Sentamos-nos à sua frente a medo. Estamos no lounge do Ramada Lisbon Hotel, em Lisboa, e os ponteiros do relógio apontam para as 14h30. Fernando Pires está vestido com umas calças de ganga e camisa branca, um look descontraído que em tudo se adequa à sua personalidade. É que são precisos apenas alguns minutos para que o homem que fez uns sapatos darem a volta à cabeça a Madonna nos pôr à vontade.

“Ainda me sinto nervoso nas entrevistas”, confessa-nos o designer de sapatos de São Paulo. A julgar pelo desenrolar da conversa, pensamos, o designer de 65 anos não tem que se preocupar — ele já consegue controlar o seu (e o nosso) nervosismo.

Fala-nos das celebridades que conheceu sem nunca de deslumbrar: descreve o trabalho com uma das melhores modelos do mundo, Gisele Bündchen, como se falasse de uma amiga de longa data. E diz-se próximo dos seus clientes: basta uma mensagem no WhatsApp ou no Instagram que Fernando Pires garante que responde.

O designer de sapatos extravagantes está em Lisboa com o propósito de lançar a sua marca no mercado português. Apresentou esta terça-feira, 28 de maio, algumas novidades das últimas duas coleções, e espera voltar a Portugal em setembro com uma nova coleção de inverno na sua nova loja perto da Avenida da Liberdade.

Como começou este amor pelos sapatos? Sei que foi arquiteto.
Fui arquiteto, sim. Quer dizer, ainda sou. Acho que os sapatos são influência da arquitetura, porque acabam por ser uma construção. Começo a fazer o pilar, que é o salto, e vou desenhando o resto. Um sapato é um edifício.

Mas os sapatos eram uma paixão de criança?
Não, não. Nunca imaginei que ia fazer disto vida. Hoje, voltando atrás no tempo, consigo perceber que a vida me deu alguns toques a dizer “Vais fazer isto quando cresceres”. Com 14 anos tinha um sapateiro ao lado de casa, ele tinha uma fábrica e eu brincava lá no meio das formas, das colas e dos tecidos. Acabei por fazer uns sapatos para a minha mãe com a ajuda desse sapateiro.

Os sapatos perfeitos para a primavera são os slingback e mostramos porquê

Como nasce a marca?
Esta brincadeira começou com uma sócia quando tinha 28 anos. Na altura era minha cliente, quando trabalhava na arquitetura. Eu tinha tratado de lhe reformar a casa, no Brasil, e acabámos por começar a fazer projetos juntos. Viajávamos muito e havia sempre uma revista de moda à espreita. E foi essa mesma cliente que apareceu na minha vida para me desviar da arquitetura. Foi ela a primeira pessoa que disse que os dois podíamos fazer alguma coisa de moda. Eu disse logo que sim, afinal tinha pago a minha faculdade com alguns trabalhos de roupa que tinha feito. Costurava e criava roupas e depois vendia numa boutique. Ela disse que não seriam roupas mas sandálias, e assim foi. Começámos a Ponto de Apoio e ficámos com essa marca durante sete anos.

E como nasceu depois a marca Fernando Pires?
Nós separamo-nos. Ela não tinha o desejo de continuar e eu disse que voltaria então para a arquitetura. Mas os meus funcionários foram bater-me à porta e disseram para continuar. “És tu que crias, és tu que conheces as produtoras de moda em São Paulo, és tu que tens os contactos todos com as clientes”, disseram-me eles. E eu disse “Ok, então vamos recomeçar.” E foi assim.

Eu não podia usar a marca Ponto de Apoio porque estava registada com o meu nome e com o da minha sócia. Então tive de arranjar outro nome para a marca, mas aqueles que queria não davam. Não queria dar o meu nome à marca, mas tinha uma coleção para lançar e no meio do caos ficou. A marca Fernando Pires foi criada em 1990. E depois as coisas foram andando até a Cláudia Raia usar os meus sapatos em 1991.

Então o sucesso foi quase imediato?
Sim. Os sete anos de Ponto de Apoio foi algo mais lento. Quando fiquei sozinho, como Fernando Pires, em 1990 o sucesso foi imediato. Foi impressionante. Depois da Cláudia em 91, veio a Madonna em 93.

A Madonna usou os seus sapatos?
Os sapatos chegaram até ela através do irmão, que era diretor artístico do Girly Show. Encontrei-me com ele depois do espetáculo com quatro pares de sapatos no carro para a Madonna. Eu sabia que ela ia gostar, eram a cara dela, muitos deles até tinham a ver com as músicas que cantava. Os sapatos acabaram por lhe ser entregues e, no dia seguinte, na minha loja, disseram-me que Madonna tinha adorado. Aliás, uma pessoa da equipa dela viu umas sandálias, disse que eram a cara dela e queria levá-las. No dia seguinte a Madonna foi jantar ao Rio de Janeiro com aquelas sandálias. Quando eu soube fiquei mortificado.

Madonna com uns sapatos do criador

Como é que se sentiu depois disso?
No caso da Madonna eu quase morri. Quase cai para mostrar o jornal às pessoas que estavam comigo. Acho que foi assim o ponto alto da minha carreira.

Tem mais algum momento curioso com celebridades que nos possa contar?
Tenho, com a própria Cláudia Raia. Ela ficou madrinha da minha loja. E é curioso como nos encontrámos pela primeira vez. Ela tinha visto uns sapatos meus que gostou e não descansou até arranjar o meu número. Acabei por ir ver um espetáculo dela e ela mandou-me ir ao camarim porque me queria conhecer. Subi a tremer e deparei-me com uma mulher lindíssima, alta. Ela só me disse “Que talento” e no momento a seguir abraçou-me. Fiquei mínimo. São momentos assim que não vou esquecer.

Vi que também já calçou Ivete Sangalo, Anitta…
Sim, a Ludmilla também. E até a Gisele Bündchen. Fiz um desfile de lançamento da coleção de lingerie dela. Criei uns sapatos para ela e para todas as modelos. Os sapatos eram todos iguais, só as cores é que eram diferentes.

Gisele Bündchen na apresentação da sua coleção de lingerie com uns sapatos Fernando Pires

E qual seria a celebridade mundial que gostava de ver com os seus sapatos?
Talvez a Rihanna, ou a Beyoncé. Sei que à Beyoncé chegaram uns sapatos meus quando ela esteve no Brasil, mas não a conheci. Mas sim, talvez a Rihanna.

“Acho que ainda desenho para mulheres nuas”

É a primeira vez que está em Portugal?
É a terceira vez. Antes vinha de 15 em 15 anos, mas agora acho que vou começar a vir de 15 em 15 dias.

E que sapatos trouxe até Portugal?
Não apresentei uma coleção, trouxe um mix de sapatos. Trouxe botas de outuno/inverno e sandálias para o verão.

É a primeira vez que apresenta coleções em Portugal?
Desta forma sim, é. Há uns 20 anos havia uma loja multimarca que vendia alguns dos meus sapatos. Acho que durou cinco estações, depois a loja acabou por fechar.

E dos modelos que trouxe, existe algum modelo preferido?
Gosto muito das botas tipo meia, acima do joelho. E dos sapatos gosto muito dos acrílicos e de tudo o que tem cristal.

E para essas botas tipo meia, como via um look com elas?
Uma vez um professor de uma faculdade de moda fez-me um reparo, disse que eu fazia sapatos para uma mulher nua, porque não pensava na roupa. Eu realmente não penso. Acho que o sapato é o elemento mais importante do figurino das mulheres. O sapato salva a roupa. Eu acho que ainda desenho para mulheres nuas.

Quais eram os sapatos tendência no ano em que nasceu?

“Queremos abrir uma loja em Lisboa no final de setembro”

Existem planos de expansão da marca para Portugal?
Sim, claro. Queremos abrir uma loja em Lisboa no final de setembro. Queremos lançar a coleção de inverno já na loja. Até lá o espaço vai funcionar como showroom, onde as pessoas podem personalizar os sapatos. Isto vai servir para democratizar o conceito de exclusividade. As pessoas pedem os sapatos como desejam, e eu no Brasil supervisiono o trabalho.

E vão abrir mais lojas?
Vamos abrir uma loja em Madrid em janeiro do próximo ano. São as primeiras expansões aqui na Europa. Pode ser que abram mais, mas por agora temos confirmadas estas duas.

E no Brasil, quanto lojas existem?
Não temos lojas, vendemos online. As pessoas falam comigo por Whatsapp, Instagram ou Facebook e eu respondo sempre. Pedem-me coisas personalizadas e eu faço.

É a sua terceira vez em Portugal. Vai aproveitar para conhecer alguma coisa?
Ainda estou sob o efeito do jet-lag, mas queria ver se conhecia mais alguma coisa. Cheguei domingo [26 de maio] e vou embora dia 8 de junho. Ainda consigo aproveitar um pouco. Das últimas vezes que cá estive visitei o Castelo dos Mouros, o Palácio da Pena, o Mosteiro dos Jerónimos. Já fiz várias visitas turísticas. Quando cheguei só queria mesmo comer um pastel de Belém, e já comi vários, aliás. Agora vou para o Porto, que não conheço de todo, e espero comer uma francesinha.

O que está a achar das portuguesas? Acha que se vestem e calçam bem?
Sim, sim. Têm um certo glamour. São preocupadas com o visual. E calçam-se bem.

Mas nós aqui em Lisboa temos uma calçada portuguesa que às vezes não nos permite usar saltos altos.
Nós no Brasil também. Eu não faço sapatos para caminhar, faço sapatos para ir de carro, para alguém abrir a porta para ti. Mas quando abrirmos a loja cá em Portugal, claro que vamos ter sapatos para o dia a dia com saltos mais grossos e mais baixos, mas com design.

E para concluir, uma celebridade portuguesa que gostava de calçar?
Ainda não conheço muita gente, mas talvez a Cristina Ferreira. Sei que a Cláudia lhe deu uma entrevista há pouco tempo. Sim, gostava de calçar a Cristina Ferreira.