O encontro com os jornalistas estava marcado para as 15 horas. Com um ar apressado, entram nos escritórios da Globo já quase às 15h30. Marisa Orth pede desculpas pelo atraso, mas justifica. “Portugal nos trata muito bem. Fomos almoçar fora deram vinho para a gente, uns petiscos ótimos, não dá para sair a meio”.

A atriz já não vinha a Portugal há 12 anos e nota uma cidade “muito mais viva, mais alegre”. E também ela, quando chega, enche toda uma sala. “Podia estar a dar uma de estrela, né? Com óculos escuros e tal”, brinca, enquanto arregaça as mangas da blusa. “Vamos mas é trabalhar”.

Miguel Falabella, mais calado, fala com a excentricidade de um cabelo loiro platinado e de uma camisa de veludo azul. Para o ator, Lisboa já é casa. “Portugal é sempre um ponto de paragem para mim quando viajo”, conta. Vem visitar Teresa Guilherme e Joaquim Monchique, amigos de muitos anos, mas admite que todos os motivos são bons para voltar.

Desta vez, o mote da viagem é a promoção do “Sai de Baixo: O Filme” que, 16 anos depois da série, juntou os atores, as personagens e os bordões que todos sabemos de cor. 

Por onde passa, Marisa ouve um “Cala a boca, Magda” e há até quem ache que Miguel tem mesmo “horror a pobre”. Mas eles não se importam. “Estas personagens são para sempre”, admite Miguel.

Na hora de passar o trailer, Marisa ri como se estivesse a ver tudo pela primeira vez. Miguel, autor da maioria das piadas, conta depois, em entrevista à MAGG, que o dia em que ponham limites ao seu humor, é o dia que a vida deixa de ter piada.

Foram “casados” durante seis anos no ecrã. Ainda há quem ache que são realmente marido e mulher?
Miguel: Ainda ontem aqui no restaurante nos trataram como se fôssemos casados. E sempre que vou a algum lado dizem: “Manda um beijo à Marisa”.
Marisa: Eu, quando chego a algum lugar, já sei que vem aí a pergunta: “E o Miguel, vem também?”. Eu já cansei de falar “Não, ele não vem”. Então agora digo sempre: “Vem já já”.

E, da mesma forma, já pensaram que a Marisa era burra e que o Miguel não gostava de pobres?
Marisa: As pessoas não confundem as personagens, as pessoas têm certeza que eu sou a Magda.
Miguel: Mas nunca de uma forma negativa.
(Marisa torce o nariz)

Para a Marisa não parece ter sido tão fácil…
Marisa: Eu me aborreço mesmo muito quando eu estou como cidadã lá no Brasil e tem algum problema do tipo enganarem-se no meu troco. Eu não sou briguenta, mas eu chamo a atenção. Quando me respondem “Cala a boca Magda” me dá um ódio.

Responde?
Marisa: A pessoa não sabe o risco de vida que corre comigo (risos). Infelizmente não perdi esse impulso e respondo sempre.

Passaram-se 16 anos desde o fim da série até ao lançamento deste filme. Porquê tanto tempo?
Marisa: A vida aconteceu.
Miguel: E foi um milagre o filme ter acontecido. Foram entraves atrás de entraves. Primeiro, uma desgraça com a morte da Márcia [Cabrita, que fazia de Neide e morreu de cancro em 2017], depois Luís Gustavo ficou doente, a Aracy [Balabanian] só podia gravar três dias. Mas saiu.

Este filme é feito para quem não via a série?
Miguel: Não é obrigatório ter visto a série, mas flui melhor para quem viu.

(Neste momento, trazem um café a Miguel e Marisa dá a entender que também quer um e comenta, entre dentes e num tom sarcástico: “Também quero um, pode ser? Apesar de eu ser mulher…”)

Ainda é seguro fazer piada com mulher burra e homem que odeia pobre?
Marisa: Claro que sim. É uma forma até de chamar a atenção para esses problemas. Mulherada, está na hora de deixar esse papel, viu?
Miguel: E o que não faltam são Cacos Antibes por aí.

A Marisa disse que o filme é uma comédia punk. Porquê?
Marisa: Porque não fala de temas fáceis. Fala de pobreza, de desigualdade, de um país desacreditado na política.

É mais fácil falar desses temas a brincar?
Miguel: A comédia é a melhor maneira de dizer a verdade. Melhor até do que a carta anónima.
Marisa: O humor é uma arma poderosíssima.

É por isso que preferem o humor politicamente incorreto?
Miguel: Eu não permito que a patrulha do politicamente correto me freie na minha criação.

E se isso um dia acontecer?
Miguel: Aí eu desisto. Aí vou fazer outra coisa, abrir uma loja, não sei.
Marisa: Loja de quê?
Miguel: Não sei. Vou abrir uma loja de quê? Olha, uma sex shop e chamo de Canguru Perneta (risos).

Não sei se já tiveram essa noção nestes poucos dias de visita mas, de repente, o Brasil invadiu Portugal.
Marisa: Nossa senhora, eu desde que cheguei ouço brasileiro em todo o lado.

E mesmo na novela da noite, quase metade do elenco é brasileiro.
Miguel: Sério?

Experimente ligar a TVI logo à noite.
Miguel: Ai agora quero ver sim.

Para vocês, Portugal é só uma visita?
Miguel: Eu adoro Portugal, mas eu não quero morar aqui. Fazer uma temporada cá, trazer espetáculos, isso sim. Eu tenho muita coisa para fazer no Brasil.
Marisa: Também nunca considerei viver cá. Tenho uma dívida com o Brasil, uma espécie de missão. Eu fui muito amada, muito querida lá e eu tenho que devolver esse amor. Eu amo morar no Brasil.

O Brasil nunca vos desiludiu?
Marisa: Mil vezes. Por isso é que reforço a vontade de estar lá. Eu sou resistente. Por isso tenho um projeto há mais de 20 anos no Rio de Janeiro, uma escola de formação de técnicos de artes e espetáculos. Já formámos mais de seis mil jovens, criámos mais de quatro mil empregos.
Miguel: Saem de lá ótimos profissionais, muitos já trabalharam em espetáculos meus.
Marisa: É, esse é um projeto para continuar e eu não pretendo desistir do Brasil fácil assim. Quero sim trazer espetáculo meu para Portugal, coisa que nunca consegui.

O Miguel disse uma vez que sem a Marisa, o Sai de Baixo não existia. Era a Marisa que sabia as posições, os textos, os tempos.
Miguel: A Marisa é um ótimo meio de campo, ela é fascinante. No meio daquele caos todo — porque aquilo era um caos — a Marisa conseguia botar uma ordem sem ser autoritária. Arrumava aquela bagunça.
Marisa: Eu sou muito stressada, me dá um desespero ver bagunça. Eu tenho muita noção do coletivo e olho para o grupo como um todo.

A Marisa é a razão e o Miguel o coração?
Marisa: O Miguel é stressado também, mas é menos que eu, é mais chefe. O coração é mais o Luís Gustavo (que fazia de Vává) ou a Aracy Balabanian (que fazia de Cassandra). Eu sou muito da ordem. Agora até que estou soltona, nossa. Aprendi a brincar muito, mas sempre fui muito tensa.

A vossa história também é de amor?
Marisa: Poxa, claro né? Eu amo esse cara e ele me ama. Briga comigo para caramba, mas ele me ama.
Miguel: Mas isso também faz parte do amor, né?