A nova série da Netflix sobre um apresentador que mandava matar para ganhar audiências

Era uma figura acarinhada no Brasil, mas em 2009 soube-se que fazia parte de uma organização criminosa. A história verídica está a chegar.

Wallace assumia um papel jornalístico e cobria vários assassinatos. E a sua equipa de repórteres era sempre a primeira a chegar aos locais dos crimes

Netflix

Wallace Souza foi um dos apresentadores de televisão mais acarinhados do Brasil. Além de denunciar a desigualdade social e de defender o combate ao crime, criticava ainda a violência da polícia bem como a marginalização dos brasileiros que viviam nas favelas.

Em “Canal Livre”, o programa que esteve em emissão entre 1989 e 2009, Wallace assumia um papel jornalístico e cobria vários assassinatos. E a sua equipa de repórteres era sempre a primeira a chegar aos locais dos crimes. Era um verdadeiro sucesso de audiências. Em 2009, porém, descobriu-se que o programa era uma fachada.

Wallace Souza estava, na verdade, do lado dos criminosos, e era ele quem mandava matar com o intuito de poder noticiar o exclusivo em televisão.

As suspeitas começaram a surgir quando, durante uma emissão, um repórter apareceu em direto de uma floresta onde uma pessoa tinha sido queimada.

“Cheira a churrasco. É um homem e sente-se o cheiro a carne queimada no ar. Fica a impressão de que o crime aconteceu ao início do dia e que se tratou de uma execução”, revelou o repórter em direto, segundo escreve o “The Times”.

Não demorou muito até que começassem a surgir várias questões. Afinal, como era possível que aquela pessoa soubesse, com tanta precisão, o momento em que o assassinato tinha acontecido?

As investigações começaram em 2009 e ganharam força quando um ex-polícia militar, que se identificou com o nome Moa, denunciou o apresentador. Segundo ele, Wallace Souza tinha uma organização criminosa bem montada que, juntamente com o filho, planeava e organizava a morte de traficantes em Manaus, no estado do Amazonas, no Brasil.

Mas a verdade é que o apresentador nunca chegou verdadeiramente a pagar pelos crimes que cometeu. Enquanto o filho, Raphael Souza, está preso desde 2009, Wallace ficou protegido pelo cargo público que desempenhava — era deputado federal desde 1989, e tinha conseguido bater recordes históricos de votação pela imagem que passava durante o programa.

O seu estatuto concedia-lhe imunidade parlamentar e só chegou a ser formalmente acusado de homicídio, tráfico de droga, intimidação de testemunhas e afiliação a organizações criminosas depois de ser expulso da assembleia.

No início de outubro, foi emitido um mandato de prisão e Wallace fugiu. Viria a entregar-se à polícia quase dois meses depois, em dezembro. No entanto, em julho de 2010, Wallace não resistiu a um ataque cardíaco e morreu.

A história real vai ser adaptada para uma nova série documental da Netflix. Chama-se “Bandidos na TV” e conta com entrevistas inéditas a várias figuras próximas ao apresentador.

A ideia é mostrar como é que a organização criminosa foi montada e a forma como operaram durante quase 20 anos sem levantar suspeitas. A série estreia já sexta-feira, 31 de maio, e conta com sete episódios.

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