Hoshi Collective. A marca de moda sustentável que nasceu em Chicago (mas tem raízes e produtos portugueses)

A marca, fundada em 2018 por duas portuguesas, pretende também contribuir para o sucesso profissional de mais mulheres.

São cinco os pilares da Hoshi Collective: o tradicional, o sustentável, o ético, o feito à mão e o intemporal

Hoshi Collective

Sónia e Rute iam numa viagem de carro com as respetivas famílias. Estávamos em fevereiro de 2018 e regressavam de uma snow trip de Wisconsin para Chicago, nos Estados Unidos, onde residem atualmente. Quatro adultos, duas crianças e um cão durante mais de dez horas de viagem dentro do mesmo carro. Havia tempo de sobra para conversar sobre tudo e mais alguma coisa. Entre jogos para passar o tempo e conversas mais descontraídas, a semente para o que viria a ser a Hoshi Collective acabou por se semear nesta viagem.

Sónia Afonso, de 44 anos, e Rute Martins, de 33 anos, são as fundadores da recente marca de moda sustentável criada em Chicago com raízes portuguesas — e não só porque há mesmo uma peça made in Portugal.

“A inspiração surgiu da multiculturalidade vivida por mim e pela Rute ao longo dos últimos 15 anos. Ambas temos um grande interesse por moda e, aliando a paixão da Rute por um estilo de vida mais sustentável ao meu interesse pela preservação cultural, nasce a Hoshi Collective”, conta Sónia, em entrevista à MAGG.

Rute (à esquerda) e Sónia (à direita) conheceram em agosto de 2016, em Chicago, onde vivem atualmente

A Hoshi Collective, fundada em 2018, poderia ser apenas mais uma marca de moda no mercado. Mas não é. A sustentabilidade — um dos pilares fundamentais da marca — aliada à preservação cultural, são o que a distingue.

Os produtos são realizados por artesãos que respeitam as tradições locais, utilizando sempre materiais naturais. Uma vez que a manufatura é artesanal, Sónia Afonso considera que, deste modo, estão a “criar a oportunidade de preservar técnicas artesanais”. Por outro lado, as próprias peças são inspiradas em produtos artesanais. “Fazemos uma intervenção no design, mas uma certa essência do produto tradicional fica lá representada.”

Na produção, Sónia e Rute têm em consideração principalmente dois fatores: os materiais e o processo. “Os materiais são sustentáveis, o que no caso desta coleção são os vários tipos de palha. No que diz respeito ao processo, procuramos parcerias com grupos de artesãos, de maneira a preservar técnicas tradicionais e, ao apoiar trabalho manual, evitar o impacto ambiental de processos industriais”, explica Sónia.

Nesta primeira coleção, denominada “The Sunseeker Collection”, existem quatro produtos distintos: dois chapéus produzidos em Cuenca, no Equador, feitos em palha de toquilla; uma mala fabricada em Borneo, na Indonésia, utilizando palha de vime e uma técnica tradicional Dayak; e uma mala produzida por mulheres artesãs em Fafe, no norte de Portugal, utilizando tranças de palha de centeio, que é uma tradição concelhia.

Desde o início que quisemos ter um produto português para o lançamento, até porque Portugal tem uma história de produtos tradicionais muito importante”, afirma Sónia.

Mas recuemos agora um pouco no tempo. Sónia e Rute só se conheceram em agosto de 2016, em Chicago, mas têm tanta coisa em comum que poderiam ter-se conhecido há muito mais tempo. “Há um grupo de portugueses que mora na cidade de Chicago e que regularmente promove encontros. Foi num desses almoços de verão que eu e a Sónia, acabada de chegar a Chicago, acabámos por nos conhecer”, recorda Rute. “Criou-se logo uma grande empatia, uma vez que tínhamos um trajeto de vida semelhante e partilhávamos uma série de interesses”, completa Sónia.

Sónia Afonso é natural de Bragança e só saiu de lá aos 18 anos para ir para a universidade estudar Relações Internacionais na Universidade do Minho. Depois de terminar a licenciatura, a mulher de 44 anos, trabalhou num banco em Espanha e em Portugal, e mais tarde foi delegada na indústria farmacêutica, no Porto. Mas não ficaria por aí. Mudou-se para a Suíça depois de o marido ter tido uma oportunidade de emprego. “As coisas começaram a tomar outro rumo na minha vida profissional, embarquei numa vida de expatriada, onde iríamos mudar de país a cada três anos.” Seguiu-se a Suécia, o Japão, a Noruega e, por fim, Chicago.

Os percursos de ambas são, de facto, muito idênticos. Rute Martins cresceu no Seixal, de onde só viria a sair quando deixou o País. Antes disso, licenciou-se em Serviço Social na Universidade Lusófona. Terminada a licenciatura, trabalhou durante um ano como administrativa e mais tarde na área da coordenação de projetos numa escola. Em 2013 mudou-se para Dublin, na Irlanda, depois de o marido ter recebido uma oferta de trabalho. Depois de três anos na Irlanda, foi viver para para Chicago.

Sónia e Rute pretendem contribuir para o sucesso profissional de mais mulheres

Mas, então, onde fica a moda na vida de ambas? “Os meus pais tiveram várias lojas de moda, o que desde pequena me incutiu o bichinho”, diz Sónia. A mulher natural de Bragança admite que esta sempre foi uma área que lhe suscitou muito interesse. Já em Chicago, foi também realizando alguns projetos de fotografia mais focados nesta área.

Já para Rute, só em 2015 é que o interesse pelo mundo da moda ficou mais sério e profissional com o lançamento da Tuhkana Swimwear, um projeto que se dedica à criação de biquínis e fatos de banho sustentáveis, através da utilização de tecidos biodegradáveis e do qual é fundadora. “O aumento mundial da produção de lixo foi um dos fatores principais que me levou a entrar no mundo da moda sustentável”, explica. No caso de Sónia, foi depois de ter conhecido Rute que começou a ter uma maior consciência e a estar mais informada acerca do impacto que a moda possui no ambiente.

E foi assim que nasceu a Hoshi Collective. O nome surgiu em grande parte da experiência que Sónia adquiriu dos anos que viveu no Japão, que garante lhe terem expandido os horizontes culturais. Foi neste país que também se conseguiu desenvolver tecnicamente, nomeadamente no que diz respeito à fotografia — e é por isso que as fotografias dos produtos são da sua autoria.

Sónia relembra que desde as primeiras discussões acerca da marca que esta ligação ao oriente foi incorporada no conceito que pretendiam incutir. “Por exemplo, a aplicação amarela que distingue a nossa marca vem de um chapéu tradicional japonês — o amigasa. Hoshi significa ‘estrela’ em japonês e a primeira coleção está muito ligada ao sol. Para mim e para a Rute, tendo vivido em vários países e continentes, a estrela é um elemento unificador. Independentemente de onde se viva, todos olhamos para a mesma estrela, o sol”, esclarece Sónia.

Por outro lado, Rute entende que havia também o desejo de incluir o sol em representação de todos os artesãos que apenas ficam no bastidores, mas que dão a vida a várias marcas. São as “estrelas” espalhadas pelo mundo. “Este coletivo (Collective) de estrelas (Hoshi) é a alma da nossa marca e queremos reconhecer o trabalho, que muitas vezes passa de geração em geração, de todos os artesãos espalhados pelo mundo e elevar produtos normalmente mais tradicionais para um nível.”

Não é apenas a sustentabilidade e a vontade de preservação cultural que diferenciam a Hoshi Collective. Antes de mais, o objetivo é o de não criar produtos que sigam as tendências de moda atuais, mas sim o de encontrar produtos tradicionais e convertê-los em peças intemporais.

São cinco os pilares da Hoshi Collective: o tradicional, o sustentável, o ético, o feito à mão e o intemporal. Todos os produtos têm de passar em pelo menos três destas garantias para poder seguir em frente. Sónia e Rute também pretender contribuir para o sucesso profissional de mais mulheres e, como tal, 1% das vendas da marca são doadas a uma organização não governamental.

Para já, a marca está essencialmente focada em comercializar os produtos online, através do site, bem como em encontrar parceiros locais que tenham interesse nos seus produtos. No entanto, a possibilidade de passar para um lugar físico em várias cidades continua a ser explorada, nomeadamente em Portugal.

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