Lena d’Água. “Na música, as mulheres ficam sempre arrumadas a um canto”

Lena d'Água fala da droga como o seu único arrependimento, mas diz que nem isso lhe tirou a vontade de cantar. Está de volta com novo álbum.

Lena d'Água começou a tocar guitarra aos 14 anos, aos 17 tinha a sua primeira banda e aos 62 está no Top de vendas nacionais com o novo disco "Desalmadamente"

Ana Viotti

Aterrou na Madeira com uma constipação que trazia de Lisboa. Encheu-se de óleos essenciais e quando ouviu que o palco montado para o Aleste era ao sol, trocou a roupa preta que tinha preparado para o concerto por uma blusa branca.

Ainda assim, preferiu que a entrevista não fosse na varanda do hotel, “que esse sol na cabeça não faz bem a ninguém”. Abre-nos a porta do quarto, aponta para a cama e diz: “Fazemos aqui, pode ser?”. Com a Lena d’Água é assim, um improviso constante.

Nesta espécie de “Na cama com”, a cantora de 62 anos fala-nos de “Desalmadamente”, o novo disco que a faz voltar aos Tops e aos palcos. Fala também desta nova geração que lhe dá um valor que os seus contemporâneos nunca deram. “Senti-me sempre muito mal amada naquela altura”, admite, sem rancor, mas também sem esquecer as vezes em que o seu nome ficou esquecido para concertos, festivais e tributos. Agora, além deste concerto na Madeira, vai cantar no Primavera Sound e no tributo a António Variações, com momentos que fazem jus aos loucos anos 80.

Crescer num mundo masculino não foi fácil, dentro e fora da música. Está farta de ver “gajos, só gajos” a serem chamados para cantar, assim como também se fartou dos gajos que se penduraram na sua vida. Um deles ficou mais tempo do que devia e deu-lhe a experimentar heroína, já Lena tinha 33 anos. Foram precisos quase dez para que pudesse respirar de alívio por se ver livre daquele “buraco negro, frio, horrível”, mas agora, tal como canta no seu novo single, “está pronta para a grande festa”.

Apresente a Lena d’Água a esta nova geração que agora a ouve.
Eu sou uma cantora, fiquei muito famosa logo no início dos anos 80 com uma brincadeira que fizemos chamada “Olha o Robot”. Era uma brincadeira e foi um êxito gigante. Aliás, costumo dizer que, para mim, há um antes Robot e um depois Robot. Foi até repescada há uns anos para uma campanha publicitária do OLX, lembram-se? [e começa a cantarolar] “OLX, Olhó o Robot”. Isto ao fim de 30 e tal anos.

Para muitos de nós, a Lena é quase um mito.
Que idade tens?

Trinta e dois.
Hum, 32, ok.

Já não apanhámos a sua fase de ouro, mas o seu nome nunca foi esquecido.
Ficou sempre ali a ressoar, não é? É, graças aos pais, aos avós. Pá, são 40 e tal anos de música, nunca tive outro trabalho. Apanhei o 25 de Abril com 17 anos, por isso saí da faculdade porque nem havia professores, não havia aulas. Eu não estava para ficar ali a jogar às cartas à espera que as coisas assentassem, e logo em 1974 comecei a fazer música.

E ainda que nunca tenha parado realmente, houve uma altura em que deixámos de ouvir falar de si.
Estive em projetos com menos visibilidade. Primeiro foram as Canções do Século, um grupo formado por mim, pela Rita Guerra e a Helena Vieira. Isso durou quase toda a década de 90. Também fazia concertos meus, mas não lancei discos. Depois foi a fase da Billie Holiday [de 1999 a 2004 dá voz a um concerto tributo da cantora no Hot Clube de Portugal] e isso não dá na televisão. Esse foi um concerto todo engendrado por mim. Não tinha editora, não tinha nada. Tinha era os músicos e a vontade.

Então as pessoas acham que a Lena parou, mas na verdade isso nunca aconteceu.
Não, de todo. Depois dessa fase, ainda fiz um tributo à Elis Regina. Essa década de 2000 foi a minha década do jazz. No final de 2007 saí de Lisboa. Os meus pais morreram, vendemos a casa e eu fui morar para o campo, uma ideia que já tinha há muitos anos.

E como é a sua vida no campo?
É uma vida normal, só que tenho sempre lugar para estacionar e os meus gatos não são atropelados.

Mas cansou-se de Lisboa?
Cansei-me sim. E também não tinha dinheiro para comprar uma casa boa para ter animais.

Quantos animais tem agora?
Tenho quatro cães. Gatos de casa tenho três, mas depois tenho os outros que vou adotando e esterilizando. Ao todo são uns dez gatos. Adoro viver naquela casinha ali para os lados do Bombarral. Já estava a viver lá quando tive o primeiro sinal de que haveria uma nova geração a reparar em mim. Foi a primeira vez que um tema meu foi reinterpretado por uma banda, os Linda Martini, que pegaram no meu tema mais emblemático, o “Sempre Que o Amor me Quiser”. Eu fiquei muito surpreendida, mas está tão bom, tão diferente.

Numa fase seguinte, o Pedro Tróia pede-me para gravar com a banda dele, os Ciclo Preparatório. Vão buscar-me a casa, levam-me para um estúdio ali em Coruche e qual é o espanto quando a música a que eu ia dar voz se chama “A Volta ao Mundo com a Lena d’Água”. Achei o máximo. Eu não sabia, mas no final eles puseram um coro de crianças com vozinhas de 5 anos a cantar. [Trauteia] “Venham dar a volta ao mundo com a Lena D’Água”. A primeira vez que ouvi na rádio tive que parar o carro, até me emocionei. Comecei a sentir uma atenção das novas gerações que nunca senti com as pessoas do meu tempo.

Senti-me sempre muito mal amada naquela altura. Nunca fui chamada para cantar nos tributos. Nem eu nem as outras mulheres. É sempre gajos, gajos, é só gajos”

Como é que tinha sido se tivesse nascido nesta nova geração?
Acabava por ser a mesma coisa. Eu nasço numa família em que a música é muito importante, não como profissão, mas havia gira-discos e rádio. O meu pai adorava cantar, a minha mãe adorava cantar.

Mas sente-se agora mais compreendida do que na época?
Completamente. Senti-me sempre muito mal amada naquela altura. Nunca fui chamada para cantar nos tributos. Nem eu nem as outras mulheres. É sempre gajos, gajos, é só gajos.

O rock sempre foi muito masculino.
Mas nem estou a falar do rock, estou a falar de música popular em geral. Fizeram agora um disco de tributo ao José Mário Branco, são 16 faixas e há uma gaja. Uma! A minha querida Ana Deus. Devem-se ter enganado e chamaram uma mulher.

Não é portanto uma coisa dos anos 80.
Não querida, é um problema de hoje. É que quem produz, quem tem as ideias, nem repara, não se dá conta. Muitas dessas mulheres já nem querem saber, já nem aparecem. Cansaram-se, fartaram-se. Na música, as mulheres ficam sempre arrumadas a um canto, ao passo que os homens da nossa geração continuam a ser chamados para concertos, festivais, tributos.

A Lena é uma das convidadas a cantar no tributo a António Variações, no encerramento das Festas de Lisboa. Mas é também a única que privou realmente com ele.
Era o que faltava não ir [risos]. Eu sou contemporânea. Diverti-me muito com ele, andei de carro com ele, andei de helicóptero com ele, estive numa piscina com ele durante um programa de rádio. Não estive muitas vezes com ele, mas foram sempre inesquecíveis.

Acha que faz sentido falar-se no seu regresso, quando na verdade nunca saiu?
É um regresso aos originais. Durante anos estive a fazer o que me apeteceu, fosse piano e voz, fosse juntar uma banda para um espetáculo. Agora, finalmente, o meu caminho cruzou-se com o do Pedro [da Silva Martins, compositor]. Um dia mandei-lhe uma mensagem a dizer “Um dia também quero cantar coisas tuas, pá”. O Pedro já escreveu para os Deolinda, para tudo o que é grande artista, Ana Moura, Marisa. Quando ouvi o “Desfado” da Ana Moura pensei “Oh meu Deus isto é tão bom” e fiquei com vontade de lhe dizer “Então e eu?”. Cruzámo-nos finalmente numa daquelas ideias malucas do Fernando Alvim, o Festival Alternativo da Canção. Cantei duas músicas do Variações à capela e foi um momento incrível. Gente muito maluca dentro do Fontória, tudo a fumar e a beber e de repente começo a cantar e fez-se silêncio. O Pedro estava lá e fiquei a saber mais tarde que foi nessa noite que ele me viu e pensou “Ainda vou escrever para ela”.

Os meus fãs são os fãs do Benjamim, da Francisca Cortesão, do Pedro da Silva Martins, são os fãs destes músicos que quiseram tocar comigo. Mas também são os meus fãs antigos, os filhos dos meus fãs, os netos dos meus fãs”

E agora está em segundo lugar no Top de vendas.
Atrás do Marco Paulo [risos].

Consegue perceber quem são os seus fãs agora?
Os meus fãs são os fãs do Benjamim, da Francisca Cortesão, do Pedro da Silva Martins, são os fãs destes músicos que quiseram tocar comigo. Mas também são os meus fãs antigos, os filhos dos meus fãs, os netos dos meus fãs.

Também se aprende com esta nova geração?
Aprende-se sim. Mas, sobretudo, não me esqueço. É mais não me esquecer do que aprender. Eu nunca fui aquela cantora certinha, de saltos altos, toda pintada e arranjada.

Mas alguma vez quiseram que fosse assim?
Não, mas também mesmo que quisessem não tinham sorte. Houve uma altura que andei mais produzida, quando fiz as “Canções do Século”, porque ganhávamos muito bem, éramos vestidas pelo estilista José Carlos. Ficávamos muito giras. A Rita [Guerra] muito magrinha, assim com uma franjinha, muito gira. Foi assim a minha única fase mais arranjada, mas não me custou, até porque os meus saltos nunca foram muito altos.

As roupas que usava também marcaram a diferença. Eram criações suas?
Eu comprava uns metros de pano cru, atava com uma corda e já estava. Tinha um cabelo impecável, fazia umas tranças com ele ainda molhado e depois ficava com aquelas ondas. Cantava muitas vezes descalça. Era tudo inventado por mim e essa era uma forma de ser eu, sem muitas peneiras.

E as pessoas na altura percebiam-na?
Era uma novidade. Eu entro nos Beatnicks dois anos depois do 25 de abril. Antes disso era só fado e cantores românticos como a Simone e o Tony de Matos, que eram muito bons mas eram os nossos pais que ouviam.

Se estivermos atentos às letras, este álbum é quase autobiográfico.
Completamente.

Drogas duras nunca foram a minha cena. Fumava ganza, ervas, mas mais nada. Mas já tinham passado uns anos, comecei a namorar um uma pessoa e um dia reparo que ele estava diferente. Estava pacífico e perguntei-lhe o que se passava. E ele disse-me “Se quiseres experimenta”. E eu disse que sim. Foi uma estupidez”

“Cheguei, subi para o palco e caí no chão e aplaudiram a minha canção”. Isto aconteceu? Não literalmente, claro.
Ai mas literalmente também já me aconteceu [risos]. Não é só o Pedro Abrunhosa, coitado, que teve o azar de a queda ser em direto. Mas neste caso a queda não é literal, tem que ver com aquela fase das drogas.

Essa queda aconteceu já aos 33 anos. Porque é que aconteceu já mais tarde?
Eu perdi um amigo aos 18 anos por causa da heroína e fiquei com um ódio àquilo. Drogas duras nunca foram a minha cena. Fumava ganza, ervas, mas mais nada. Mas já tinham passado uns anos, comecei a namorar com uma pessoa e um dia reparo que ele estava diferente. Estava pacífico e perguntei-lhe o que se passava. E ele disse-me “Se quiseres experimenta”. E eu disse que sim. Foi uma estupidez.

Quanto tempo isso durou?
Isto acontece em 1989 e só acabei com a luta contra esta porcaria em 1998.

Deixava-se influenciar pelos homens com quem estava?
Ele não me obrigou. Eu estava apaixonada por ele e deixei-me levar. Mas é engraçado porque as relações mais longas que tive duraram três, quatro anos. Quando as coisas começavam a descambar, eu era logo “Quê? Desculpa? Eu ouvi bem? Eu estou na minha casa, meu, vai-te embora”. Ainda por cima tive a sorte — sorte entre aspas — de andar com gajos que se penduravam sempre na minha casa. Mandava-os todos embora.

Fala da fase das drogas como o seu único arrependimento.
Foi mesmo uma estupidez.

Livrar-se da droga foi uma forma de começar de novo?
Eu continuei sempre a trabalhar, mesmo durante essa fase. Nunca parei de trabalhar nem nunca fiz figuras em cima do palco. Mas quando me vi livre dessa prisão foi um alívio, foi tão bom. Uma vez o Herman José, num programa, perguntava-me se não sentia falta da droga, tal como ele sentia dos charutos que tinha deixado de fumar. Mas não tenho saudades nenhumas. Estive num buraco negro, frio, horrível. Alguma vez iria ter saudades disso?

E foi a Lena que tomou a iniciativa de contar essa sua fase?
Sim. Preferi ser eu a contar do que andassem a inventar coisas. E mesmo assim inventam. Diziam que eu usava seringas. Eu? Deus me livre, nunca usei. Odeio agulhas.

E já que falamos de vícios, e o tabaco? Li que deixou de fumar em janeiro.
Eu hoje já fumei um cigarro.

Então?
Então o quê? Desde janeiro que nunca mais comprei cigarros. Fumo de vez em quando quando estou com pessoas, um cigarrito de enrolar.

E esta vida de palco, também é um vício?
Não. Eu gosto, mas não é um vício.

No single de lançamento do disco avisa: “Espero que te caia a boca ao chão que eu estou pronta para a grande festa”.
Oh pá, não é tão fixe?

Acha que muito ficaram mesmo de boca no chão ao vê-la regressar?
Tenho tido dezenas e dezenas de pessoas a vir ter comigo todos os dias com reações tão queridas, tão sinceras. Os outros não sei.

E a esses o que tem a dizer?
Olha, espero que lhes tenha caído a boca ao chão.

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