“Diogo” escreveu no Twitter que tinha cancro e que ia morrer em breve. Mas era tudo mentira

O post viralizou e o desfecho frustrou quem o partilhou. Jorge Miguel, da VOST, alerta para a importância de combater informação falsa.

A fotografia e, pelo menos parte da história que "Diogo" assumia como sua, pertencia a outro jovem — da Alemanha

Malik Earnest/Unsplash

“Diogo” tinha 17 anos e chegou ao Twitter em meados de 2018. Era lá que interagia, diariamente e de forma regular, com os seguidores e amigos que lhe davam força para enfrentar mais um dia. Segundo foi escrevendo, os problemas de saúde começaram quando começou a sentir dificuldades em desempenhar tarefas básicas como subir ou descer um lance de escadas. Não conseguia respirar e sentia-se muito cansado, dizia.

Foi numa ida ao hospital que lhe foi diagnosticada insuficiência cardíaca e, mais tarde, um cancro nos rins em estádio 3. Depois de várias sessões de quimioterapia, “Diogo” revelou na quinta-feira, 31 de maio, que não havia mais nada a fazer e que se encontrava agora em fase terminal. A publicação tornou-se viral mas, tal como o nome e a fotografia, também aquela história não era real.

Em poucas horas, a publicação original onde “Diogo” se despedia da vida por estar cada vez mais fraco somou mais de 1.400 gostos e 800 partilhas. Os erros gramaticais, a dureza das palavras e o facto de haver pessoas, que se diziam próximas dele, a corroborar a história, levou a que grande parte dos utilizadores não questionasse a veracidade da informação.

A partilha em massa daqueles tweets chegou ao mural de várias pessoas e não havia como ficar indiferente à história que iam lendo.

Horas depois, porém, a verdade surgiu: aquela fotografia e, pelo menos parte da história que “Diogo” assumia como sua, pertencia a Alex. Falamos de um jovem de 21 anos, natural da Alemanha, que nos últimos meses tem sido sujeito a várias sessões de quimioterapia na luta contra o cancro.

A descoberta foi feita por vários utilizadores mais céticos que, depois de pesquisarem pela fotografia de perfil do jovem, deram com o de Alex no Instagram. Ao ver que tinha sido descoberto, “Diogo” fechou a conta. Mas o estrago estava feito.

Depois do investimento emocional que parte da comunidade tinha depositado ao partilhar aquela história e ao elogiar a força de um rapaz que, com apenas 17 anos, parecia ter estofo emocional para olhar de frente para o fim, o desfecho frustrou.

Jorge Miguel, fundador da VOST Portugal, a equipa de voluntários digitais em situações de emergência, reconhece o valor sentimental que serviu para enganar muita gente. Mas diz à MAGG que é importante que se perceba a importância de fazer uma verificação antes de contribuir para a disseminação dessa informação.

“As pessoas não sabem que têm à sua disponibilidade ferramentas gratuitas que lhes permitem verificar coisas simples: se a aquela imagem pertence à pessoa que a está a utilizar ou se já foi publicada noutro sítio diferente.”

E diz que, neste caso, bastava esse passo para perceber que “Diogo” não era quem dizia ser. Mas não tem dúvidas de que ali estava tudo feito para gerar empatia, gostos e partilhas.

“Está tudo feito para que se interagisse com aquele post de uma maneira especial. É um cenário horrível que envolve uma pessoa nova e que toca a muita gente, e agora as pessoas sentem-se defraudadas. Passámos do ‘És um grande herói’ para uma postura do género ‘Nunca mais partilho nada deste tipo’. Mas é preciso um meio termo, senão cai-se nisto”, continua.

E esse meio termo só é possível através da validação da informação que nos chega. É aí que, explica Jorge, podemos descartar o que é falso e atribuir relevância e importância ao que é verdadeiro.

O primeiro tweet original de "Diogo", o perfil falso que dizia ter cancro em fase terminal

Twitter

“Uma das grandes preocupações da VOST é passar a mensagem de que está sempre nas nossas mãos parar a disseminação de informações falsas, independentemente do teor que tenham”, principalmente quando podem ter consequências mais graves. E diz o fundador que esta é uma prática que “muitas vezes não se vê os jornalistas a ter.”

É que embora no caso do “Diogo” as consequências tenham sido apenas emocionais, nem sempre tem sido assim. E Jorge não esquece o relatório publicado pela Accuweather que previa, sem qualquer base científica, um verão escaldante com cada vez mais vagas de calor intenso para Portugal.

“Nestes casos mais graves há um impacto real do qual as pessoas não se apercebem. Vivendo no Algarve, senti o pânico generalizado quando pessoas me começaram a dizer que este ano não se podia vir para aqui por causa do calor. E houve um meio que fez capa com uma não notícia”, lamenta.

“Vivemos numa sociedade em que o capital é a atenção que se gera. Percebo que é preciso ganhar cliques e vender anúncios no digital, mas não pode valer tudo”, e é por isso que a VOST tem uma proposta que se prevê que seja desenvolvida já este ano.

Quais são as ferramentas gratuitas para validar informação?

Segundo a VOST Portugal, a equipa de voluntários digitais em situações de emergência, estas são algumas das ferramentas mais importantes. E todas elas são gratuitas.

  • TinEye. A plataforma que, através do upload de uma fotografia ou de um URL, permite ver se a imagem é original ou se já foi usada pela internet. Usar em paralelo com a Google Image Reverse Search.
  • FotoForensics. O website que, através do upload de uma fotografia ou de um URL, mostra informação detalhada sobre a imagem. Até mesmo se a fotografia foi editada de maneira a esconder informações importantes.
  • removeBG. A plataforma que remove o fundo de uma imagem para permitir um melhor reconhecimento facial.

A lista completa usada pela VOST Portugal pode ser consultada aqui.

Chama-se UNTOVAS e é uma ferramenta que permite verificar, de forma automática, a informação que é partilhada nas redes sociais como o Twitter. “Isso permite que, em caso de catástrofe, a informação verdadeira chegue às autoridades”, explica.

Quanto à pessoa por detrás de “Diogo” e as possíveis consequências que possam surgir, há pouco a fazer. Pode ser feita uma queixa à Polícia Judiciária que, por sua vez pode pedir ao Twitter uma série de “informações sobre aquela conta que nós, enquanto cidadãos, não podemos.” Mas Jorge alerta para a importância de se evitarem as “vendettas que são muito comuns nas redes sociais.”

“Andar a fazer doxing [a procura e publicação de informações pessoais e privadas de uma determinada pessoa] baseado numas mensagens ou na perceção que se tem e que dita que aquelas podem ser as pessoas culpadas por isto, é muito perigoso. Andar a tentar perceber quem é esta pessoa e onde é que ela mora não é a solução”, alerta.

Mas há bases legais para uma queixa? Depende. “O miúdo alemão pode apresentar queixa junto das autoridades competentes. Há usurpação de identidade e uma série de outras coisas que constituem bases legais para uma queixa. No entanto, não sei até que ponto é que há um sustento legal para que, as pessoas que partilharam a publicação, possam dizer que se sentiram burladas emocionalmente”, conclui.

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