Uma escultora montou uma exposição dentro de uma igreja em Monsaraz

A escultora Maria Leal da Costa dá vida à exposição "Mãos que Falam". E há mesmo mãos espalhadas pela igreja.

"Para mim, as minhas exposições não têm obras chaves, nem peças que consiga destacar sobre as demais, quer seja pela sua dimensão, formato ou mesmo pela sua capacidade de expressão. Cada peça fala e vive por si, e todas fazem parte de um todo"

Tiago Serrano

Foi a própria Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz que convidou a escultora Maria Leal da Costa a montar uma exposição na Igreja de Santiago — Galeria de Arte, em Monsaraz. Apesar de manter uma arquitetura fiel a um espaço de culto, a igreja da segunda metade do século XIII foi transformada num espaço artístico e acolhe exposições de arte.

Marial Leal da Costa não disse logo que sim. “Não faço uma exposição em qualquer sítio. Só depois de o experienciar e sentir presencialmente, é que poderei decidir se irei ou não avançar com a exposição, e quais as obras ou a narrativa que pretendo criar”, conta à MAGG.

O espaço costuma então por norma representar a primeira barreira à realização de uma exposição. Neste caso foi simples, já que a artista já tinha exposto na Igreja de Santiago há cerca de sensivelmente dez anos.

“Depois de rever novamente o espaço, pensei para mim, e agora que obras é que hei de levar? De que dimensões?”. Perante a fase que a artista está a viver, a escolha do tema “Mãos que Falam” como mote central da exposição surgiu quase que naturalmente, e até com um certo carácter auto-referencial, dado que “as mãos” se relacionam de forma muito direta com a sua forma de expressão artística — a escultura. É através das mãos que a escultora consegue transmitir as suas ideias e dar vida às suas obras, tendo este conceito já sido estudado e aprofundado pela escultora ao longo de vários anos.

“Mãos que Falam” é o título da exposição de escultura apresentada por Maria Leal da Costa a 11 de maio na Igreja de Santiago — Galeria de Arte, em Monsaraz, e aberta ao público até 7 de julho. O espaço está aberto todos os dias e a entrada é gratuita.

Maria Leal da Costa considera-se crente, e como tal, esta exposição ganha um significado especial para si. A igreja é simbolicamente a casa de Deus, e não quererá isso dizer que é ao mesmo tempo a continuação da obra de Deus? Não serão “as mãos” da escultura, aplicando uma mesma linha de pensamento, a continuação da obra artística? Ou deveremos dizer que é a obra artística que é a continuação das mãos da escultora?

Mãos que escondem ou revelam. Mãos que acenam ou se erguem acusadoras. Mãos que se agitam e se rebelam. Mãos que prendem impositivas. Mãos que simplesmente pairam como aves indecisas. Mãos fantasmagóricas da infância. Mãos sumamente ternas do amor. Mãos que se abrem em dádiva infindável. As variações são tantas quantas a imaginação daquele que contempla o permita.

“Para mim, as minhas exposições não têm obras chaves, nem peças que consiga destacar sobre as demais, quer seja pela sua dimensão, formato ou mesmo pela sua capacidade de expressão. Cada peça fala e vive por si, e todas fazem parte de um todo”.

O máximo que lhe podemos adiantar é que, em “Mãos que Falam”, poderá apreciar “mãos” das mais variadas dimensões e feitios, poderá acompanhar “asas” espalhadas pela estratosfera da Igreja de Santiago, bem como “travar diálogos” com algumas das personagens de ferro, pedra e madeira que se encontram espalhadas pelo recinto.

"Mãos que Falam", Igreja de Santiago — Galeria de Arte (Monsaraz)

Horário: 9h30-12:30 e 14h-18h
Preço: Entrada Livre

Maria Leal da Costa tem uma exposição permanente no parque de esculturas sediado na Quinta do Barrieiro, a residência da artista. É o chamado Alentejo Sculpture Park. A artista, que tem uma forte relação com a Land-Art, propõe assim vários percursos pela herdade, nos quais os visitantes têm oportunidade de contemplar as suas obras num ambiente de calma, tranquilidade e meditação. A herdade conta também com uma galeria (QB Art), que tem o intuito de promover e comercializar as obras da escultora bem como de outros artistas convidados.

“Não acho que a escultura seja menos valorizada pelo público — o que acho é que é mais fácil colocar um quadro ou uma fotografia, ou qualquer outro objeto bidimensional, num espaço de exposição, do que um tridimensional que ocupa volume, e que torna bastante mais difícil o processo de instalação”, explica. “Apesar de tudo, acho que esta realidade já mudou bastante. Quando as pessoas vêm aqui a casa e veem as peças expostas, refletem esta realidade para as suas próprias casas e lembram-se logo de um lugar onde ficaria bem uma escultura. Quanto ao cinema ou à literatura já é um pouco diferente.”

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