma dessas personalidades”, disse, acrescentando: o “Presidente da República curva-se perante o seu génio e expressa aos seus familiares as mais sentidas condolências”.

1. “Se isto é o melhor livro de um escritor português, eu vou fazer o melhor livro de um escritor português”

Agustina Bessa-Luís teria por volta de 15 anos quando o pai lhe deu o livro de Ferreira de Castro, “A Selva”. Pela altura, ter-lhe-á dito que se tratava do “melhor livro de um escritor português”, como recorda o “Jornal de Notícias”, jornal que, disse numa crónica publicada no próprio, a terá ensinado a ler.

Leu o livro oferecido pelo pai e, terminada a leitura, disse: “Se isto é o melhor livro de um escritor português, eu vou fazer o melhor livro de um escritor português”.

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2. A celebração de Aquilino Ribeiro e o reconhecimento do sucesso

Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Teixeira de Pascoaes e Miguel Torga receberam o seu primeiro livro, a novela “Mundo Fechado”, publicada em 1949 — antes teria escrito “Ídolo de Barro” e “Deuses de Barro”, dois romances inéditos e os quais assinou com o nome Maria Ordoñes. Mas apenas os dois primeiros escritores, diz o “Jornal de Notícias”, lhe enviaram “de pronto cartas de entusiasmo, celebrando o nascimento de uma grande autora”. A de Pascoaes ter-se-á perdido, tanto que foi só após a sua morte que Agustina soube que este também a tinha elogiado. Com Torga foi diferente: acusou a receção do livro e nada mais disse. Ainda assim, anos depois, vieram a tornar-se amigos.

Apesar de ter sido bem recebido pelo público, e das boas críticas, foi apenas em 1954, com a publicação de “A Sibilia”, que a autora se afirmou e consolidou a sua carreira como escritora, tendo recebido os prémios Delfim Guimarães e Eça de Queirós — a estes, e com os anos, somaram-se muitos outros: oito prémios à autora (incluindo o Prémio Camões, em 2014) e 14 prémios a obras. 

3. Conheceu o marido através de um anúncio de jornal

Foi através de um anúncio de jornal de “O Primeiro de Janeiro” que Agustina Bessa-Luís conheceu Alberto Luís, na altura um estudante de Direito, da faculdade de Coimbra. A escritora procurava uma pessoa culta com quem se pudesse corresponder. Casaram em julho de 1945 e deste casamento — que foi o seu único — nasceu Mónica Bessa-Luís Baldaque, museóloga, pintora e também autora de vários livros.

Na biografia da autora, também de nome “A Sibila”, a autora Isabel Rio Novo fala sobre quatro etapas principais na vida da autora. A primeira, diz, corresponde à altura em que conheceu o marido, com quem esteve a vida toda (morreu com 94 anos, em 2017): “Sabemos que conheceu o marido através de um anúncio, mas é muito diferente encontrar o anúncio, perceber o contexto e as implicações que teriam na época e na circunstância”, diz, citada pelo “Diário de Notícias.”

O marido era um pilar fundamental na sua vida, como mulher e escritora. Em 1997, a propósito do livro “Um Cão que Sonha”, disse, citada pelo “Público“: “Por tudo, do apoio à compreensão, ao incentivo e ao amor incondicional.”

4. Nasceu escritora

“Eu nasci escritora”, disse no programa “Diga Lá Excelência”, da RTP, em 2004. “É muito importante a dificuldade, os passos serem dados lentamente. Não é fácil escrever, como não é fácil viver”. Na mesma entrevista disse: “Vejo um papel em branco e apetece-me escrever”.

“O dia a dia dela era estar em casa, sentada numa mesa e a estar a ser interrompida pelas coisas da vida doméstica, e a ser capaz  de atender quem a interrompia e continuava imediatamente a escrever. Ela podia acabar a meio de uma frase, que depois acabava-a”, disse Alberto Luís, em 2012, na reportagem da “RR”, “O Mundo de Agustina“.

A filha acrescenta: “Uma parte a escrever, outra a sair, ou a conviver, ou então a cumprir os compromissos que tinha e que eram sempre muitos”, disse Mónica Baldaque. “Ela conseguia ter isso e depois chegar a casa e isolar-se como se tudo se tivesse varrido e havia esse tempo de escrita e de dedicação à escrita e reflexão, que conseguia separar e ter esses dois tempos.”

5. Só trabalhava 3 meses por ano, mas como “um operário”

Desta capacidade resultaram 48 obras de ficção (publicadas entre 1948 e 2018), seis biografias, seis peças de teatro, cinco livros de literatura infantil, umas boas dezenas de crónicas, memórias e ensaios, assim como oito adaptações cinematográficas.

“Todos os romances dela eram escritos em três meses. Todos as 300 páginas eram escritos em três meses”, diz, em entrevista à “Rádio Renascença”.  “Ela por ano só trabalhava três meses. Mas trabalhava a sério, como um operário. Todos os dias fazia uma página”, acrescenta.

O marido conta que “toda a vida decifrou” as suas páginas carregadas de letras, escritas à mão e raramente em folhas de linhas. “Ela só revia quando vinham as provas tipográficas, que eu lhe lia em voz alta e que ela seguia pelo manuscrito. Era a única intervenção dela na correção. Alterava às vezes uma frase, uma palavra.”

Decifrar os seus manuscritos não era fácil. “É muito difícil de facto. É muito difícil entrar, sobretudo em certas fases. Tem fases de letra muito minúscula, fases de letra maior.”

Segundo Alberto Oliveira Luís, é no manuscrito que Agustina Bessa-Luís “está autenticamente”, porque quem dactilografa “destrói sempre qualquer coisa. Destrói o impulso, o impulso da escrita, o primeiro sentido que ela quis imprimir às coisas”, diz na mesma entrevista à radio.

6. A influência e admiração por Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco teve uma grande influência na autora, tanto pela forma como escrevia, como pela sua personalidade e forma como vivia a vida: serviu não só como inspiração para a criação de personagens (como no caso da obra “Fanny Owen”), como foi também uma referência na construção e conceptualização dos seus romances.

No livro “Camilo Génio e Figura”, a autora observa com “extrema agudeza” (lê-se na capa) o autor, reunindo os seus próprios textos mais “camilianos”, desde artigos, a ensaios ou conferências, e ainda duas peças de teatro inéditas — universo artístico a que também esteve ligada, tanto que, entre 1990 e 1993 ocupou o cargo de direção do Teatro Nacional Dona Maria II.

Em “Ensaios e Artigos (1951-2007)”, a neta da autora Lourença Baldaque, reuniu uma série de textos da autora, com opiniões e reflexões sobre temas e figuras variadas, desde Bob Dylan, a Dostoievski (um escritor que apreciava muito). O escritor do século XIX, autor de “A Queda de um Anjo”, integrou, obviamente, parte deste aglomerado de pensamentos.

De acordo com o A a Z literário publicado pelo “Diário de Notícias”, sobre Camilo Castelo Branco, Agustina Bessa-Luís escreveu: “Um homem dotado para a vida é um homem angustiado; ele sabe que quanto mais o seu génio progride e se expande, mais cria para si próprio condições de invulgar desastre (1964).” “Tanto temia Camilo o punho da sociedade para quem escrevia e que, afinal, não era persistente na crueldade nem obstinada na estupidez. (…) Na verdade, não sei que lhe deu a Camilo para escrever este romance (“A Enjeitada”) a não ser o desprezo pela sua atividade face a um público que lhe exigia emoções calculadas, e para quem o melodramático se confunde com o sério (1980)”.

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7. Uma mulher de dentro e a relação felina com os gatos

Gostava do exterior, mas era dentro que se sentia bem. “A mãe sempre gostou do espaço de fora, mas sempre foi muito uma mulher de dentro. Sempre achou que o gato era um personagem importante dentro de uma casa”, diz Mónica Baldaque.

Agustina Bessa-Luís tinha um gato que “se punha em cima das sanefas e atacava as pessoas que passavam, e de que não gostava e de que não lhe interessavam. Era como ter uma fera dentro de casa”, conta a filha. “Havia sempre a relação dos gatos com a mãe, uma relação muito intensa, quase felina dos dois.”

8. A despreocupação com o sucesso

Antes da relação com o público, vem a relação com ela mesma, “e com todos esses meus fantasmas que são as memórias”, disse em “Diga lá Vossa Excelência.” O marido, à “RR”, confirmou: “Ela nunca se preocupou muito com os leitores. Nunca se preocupou com o êxito.”

Segundo a filha, a autora fazia uso de um conjunto de personagens, que funcionavam “quase como se fosse uma companhia.” Acrescentou: “É sempre a mãe, sempre o pai, sempre o tio António, a tia Concha, sempre os criados.”

9. A amizade com Manoel de Oliveira

Agustina Bessa-Luís tomou conhecimento da existência da Manoel de Oliveira antes de este iniciar o seu percurso no mundo do cinema. Foi no Douro, onde viveu “permanentemente, todas as estações, durante quatro anos”, que viu o retrato de casamento do cineasta, na “propriedade de uma prima do Manoel de Oliveira”, sua vizinha, “que era uma grande amiga” sua.

Mas, é como disse numa entrevista à “Cine Luso”: “Há duas fases de conhecimento”. A segunda já acontece nos anos 60, quando, pelos tempos em que foi adotada pelo grupo da Presença. “Já o conhecia como parente dos meus amigos. Ele aparecia de uma maneira inesperada. Ainda era um rapaz muito bonito e muito elegante. Aparecia e desaparecia e fazia uma certa diferença daquela massa cinzenta, que era os frequentadores das praias — desse tempo e de todos os tempos.”

A “beleza aristocrática” do realizador, contou, impediu-o de brilhar como ator. “Não era muito atrativa para o cinema”, disse, acrescentando que aquele que veio a tornar-se no maior realizador português não seria muito culto: “É uma pessoa que não tem grande cultura.”

Além de amigos, Agustina Bessa-Luís colaborou com o realizador, que adaptou vários dos seus romances ao cinema, tais como: “Fanny Owen”, romance publicado em 1979, que deu origem ao filme de 1981 “Francisca”; “Vale Abrão”, filme inspirado num romance homónimo de 1991, escrito propositadamente para esta longa-metragem; ou ainda “Inquietude”, filme de 1998 do realizador baseado na obra “A Mãe de um Rio”.

10. Os inéditos dariam entre 12 a 15 volumes

À “RR”, o Alberto Luís mostrou os inéditos da autora, que, se fossem publicados, resultariam entre 12 a 15 novos volumes. “Se a minha mãe não os publicou é porque, de certa maneira, não achou que eram necessários, ou oportunos. Faz-me impressão. Acho que há sempre uma parte de nós que deve ficar inédita. Também percebo que haja uma vontade, uma curiosidade em relação àquilo que está inédito. Tenho sempre essa inquietação dentro de mim”, disse Mónica Baldaque.