“Grande parte dos estudos não mostra uma diferença significativa entre biológico e não biológico no que diz respeito ao impacto na saúde”

Os produtos biológicos fazem cada vez mais parte das escolhas alimentares dos portugueses. Faz sentido? Dois especialistas comentam.

De acordo com Jaime Ferreira, presidente da AGROBIO, a produção de produtos de agricultura biológica é insuficiente para satisfazer as necessidades do mercado interno

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Há uma maior preocupação com o ambiente e com a saúde, sendo que a alimentação é mesmo uma das principais esferas na mudança de hábitos. É aqui que chegamos aos produtos biológicos, que fazem cada vez mais parte do dia a dia dos portugueses.

Segundo Jaime Ferreira, presidente da direção da Associação Portuguesa de Agricultura Biológica (AGROBIO), cerca de 20% da população já experimentou algum tipo de produto biológico. “O que sentimos é que há um interesse cada vez maior em consumir produtos biológicos. Não há é ainda produtos biológicos disponíveis no mercado em quantidade e em preço para que todos possam aceder a eles.”

Há quem diga e pense que estes produtos são mais saudáveis, que possuem mais nutrientes ou que não utilizam pesticidas. Mas será mesmo assim?

Dados sobre a agricultura biológica

Segundo dados do presidente da Associação Portuguesa de Agricultura Biológica Jaime Ferreira, em Portugal:

— Há cerca de 4300 agricultores de agricultura biológica e o número tem vindo a crescer anualmente;

— Existem cerca de 5.400 operadores (todas as empresas ou pessoas a título individual que trabalham na agricultura biológica, desde ao agricultor à empresa que vende os produtos biológicos, que transforma produtos biológicos, que faz o embalamento);

— A produção de produtos de agricultura biológica é insuficiente para satisfazer as necessidades do mercado interno. Há uma grande importação de produtos biológicos, nomeadamente de produtos transformados — mais de 90% são importados;

— Principais fornecedores: Espanha (frutas e legumes). Alemanha, França e Itália e Holanda (produtos transformados).

Antes de mais, vamos esclarecer o conceito central deste artigo: o de agricultura biológica. Jaime Ferreira começa por explicar que a agricultura biológica consiste num “processo de produção agrícola” que compreende plantas e animais, e que engloba um conjunto de princípios sustentados pela ecologia, saúde, justiça e precaução com o ambiente, tendo como base um solo fértil.

“Também temos em regra e como princípio o bem-estar animal. Os animais têm de ter um acesso livre à água, ao ar, à luz, ao espaço, à alimentação”, explica. De acordo com o responsável da AGROBIO, a agricultura biológica também não utiliza técnicas que suscitem dúvidas do seu benefício para a saúde do ser humano, como é o caso dos organismos geneticamente modificados (OGM).

É importante fazer também uma clara distinção entre estes produtos com os produtos orgânicos e naturais. “Os termos ‘natural’ e ‘orgânico’ são frequentemente usados de forma muito pouco específica, podendo ter vários significados. Tecnicamente é natural ou orgânico tudo o que seja produzido pela natureza ou relacionado com a mesma”, explica a médica Margarida Santos. No entanto, isto não significa que um produto rotulado como natural seja de origem biológica, uma vez que não é regulamentado do mesmo modo e pode conter pesticidas, antibióticos ou outras substâncias que são proibidas na agricultura biológica.

“Natural e orgânico são dois termos usados de forma cada vez mais frequente como estratégia de marketing, mas é importante relembrar que muitas vezes são utilizados de forma pouco criteriosa e que não requerem nenhum tipo de certificação oficial.”

A agricultura biológica também utiliza pesticidas

“Em termos de proteção de plantas e animais, usamos psicofármacos de origem natural e nunca sintéticos, mas baseamos a agricultura em métodos preventivos desde técnicas agrícolas de proteção das plantas e dos próprios animais”, refere Jaime Ferreira.

O presidente da AGROBIO entende que está tudo relacionado com a saúde e com o impacto no ambiente. Assim, um pesticida de origem natural é uma “substância que o organismo reconhece e que não rejeita” — tal como o ambiente —, ao contrário do que acontece com os pesticidas sintéticos em que, segundo o próprio, o organismo não conhece, não está preparado para eles e podem originar doenças “graves”.

Ainda assim, indica que estes pesticidas naturais são utilizados apenas em recurso, isto é, não são a regra. “São utilizados quando há um grau de doença que já não é possível controlar de nenhuma forma.” Antes disso, são usados métodos para controlar ou diminuir a ocorrência da doença ou praga. Insetos que controlam outros insetos, plantas que repelem insetos ou colocar várias variedades de plantas num único terreno para diminuir a  ocorrência e a disseminação da praga pelas outras são algumas das técnicas utilizadas.

É neste ponto que as opiniões divergem um pouco. Se Jaime Ferreira entende que o uso de pesticidas naturais é apenas uma exceção à regra e que os pesticidas sintéticos não são sequer utilizados, a médica Margarida Santos não é da mesma opinião. “O termo ‘pesticida’ refere-se a qualquer substância destinada a lutar contra parasitas animais e vegetais. Neste sentido, é fácil perceber que também a agricultura biológica os usa”, afirma.

Apesar de concordar que a agricultura biológica privilegia “métodos de produção mais ecológicos e que são usadas apenas substâncias naturais”, a médica reforça que este é mesmo um dos maiores mitos relacionados com a agricultura biológica e que este modo de produção agrícola também usa pesticidas, “sendo a maior diferença a sua origem. Adicionalmente há exceções em que alguns pesticidas sintéticos podem ser usados”.

“A agricultura biológica também usa pesticidas para controlo de pragas e contaminações. A grande diferença é que são na maioria das vezes substâncias de origem natural e não sintetizadas em laboratório. Contudo, é importante desmistificar a ideia de que tudo o que é químico é mau, e tudo o que é natural é bom”, explica.

A especialista esclarece que, do mesmo modo que há “substâncias naturais que podem matar”, há também químicos que podem “salvar vidas”. “Mais do que serem pesticidas ‘naturais’ ou ‘químicos’, o que nos deve interessar é a sua toxicidade e efeito na saúde.” Margarida Santos reforça ainda que mesmo os pesticidas utilizados pela agricultura convencional são “regulados e supostamente seguros, caso contrário não poderiam ser usados legalmente”, do mesmo modo que, usados na dose certa, “são importantes para evitar contaminações que podem ser nocivas para o ser humano”.

Serão estes produtos mais saudáveis comparativamente com os de agricultura convencional?

Segundo a médica Margarida Santos, a reposta é não. “Os produtos biológicos não são obrigatoriamente mais saudáveis. Um alimento hiper processado, com açúcar e gordura adicionados, não deixa de o ser por ter o carimbo biológico. Um pacote de bolachas com elevado teor de açúcares e óleos refinados não passa a ser saudável por ter um carimbo verde no rótulo.”

Jaime Ferreira discorda e refuta que um pacote de bolachas biológicas não pode ser comparável a um pacote de bolachas de agricultura convencional, uma vez que não possuem as “mesmas substâncias”.

Quem regula a agricultura biológica em Portugal?

No espaço da União Europeia (UE), os produtos alimentares de agricultura biológica estão identificados com o símbolo da Eurofolha — uma folha verde com estrelas brancas. “Teoricamente, este ‘carimbo’ no rótulo garante ao consumidor que o produto segue a regulamentação estabelecida pela UE e que pelo menos 95% dos ingredientes são produzidos através de agricultura biológica”, explica Margarida Santos.

Em Portugal são três os organismos que fazem cumprir a regulamentação. A Direção Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural é quem supervisiona o setor. Depois o Instituto Português de Acreditação para a Certificação faz a homologação das empresas privadas que realizam a certificação. Por último, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) fiscaliza os pontos de venda. “O produto biológico é fiscalizado desde o momento em que é produzido, a partir do momento em que o agricultor se decide instalar numa terra, até quando chega ao mercado”, reforça Jaime Ferreira.

O presidente da AGROBIO entende que, normalmente, num produto biológico, como as bolachas, a tendência é para não possuírem tanto sal, gordura e todas as substâncias que se adicionam como os conservantes, os estabilizantes, as cores ou os aromas, e que estão proibidos na agricultura biológica porque são artificiais.

“A questão é que se eu me alimentar mal, se comer sempre gorduras, se comer sempre carne, se comer coisas com muito sal, se comer sempre enchidos, mesmo que sejam biológicos, isso vai fazer-me mal porque eu não sei comer, estou a comer mal.”

Tanto nos produtos biológicos como nos produtos convencionais, Margarida Santos ressalta a importância de se ler os rótulos nutricionais e a lista de ingredientes, uma vez que isso “nos permite avaliar o valor nutricional daquilo que estamos a comer”.

Isto é uma parte do processo de “reeducação alimentar” e é fundamental para uma alimentação saudável e flexível a longo prazo. “Mais importante do que categorizar alimentos como ‘bons’ e ‘maus’, é importante estarmos conscientes do que estamos a consumir.”

A médica refere que, na prática, não existem razões que a façam recomendar produtos biológicos em específico e quando aborda o assunto, “o objetivo é esclarecer quais são os benefícios reais e desmistificar possíveis ideias erradas”.

Há pouca evidência científica que comprove que estes produtos possuem mais nutrientes

“No que toca a alimentos mais interessantes nutricionalmente, como frutas e vegetais, a verdade é que grande parte dos estudos não mostra uma diferença significativa entre biológico e não biológico no que diz respeito ao impacto na saúde”, diz Margarida Santos.

Assim, apesar de existir efetivamente uma ligeira diferença, a médica entende que não é uma diferença grande o suficiente “para fazer com que os produtos biológicos sejam recomendados de forma generalizada”. “Adicionalmente, se o facto de os alimentos biológicos serem mais caros limitar o nosso consumo de frutas e vegetais, vamos acabar por ingerir menos micronutrientes, certo?”, questiona.

“O que posso dizer é que os produtos biológicos têm normalmente mais peso seco. Por exemplo, uma maçã de agricultura biológica tem menos água, as substâncias e os nutrientes estão mais concentrados e aquela maçã vai conseguir aportar um maior número de nutrientes”, afirma Jaime Ferreira. O presidente da AGROBIO refere ainda que há estudos que indicam que os produtos biológicos têm um maior teor de antioxidantes.

“Com a evidência que temos atualmente, diria que uma dieta saudável, independentemente de ser de origem biológica ou não, é por si só benéfica para a nossa saúde”, diz Margarida Santos.

A questão do preço elevado dos produtos biológicos

Em relação aos produtos de agricultura convencional, os preços dos produtos biológicos são muito mais elevados. Margarida Santos e Jaime Ferreira estão de acordo com esta afirmação.

“Consideramos que, neste momento, o preço dos produtos é ainda muito elevado. Ainda assim, a tendência do preço dos produtos biológicos é para baixar e não para subir à medida que a produção vai aumentando”, assegura Jaime Ferreira.

A médica Margarida Santos entende que, perante este cenário, é importante passar a mensagem de que para comer bem não é obrigatório gastar mais dinheiro. “Não me preocupa minimamente uma pessoa que tem a possibilidade de comprar alimentos biológicos porque prefere e se sente melhor. O que de facto me preocupa são pessoas que deixam de comer vegetais de agricultura convencional por medo dos pesticidas ou porque não têm dinheiro para os biológicos. Não há necessidade.”

Jaime Ferreira considera, ainda assim, que existe uma especulação em relação aos preços dos produtos biológicos, isto é, há uma ideia de que “determinado produto biológico é só para determinada classe da nossa população o que está errado, porque defendemos produtos biológicos para todos”.

O presidente da AGROBIO deixa, no entanto, algumas dicas para que os consumidores consigam encontrar produtos biológicos mais baratos: consumirem os produtos na medida do possível o mais próximo e direto dos produtores; optarem por produtos da época; e consumirem mais produtos frescos. “Os produtos da época são produtos mais abundantes, produzidos em maior quantidade e que têm tendência para ser mais baratos. O problema é que hoje, enquanto consumidores, já não sabemos o que é um produto da estação do ano e queremos consumir tudo em qualquer época do ano. Então, se for um produto biológico, é muito mais caro.”

Os produtos biológicos têm um sabor diferente? São melhores?

Jaime Ferreira considera que os consumidores notam uma diferença quando provam os produtos de origem biológicos. “As pessoas que já provaram um produto biológico dizem ter um sabor diferente, é mais agradável e de maior qualidade.”

A opinião pessoal de Margarida Santos aponta no mesmo sentido. “A resposta a esta pergunta vai ser sempre controversa. Muitos dirão que sim e eu própria confesso que acho que noto diferença, principalmente nas frutas. Contudo, a resposta baseada em evidência será que os resultados são inconsistentes, sendo que há evidência a apontar para os dois lados”, conclui.

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