Crónica. O Aleste não é um festival, é uma festa

São três dias de música, amigos e muita poncha. O Aleste acontece em maio no Funchal e todos devíamos estar já a marcar o avião para 2020.

O festival acontece no Complexo Balnear da Barreirinha

Ana Viotti

Esta é a história do Pedro e, para já, vamos chamar-lhe Azevedo e não Flama — nome pelo qual é conhecido assim que se põe atrás dos discos — que o texto ainda está a começar. O Pedro, agora sim, pensava que conhecia todas as pessoas da ilha. “Pelo menos de vista, aqui na Madeira, toda a a gente se conhece”, conta-nos, ainda à mesa do restaurante que os pais gerem no centro do Funchal. O peixe espada estava bom, o arroz de pato — especialidade do Sr. Azevedo — estava ainda melhor, diz quem provou, e a conversa aqui, podia ser como as cerejas, mas como estamos na Madeira, digamos que é como os maracujás. São quatro da tarde e ainda se fala de Alestes passados e daquele que está prestes a começar.

Pedro — agora é que conto a história, juro — achava então que conhecia todas as pessoas da ilha, mais não fosse de vista. Mas há seis anos, alguém mencionou o nome de um Fábio de quem ele nunca tinha ouvido falar. “Ainda por cima ele é igual a ti, garantiam-me”. E, de facto, assim que puseram os olhos um no outro foi “What?!”. Os dois altos — ainda que o Fábio ganhe em centímetros — cabelo grande e sem grandes limites e as míticas camisas coloridas sem as quais já ninguém imagina esta dupla.

Fábio era dono do Barreirinha, um café, bar, galeria, restaurante, ponto de encontro. Enfim. Se estivéssemos numa aldeia, o Barreirinha era o equivalente àquelas mercearias onde tanto se vai para comprar pão como para pagar a conta da luz ou receber a reforma.

Estávamos em 2013 e Pedro já punha música e desde 2006 que era o responsável pela programação do Musicbox, em Lisboa. Decidiu arriscar e perguntar ao Fábio: “E se viesse cá passar umas malhas?”. Desceu o La Flama Blanca nele, identidade que gosta de assumir assim que a cúmbia lhe sai dos discos, e animou uma das noites do mais conhecido café da ilha.

Pedro é um dos quatro cabecilhas do grupo. Com ele estão sempre o Fábio, o Diogo e a Mafalda

Ana Viotti

Esta dupla passou a tripla, assim que que perceberam que aquela não podia ser noite única. Diogo Freitas, advogado e party animal, juntou-se ao grupo para que, ainda nesse ano, aquele DJ set no Barreirinha se transformasse num festival, o Aleste. E é aqui que o Pedro interrompe sempre e esclarece: “Atenção, o Aleste não é um festival, é uma brincadeira, mas uma brincadeira séria”.

Ainda nesse primeiro ano, esse Aleste criado de impulso juntou 100 pessoas no terraço de um museu que já nem existe. Hoje, e ainda em ressaca da edição de 2019, a festa juntou 700 pessoas. “E não queremos crescer mais. Qualquer coisa que passe disso já não é o Aleste”, refere Pedro.

O palco improvisado mudou-se do museu para a Praia da Barreirinha e de lá nunca mais vai sair. A não ser que a força da ilha fale mais alto, como aconteceu em 2018, quando o mar galgou a terra e obrigou o Aleste a mudar-se para um recinto maior. Mas este ano não só o mar colaborou, como o sol só deu tréguas quando se punha, e isto só lá para as nove da noite. “Aqui na Madeira é dia até mais tarde do que em Lisboa, não é?”, ouvimos ontem perguntar alguém, quando o sunset que põe fim a esta festa de três dias parecia nunca mais acabar.

E não é que tem razão? Segundo a meteorologia do iPhone, o sol hoje vai pôr-se às 20h50 em Lisboa, mas só às 21h06 no Funchal. São só 16 minutos, não é? Mas aqui valem por uma vida.

Poncha Puxa Poncha

Cheguei um dia antes do festival começar e, ainda meio às apalpadelas, aterrei no Barreirinha e percebi aí que aquela seria mais casa para mim durante aqueles dias do que o quarto de hotel onde me instalaram.

A mesa foi posta e, tal como todos os dias seguintes, nunca esteve fechada. Há sempre alguém a juntar-se, a querer sentar-se também. Alguém que ainda não almoçou, alguém que vem só tomar café ou alguém que vem começar ali um rally de ponchas. Não é uma metáfora, este rally existe mesmo.

O Aleste arrancou na sexta-feira, dia 24 de maio, com o Poncha Puxa Poncha, uma espécie de peddy papper, mas que em vez de enigmas para descobrir ou tarefas para cumprir, tudo se resumia a encher o copo de alumínio dado a todos na casa de partida com a poncha mais típica de cada um dos bares que marcavam o caminho.

Escusado será dizer que a meta estava montada no Barreirinha e os fiscais de linha dessa noite foram os Conjunto Corona, uma banda de hip hop daquele old school, já tão raro de se ouvir. E até eles, que têm por hábito oferecer hidromel ao público, desta vez trocaram as garrafas e era com poncha que enchiam os copos de quem não arredava da linha da frente.

A música nesse primeira noite acaba cedo e ficámos a saber que esse é um pormenor estratégico. “Não queremos que se desgracem todos no primeiro dia”, admite Pedro. Mas como as regras foram feitas para serem quebradas, Cláudia Fernandes, namorada do Fábio, uma das donas do Barreirinha e entusiasta número um do Aleste, toma conta do Spotify e enche uma pista de dança improvisada com Back Street Boys e Vengaboys, que isto do hip hop tuga é giro, mas mais giro é gritar em coro um bom e velho “Everybody”.

O festival dos abraços

O Pedro conquistou-me numa noite de Lux quando, em modo Flama, percebi que havia esperança para pessoas como eu que gostam é de dançar a rebolar a anca e não com o bracinho no ar. Depois a conquista foi progressiva. Desceu da mesa do DJ para dançar connosco já como Pedro e foi já como Pedro também que fez par com a minha Bárbara e juntos criaram a Guadalupe-olhos-cor-de-infinito. Eu, pelo meio, aproveitava os atuns de escabeche que ele faz como ninguém e os abraços que dá sempre que me vê. A cada um deles pensava: “Que engraçado, o Pedro dá sempre um abraço”. Depois percebi que é coisa de insular.

"O Aleste vive do local onde é feito", como lembra Pedro Azevedo

Ana Viotti

Assim que aterrei na Barreirinha, a Mafalda, o quarto elemento do grupo que organiza o Aleste, recebe-me com senhas para o almoço e um abraço daqueles. E olhem que ela tem braços compridos. O Fábio, pumba, outro abraço. O Diogo, entre mais uma poncha e uma energia sem fim, cada tiro, cada abraço. A Cláudia, oh a Cláudia. Conheciamo-nos há dez minutos e ela já me tinha perguntado dez vezes se estava bem, se estava a gostar, se precisava de alguma coisa. Levou-me a mergulhar no Seixal, a provar a melhor poncha na ilha — quando lá forem perguntem pela Poncha do Ronaldo. De nada — e abriu a casa da avó para nos mostrar fotografias antigas e um barril de vinho seco que parecia não ter fim. Agradeceu mil vezes aquele dia em que pôde mostrar o que é seu quando os obrigados são todos para ela.

E logo nesse primeiro dia percebemos aquilo que o Pedro contava naquele dia à mesa do restaurante dos pais. “O Aleste é tão familiar que não pode ser um festival. É só um dia de praia fixe, com amigos, copos e música”. Ora, amigos fizemos logo no primeiro dia, copos, bom, mergulhámos numa poncha assim que descemos no avião. Falta a música, que isto de acabar cedo é coisa de primeiro dia.

A festa continuou no sábado, 25 de maio, e logo a partir das 16 horas. O palco está montado a dez centímetros do oceano — e isto não é exagero — e até que o sol se ponha, que aqui sabemos já que é mais tarde, a vida divide-se entre mergulhos e palco. Por lá passou Maria, a guitarra do Norberto Lobo e a pujança da Selma Uamusse, que durante demasiados anos ficou escondida em back vocals.

Lena d’Água sobe ao palco com a Banda Xita e começa recatada, a lembrar um “Dou-te um Doce” que fez toda a plateia voltar aos anos 80, mesmo aqueles que já nasceram depois disso. Não tarda a que lance um “porra” ao microfone, deite uma garrafa de água pela cabeça abaixo para se refrescar dos quase 30 graus ao fim da tarde e termina, em grande, com um “A vida é como um…”, ao qual o público respondia com “…carrossel”.

O segundo dia começa às 16 horas e o público divide-se entre mergulhos e concertos

Ana Viotti

Os espanhóis Za!, que curtiram os concertos todos atrás do palco como se estivessem na primeira fila, põem o Aleste ao rubro, que já nem sabe se dança ou se ri com a performance feita em bateria, teclas e eletrónica de uma energia sem fim. E nós, cá em baixo rimos, mas dançamos, dançamos sempre. “Até a música dos intervalos é fixe, não é?” perguntam-nos. E nós, sem parar de mexer, nem precisamos de responder.

A noite termina com a “música para fazer barulho”, como apresenta Quim Albergaria, ou não fossem os Bateu Matou uma banda feita de três bateristas.

Nunca esquecer que tudo isto acontece num palco cujo cenário por trás parece pintado. De um lado a encosta, do outro o mar.

Ao terceiro dia, toda a gente ressuscita, que ainda há Aleste. Mas antes, e bem longe dos tempos em que a ressaca se curava com McDonads, o Pedro, entre um abraço e outro, leva-nos a casa dos pais, e serve-nos um arroz de lapas e pargo daqueles de fazer esfregar a barriga no final, em sinal de satisfação.

Baterias carregadas, siga para o sunset ao som do Flama. No último dia, em vez de mar temos jacuzzi e em vez de Barreirinha o terraço do Hotel Castanheiro, que empresta o espaço a quem não quer por nada que isto acabe. É que, já dizíamos no início, o Aleste não é um festival, é uma festa.

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