Texto publicado em manual escolar gera polémica. Mas será que faz sentido?

A mãe está sempre cansada, mas desta vez está feliz e bonita. Afinal, tem um namorado novo. O filho está apreensivo porque vai conhecê-lo.

Um exercício de um livro de 2.º ano tornou-se viral nas redes sociais. Há duas posições: indignação e aceitação

“Hoje o Pedro não quer voltar para casa. Vai conhecer o Tiago, o namorado novo da mãe. O Pedro e a mãe vivem sozinhos desde que o pai saiu de casa. Quando o Pedro chega a casa, a mãe está toda bonita. Fartou-se de arrumar e de cozinhar e não parece tão irritada e cansada como de costume.

– Fiz-te leite com chocolate! — diz, radiante.
O Pedro desconfia. Com tanta simpatia, o que será que a mãe quer?

– Aviso já que não me vou deixar enrolar pela conversa desse senhor! — previne o Pedro.

Uma hora depois ouve-se a campainha. É o Tiago, traz um ramo de flores. E onde está a prenda para conquistar o Pedro? Nada, não há prenda nenhuma.

Diz simplesmente olá ao Pedro. Mas não diz: ‘Com que então és tu o Pedro!’ Ou: ‘Que tal vai a escola?’ Ou: ‘Não vais ajudar a tua mãe?!’. Ou: ‘Tens sempre esse ar amuado?’”

Senta-se à mesa, sorri e elogia os cozinhados da mãe.

Depois jogam ao Ludo durante um bocado. O Pedro decide deitar-se. Está cansado. Cansado de esperar que o Tiago diga alguma estupidez. Mas o Tiago não diz. Só diz: “Boa noite.”

Narrativa desapropriada ou pertinente?

Este excerto faz parte de “O Namorado Novo da Mãe”, um livro infantil, de 2010, escrito por Anke Wagner e Heike Herold, editado pela Livros Horizonte. Escrito na voz de Pedro, logo nas primeiras páginas começa a falar das experiências dos seus amigos com os namorados e maridos novos das mães: uns são intrometidos, outros tentam ocupar o papel de pai.

Mas com ele acaba por ser diferente — Tiago não invade a sua privacidade, não força a relação e, com o tempo, acaba por tornar-se seu amigo. A ideia passa por contrariar a ideia do “padrasto mau”, isto é, a ideia de que a vinda de um novo elemento é negativa e de que a relação entre mãe e filho vai mudar ou piorar.

Mas no caderno de exercícios de português do 2.º ano, “Caderno de Fichas”, da Plim Editora, cuja utilização fica ao critério do agrupamento de escolas ou do professor, apenas veio incluído o excerto com que abrimos este artigo. A acompanhar o texto, surgem duas perguntas:

  • “Como se sentia a mãe de Pedro nesse dia? Justifica com uma frase do texto.”
  • “Que prenda trazia o Tiago e a quem se destinava essa prenda?”

Apesar de já ter sido trabalhado por algumas escolas no ano passado, foi agora que se tornou viral, com centenas de partilhas e de comentários. Há quem apoie a ficha, considerando que aborda uma realidade que é cada vez mais normal: as relações após o divórcio, as novas famílias, cada vez mais ramificadas, o impacto nos filhos e a forma como estes processam a chegada de um estranho ao seio da sua família.

Mas há também quem ache a narrativa desapropriada: alega-se que a mulher surge estereotipada (na cozinha, a arrumar e a cozinhar), dependente (está feliz por causa de um homem, contrastando com a sua disposição normal, cansada). havendo ainda indignação face à atitude da criança, que espera um presente da visita.

Patrícia (não quis revelar o apelido), 43 anos, é mãe de Santiago, de 7 . É aluno de 2.º ano e costuma fazer os trabalhos de casa no ATL, local onde, na semana passada, leu e respondeu às questões que acompanhavam este texto. Chegado a casa, aconteceu o normal: a mãe foi rever os seus trabalhos.

“Deparei-me com o texto e perguntei-lhe se o tinha lido, se o tinha compreendido”, conta à MAGG. “À hora do jantar, comentámos e falámos em família sobre as realidades das diferentes casas, sobre a casa da vizinha não ser igual à nossa, mas também sobre o facto de não haver uma melhor do que a outra.”

Foi muito “pacífico”, ressalva. “Ele entendeu o texto: há uma situação em que uma mãe que tem um namorado novo, que quer apresentar, e há um filho que está nervoso porque tem de conhecer uma pessoa nova. No final corre tudo bem.”

Para esta mãe natural de Faro, esta polémica é um “não-assunto”. “Os preconceitos estão na cabeça dos adultos”, diz. Até porque, continua, não considera haver estereótipos. “Não entendi que se estivesse a estereotipar. É natural que aquela mãe esteja feliz por ter um namorado novo. Da mesma forma que é natural que tenha ficado triste quando o pai saiu de casa”, diz. “Eu acho que mostrar que as crianças vivem numa ilusão permanente sem se aperceberem da realidade à volta é que é um estereótipo perigoso.

Do lado de quem desaprova o texto, há quem defenda que é demasiado pobre tendo em conta a complexidade da situação em causa. Mas Patrícia não vê as coisas assim. “O texto foi escrito na perspetiva de uma criança. Todo o livro está escrito como se fosse uma criança. O ponto de vista, as expectativas. Logicamente, é muito mais simples do que o ponto de vista do adulto. Toda a polémica foi do ponto de vista de adulto.”

A interpretação de Patrícia face à atitude de Tiago, o novo namorado da mãe, também é positiva. “Aquela pessoa não veio com o objetivo de conquistar. Veio com o objetivo de agradar e de estar com a pessoa que conhece e de quem gosta. Eu acho que aquela pessoa não tentou em momento algum passar-se por pai ou melhor amigo. Se não conhece, não tem de se meter na intimidade da criança e essa é uma abordagem extraordinária. Porque é que temos de obrigar a criança a ser melhor amigo dos nossos amigos?”.

“Está exposto de forma muito pobre e com uma ausência da noção do amor”

Sandra Matos, 44 anos, fundadora da Baby Yoga Portugal, formadora de ioga e coach, é mãe de três meninas: de 15, 11 e 7 anos. Foi uma das pessoas que partilhou o texto na sua página de Facebook, tendo gerado mais de 700 comentários e partilhas.

Na opinião de Sandra, o tema abordado faz todo o sentido. Mas o debate deve surgir de forma mais orgânica. “Acho que isto deve ser abordado de forma muito natural”, diz. “Está exposto de forma muito pobre e com uma ausência da noção do amor, que é o que de facto é importante. O amor é um tema necessário. Aquela mãe para mim precisava acima de tudo de amor próprio.”

Vai mais longe: “E se fosse a namorada nova da mãe? Seria importante falar do novo amor da mãe. O amor que a mãe sente, o amor que cresceu nela. É natural a criança sentir-se introvertida, mas esperar um presente? Isso não faz sentido.”

Sandra não nega a realidade. “Há, de facto, mães que andam muito cansadas. E é natural que se fique mais feliz com um namorado novo. Claro que nos arranjamos”, destaca. “Mas é a forma como o texto está escrito.”

As perguntas que acompanham o texto, continua, também merecem ser analisadas. “Qual é a verdadeira intenção do texto? Trabalhar a gramática? O português? Fazê-lo juntamente com a abordagem deste assunto? Se é para abordar o tema, há tantas outras formas mais ricas.”

“Agora, centrando na criança que tem de receber uma prenda para aceitar o outro, na mãe que até foi arrumar a cozinha… Isto toca em tantos pontos que hoje deixam de fazer sentido, que me incomoda profundamente.”

“Não posso aceitar que achem que os miúdos devem continuar a viver num mundo cor de rosa”

Ana Lúcia Magro, 41 anos, é professora do 3.º ano do ensino básico numa escola de ensino público, em Almada. Trabalhou este texto com os alunos no ano letivo 2017/18, quando estes se encontravam no 2.º ano. Na sua turma de 24 alunos, mais de quatro têm os pais separados. A sua opinião, face a este exercício, divide-se.

“Não me insurjo porque esta temática deve ser abordada. Esta é a realidade de muitos miúdos. Não posso aceitar que achem que os miúdos devem continuar a viver num mundo cor de rosa, numa redoma de vidro”, diz. “Muitos [alunos] têm já duas famílias. Uma miúdo que tenha os pais separados não tem uma família desestruturada. Não é por se estar separado que há falta de estrutura. Nos tempos em que estamos, dizer estas coisas é um absurdo”, acrescenta, referindo-se a alguns comentários face à polémica.

Ainda assim, consegue perceber as falhas da narrativa, apesar de deixar uma nota: miúdos daquela idade captam o essencial e não se apercebem das interpretações que têm sido feitas por adultos.

“O texto em si é o mais bem escolhido? Talvez não. Mas também posso dizer que o que os meus alunos entenderam foi que a mãe ia apresentar o namorado. Nós, adultos, é que lemos — ficámos com a perceção — de a mãe se estar a arranjar para o namorado. Crianças de 7 anos não vão ficar com isso na cabeça. De 14 ou 15 talvez, por isso é que digo que o texto não foi o mais bem escolhido.”

“Pôr isto nas mãos de uma criança de sete anos é de uma irresponsabilidade enorme.”

Júlia Machado, psicóloga do Hospital dos Lusíadas do Porto, vê o bom e o mau deste texto. Mas é clara: “Não acho que deva fazer parte de um livro escolar.”

“A mãe tem realmente o direito de ser feliz. Eles estão a mostrar que a mãe, com uma nova pessoa, se sente mais feliz e os filhos querem que os pais sejam felizes. Quando nos sentimos mais felizes somos mais agradáveis e sentimo-nos melhor”, diz. “O problema não é arranjar o namorado, mas sim como o introduz à criança. Uma pessoa que não conhece entra assim por casa dela. O contexto deveria ser diferente.”

Ana Duarte Ferreira, psicóloga infantil, fica estupefacta com o texto. “Não é para uma criança interpretar. Qual é o propósito deste texto? Não vejo. Não teremos outros objetivos num texto de português?”, questiona à MAGG.

Júlia Machado faz exatamente a mesma questão. E acrescenta: “Não podemos dizer que está certo ou errado, porque, por um lado, a criança pode identificar-se. A intenção é boa. Mas está mal no sentido em que há várias interpretações sobre isto: além do namorado, a reação da mãe, a reação da própria criança.”

A psicóloga infantil do Hospital de Cascais não vê um lado positivo.  “Está tudo errado: a mãe que só está bem disposta porque tem um namorado, que só dá o leite com chocolate ao filho porque tem namorado, o namorado que entra por ali e não quer saber do filho”, diz.

O excerto, exposto isoladamente, acaba por contrariar a ideia do livro: “O que é que crianças que estão a passar por processos de divórcio vão pensar? Que a mãe vai arranjar um namorado e que não vai mais querer saber dela? Não considero isto pedagógico. Pôr isto nas mãos de uma criança de 7 anos é de uma irresponsabilidade enorme.”

Ana Duarte Ferreira não concorda com a ideia defendida pela professora Ana Lúcia Magro, de que as crianças não vão assimilar mais do que o básico: a mãe está feliz porque tem um namorado novo. Até porque, acrescenta, “com 7 anos são autênticas esponjas”.

“Não concordo. Acho que isto é bastante mais profundo. Será que agora vai arranjar um namorado e vai gostar menos de mim? Isto é uma realidade. Os miúdos pensam sobre isso. Nestes processos, elas culpam-se porque, por um lado, querem ver a mãe feliz, mas, por outro, têm medo que, havendo outro elemento, a vida mude”, diz. “Uma criança que atravesse o divórcio dos pais pode ficar com uma ideia errada do que poderá acontecer na sua família.

Segundo a especialista, isto tem potencial para gerar ansiedade. “Por vezes, desajustada, mas eles não se apercebem: ‘Será que me vai acontecer a mim? À minha vida?’ Porque é que lhes havemos de levantar estas questões? A realidade já é tão dura para alguns miúdos.”

Ana Duarte Ferreira refere ainda o retrato da mãe: “Não estamos a passar uma imagem normal de uma mulher no divórcio: uma mãe que não quer saber do filho, que só arruma a casa para o namorado, que só está feliz por causa dele.”

Para Júlia Machado, este texto teria de ser desconstruido e desmantelado o que, considera, poderá ser uma função que não compete a um educador. “Deveria ser trabalhado noutro sentido, noutro âmbito, talvez no desenvolvimento emocional ou cognitivo”, explica. “Que aptidões é que o educador tem para trabalhar competências emocionais da criança? Recebeu alguma formação emocional? Por mais pedagogia que se tenha, cabe aos psicólogo. É um ponto chave. Com isso eu não concordo.”

Nesta parte, as duas psicólogas estão de acordo. “Eu poderia utilizar o texto aqui [no consultório] para fazer uma criança pensar sobre as suas emoções, para ela perceber o que sente quando um namorado chega a casa. Mas a aprender português? Para quê?”, termina Ana Duarte Ferreira.

A MAGG contactou o Ministério da Educação, mas não obteve resposta até ao fecho deste artigo.

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