Dei a volta à vida. Tetraplégico, Nuno redescobriu a força de viver na pintura com a boca

Um acidente de carro deixou-o tetraplégico. Descobriu a pintura em 2005 e, agora, os quadros dão-lhe a paz de espírito de que precisa.

Nuno já realizou várias exposições um pouco por todo o País

Estávamos a 3 de setembro de 1993, mas Nuno Rodrigues ainda tem tudo muito fresco na memória. Nuno e mais três ex-camaradas da Força Aérea tinham estado a beber café à noite e decidiram ir todos juntos à festa da Unidade em São Jacinto, Aveiro. O combinado foi irem no carro de um deles, apesar de Nuno ter insistido com o amigo para que fosse ele a levar o automóvel.

Marcaram encontrar-se às 3h30 mas, às 3 horas, o amigo não lhe dizia nada. Ligou-lhe e percebeu que ainda estava a dormir: “Voltei a insistir para ele se deixar estar que eu levava o meu carro. Mas ele insistiu novamente e veio buscar-me”, recorda o homem de 48 anos à MAGG.

Seguiram viagem. Em Bragança, apanharam os restantes membros do grupo. “Eu ia à frente com ele e passei para o banco de trás.” Tinham ainda cerca de 300 quilómetros de estrada pela frente.

A viagem acabou por ser bem mais pequena do que era esperado — e a vida de Nuno mudou para sempre naquela noite. Em Macedo de Cavaleiros, 30 quilómetros depois, o carro onde seguiam embateu noutro. “O condutor com quem eu ia apercebeu-se de que ia bater de frente, então desviou-se e bateu do meu lado.”

Nuno sofreu um acidente de carro, onde seguia com mais três amigos, a 3 de setembro de 1993

Foram os amigos que o retiraram dentro do veículo acidentado. Nuno Rodrigues, na altura com 22 anos, ficou inconsciente, em semicoma — um coma leve do qual uma pessoa pode ser despertada — e tetraplégico, devido a uma fratura na cervical C4 e C5. Esteve umas horas na Unidade Hospitalar de Macedo de Cavaleiros e depois seguiu para o Hospital de Santo António, no Porto. Durante dois anos, Nuno foi passando por vários hospitais do norte do País.

“Tentei fazer uns movimentos com os braços e vi que não os conseguia mexer. Comecei a chorar”

Mas vamos recuar um pouco no tempo. Foi em 1971 que Nuno Rodrigues nasceu em Moçambique onde ficou até 1974, quando veio para Peniche com 3 anos de idade. Recorda uma infância passada em Peniche e de ser um miúdo rebelde. “Gostava muito de jogar à bola e então faltava muito à escola para poder ir jogar.” Foi aos 13 anos que acabou por ir viver para Bragança.

Até abraçar a carreira na Força Aérea como paraquedista, Nuno foi marmorista — trabalhava com pedra mármore e granito. A sua ida para as tropas paraquedistas aconteceu depois de ter ido a uma inspeção num quartel militar que, na altura, era obrigatória. Realizou alguns exames para ver se estava apto para cumprir o serviço militar e acabou por ficar. “Estava lá um sargento da Força Aérea a perguntar quem é que teria interesse em ir para os paraquedistas. Na altura disse que não queria, mas um amigo meu insistiu tanto que acabei por ir.” Foi a 4 de janeiro que 1992 que Nuno foi para a Área Militar de São Jacinto, em Aveiro.

Nuno Rodrigues teria a sua vida completamente alterada depois daquela noite em setembro. O homem não esquece o momento em que percebeu que não conseguia mexer nenhum dos membros, quando ainda se encontrava nos cuidados intensivos. “Apareceu um enfermeiro com umas folhas na mão e perguntou-me se eu era o Nuno Rodrigues, de 38 anos, casado e com duas filhas, e eu respondi que não. Pedi-lhe os papéis para ver e ele disse-me que não podia. Tentei fazer uns movimentos com os braços e vi que não os conseguia mexer. Comecei a chorar e a partir daí foi muito complicado.”

O ex-paraquedista admite que, inicialmente, nunca pensou que iria ficar assim para sempre. Os médicos iam dizendo que iria recuperar, que era preciso ter calma. Depois de algum tempo de estar no hospital, Nuno passou a conviver com pessoas que também estavam na mesma condição física. Foi assim que, aos poucos, se foi mentalizando que o seu estado não iria melhorar.

“Eu perguntava-lhes há quanto tempo é que estavam assim e eles respondiam ‘estou assim há dois anos’, ‘estou assim há cinco anos’. Até que houve uma altura em que os médicos mo disseram e eu também percebi que seria assim para o resto da minha vida.”

Nuno começou a pintar com a boca em 2005

Nuno só consegue mover-se dos ombros para cima, mas redescobriu a força de viver na pintura com a boca. O homem de 48 anos reconhece que antes do acidente não era “nada virado para as artes”. Foi em 2005, 12 anos depois do acidente de viação, que começou a pintar.

Na época, Nuno Rodrigues frequentava uma instituição em Bragança onde ia apenas uma vez por semana. As condições para uma pessoa com o seu problema não eram as melhores, e passava o tempo numa sala a conversar e via os outros a jogar.

Nuno Rodrigues começou a pintar em 2005, 12 anos depois do acidente de viação

“Gostava de lá estar, mas não era algo que me preenchesse”, admite. “Um dia estava na cama, no meu quarto, e pensei que aquilo não era vida para mim. Decidi falar com a assistente social dessa instituição e informei que não queria ir mais para lá. Foi então que ela me perguntou se eu não queria experimentar pintar com a boca.”

Nuno ficou a pensar na sugestão e acabou por aceitar. Passado algum tempo foi até à associação. Tinha um cavalete com uma tela à sua espera. Colocaram-lhe um pincel na boca e pediram-lhe para pintar qualquer coisa. “Fiz uma bola. Queria fazer uma cara e fiz um risco ao meio, pintei um lado de uma cor, o outro de outra cor, um olho de cada cor. Olhei para aquilo e comecei-me a rir e eles a dizerem ‘está muito bonito’.” Mas gostou tanto que pediu para levar o cavalete para casa.

Nuno Rodrigues, de 48 anos, reconhece que antes do acidente não era “nada virado para as artes”

Começou a pintar a 28 de setembro daquele ano. “No dia seguinte estive seis horas a pintar, comecei e acabei um quadro. E uma coisa que tenho marcada é o facto de o meu pai nunca me ter visto a pintar. Era ele quem tomava conta de mim em Bragança, mas acabou por falecer dias antes de eu começar a pintar.”

O homem natural de Moçambique foi tendo vários professores que lhe ensinaram diversas técnicas, o que permitiu que também se fosse aperfeiçoando. “Agora olho para os meus quadros e vejo uma evolução muito grande.”

A verdade é que, hoje, as pinturas de Nuno são verdadeiras obras de arte. E o reconhecimento da sua qualidade está nas várias exposições que já realizou um pouco por todo o País, nomeadamente em Manteigas, na Guarda, na Junta de Freguesia de Estoril, na Junta de Freguesia de Carcavelos ou em Peniche, no Edifício Cultural. Em outubro de 2017, através da Associação Salvador, Nuno foi até ao Museu de Arte Antiga, em Lisboa onde pintou uma réplica de um quadro. “Foi um grande desafio.”

Além disso, Nuno vende quase tudo o que pinta. E se quando começou os valores das obras eram baixos — entre 10 a 20€ —, nos últimos dois anos foram aumentando. O valor mais elevado que recebeu por uma pintura da sua autoria foi de 250€, mas os preços costumam situar-se entre os 60€ e os 100€.

Todos os dias, depois do almoço, Nuno vai para o Centro de Atividades Ocupacionais onde costuma pintar um pouco

A sua página de Facebook serve também como uma montra para os trabalhos que faz, uma vez que os vai partilhando por lá e é por lá também que muitas pessoas vão mostrando interesse. “Gostava um dia de expor os meus quadros numa galeria conhecida”, confessa.

“Paz de espírito”. É desta forma que Nuno descreve o que sente quando está a pintar, ao mesmo tempo que agora vê as pinturas um pouco como o seu trabalho. O homem de 48 anos revela que gosta de ir até à praia para se inspirar, mas afirma que normalmente as ideias surgem de imagens que vê na internet, sendo que depois costuma alterá-las um pouco.

O “bichinho dos saltos” ficou e Nuno voltou a saltar em 2011 de paraquedas

Atualmente, Nuno vive no Lar da Boa Vontade, em Carcavelos, onde está há dez anos. Gosta muito de lá estar. Depois do almoço vai para o Centro de Atividades Ocupacionais onde costuma pintar um pouco. A seguir vai até à praia ou até ao supermercado para “arejar a cabeça” e vai sempre sozinho “que é o mais importante”. Faz isto praticamente todos os dias, exceto quando está a chover ou quando está muito frio. Depois volta mais um bocadinho para o Centro de Atividades Ocupacionais  e por volta das 16 horas costuma deitar-se para aliviar a pressão de estar sentado.

“Na cama tenho o telemóvel. Com a língua e com o nariz escrevo e consigo comandar a televisão e os canais. Passo muito tempo a ver coisas de futebol. Gosto muito de futebol, particularmente do Benfica.” Antigamente ia com alguma frequência ver os jogos do clube da Luz e era algo que realmente gostava muito. “Mas sai caro no final do mês. Se ganhasse o Euromilhões ia ao estádio sempre que o Benfica jogasse em casa”, diz com uma gargalhada. “Nunca fui a um jogo da Liga dos Campeões e gostava muito.”

O “bichinho” dos saltos foi algo que ficou e, em 2011, Nunoo voltou a saltar de paraquedas

O “bichinho” dos saltos foi algo que ficou guardado. Em 2011, Nuno recebeu uma chamada da irmã Rita. “Peguntou-me se queria dar um passeio de barco no Tejo, deu-me outra opção que já não me recordo ou se queria dar um salto  tandem [é uma variação do paraquedismo tradicional, onde saltam duas pessoas: um instrutor e um passageiro].” Para Nuno, a resposta foi fácil: o salto tandem. E assim foi. Através da Associação Salvador, Nuno Rodrigues voltou a saltar de paraquedas, em Évora, com o paraquedista Mário Pardo, de uma altura de 4.200 metros.

Nuno guarda um vídeo desse salto que é algo que tem sempre muito orgulho em mostrar. Quando está um pouco em baixo, admite que o vê e fica um pouco mais restabelecido. “Foi uma sensação muito boa ter voltado a saltar. Foi o reviver do passado, apesar de ter saltado com uma pessoa — nos paraquedistas saltava sozinho —, mas foi muito bom. Vinha de alma cheia”, conclui.

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