Tudo leva a crer que são da mesma família. As embalagens são semelhantes. A forma como se consomem também. Tal como o leite de vaca, as bebidas vegetais enchem a caneca do pequeno-almoço, vão bem com cereais, com granola, como ingrediente de batidos, de panquecas e de muitas outras receitas de onde se quer excluir o líquido de origem animal. Mas este é daqueles casos flagrantes em que o que parece está longe de corresponder ao que, de facto, é.

As bebidas vegetais não são um produto natural ou sequer presente na roda dos alimentos, ainda que muitos planos alimentares saídos de gabinetes de nutrição as incluam. As bebidas vegetais não são equivalentes ao leite, portanto não o substituem, apesar de o boom destas novas opções ter coincidido — ou não — com o momento em que a bebida de origem animal começou a ser excluída de muitas dietas.

“Estamos a comparar alimentos que não são comparáveis, embora se perceba que a indústria o faça de uma forma muito colada”, explica à MAGG Conceição Calhau, nutricionista, investigadora, professora e coordenadora do curso de Ciências da Nutrição da NOVA Medical School.

As bebidas vegetais — e não leites, como popularmente se diz — são um outro produto que nada tem a ver com o leite de vaca. É preciso reforçar esta distinção, apesar de os motivos serem óbvios: os ingredientes constituintes são diferentes, a composição nutricional é absolutamente distinta e, por conseguinte, o impacto no organismo também.

Olhando para o rótulo percebemos que, no fundo, se trata de uma bebida altamente superficial, de um preparado, de um cocktail que poderá ser mais ou menos nutricionalmente equilibrado”

“As pessoas substituem o leite de vaca por bebidas de base vegetal e têm de perceber que não é bem a mesma coisa. Estamos a falar em animal e em vegetal, ou seja, no caso das bebidas vegetais, falamos de soja, aveia, amêndoa ou arroz.”

Na sua composição, estas bebidas têm água, frequentemente açúcar, a farinha do componente que aparece na embalagem (desde a aveia, à soja ou arroz) — muitas vezes com percentagens muito pouco significativas — e “a fortificação que eles [as marcas, a indústria] entendem para uma determinada rotulagem e target”, explica a especialista.

Independentemente do ingrediente que vem destacado no rótulo, a realidade é que este líquido está mais próximo de um sumo do que de um leite. “Da mesma maneira que temos um sumo à base de fruta, aqui temos uma bebida à base de um cereal, leguminosa ou oleaginosa”, diz. “Olhando para o rótulo percebemos que, no fundo, se trata de uma bebida altamente superficial, de um preparado, de um cocktail que poderá ser mais ou menos nutricionalmente equilibrado.”

É por isso que Conceição Calhau não hesita em retirar estas bebidas da lista de alimentos que compõem os planos nutricionais que traça aos seus clientes. “Não recomendo de maneira nenhuma a ingestão deste tipo de alimentos, como não recomendo de nenhum outro que não exista na roda dos alimentos.”

“Hoje são as modas que ditam os planos alimentares”

Açúcar, soja, proteína ou cálcio. Atenção aos rótulos

Embora não faça a recomendação destas bebidas em consulta, a nutricionista entende que este é um hábito que, em muitos casos, já está enraizado. Nesses casos o importante será “ensinar a fazer as melhores escolhas”, desmistificando, por outro lado, “alguma não-informação ou conhecimento que tenham.”

As melhores escolhas só se garantem quando há uma “análise do rótulo no seu todo.” Ou seja, vendo os ingredientes e os nutrientes que constituem um produto, tendo em consideração as doses em que estão presentes.

A ordem por que aparecem escritos no rótulo os componentes de um alimento correspondem à força da sua presença naquele produto. Se vier em primeiro lugar, é o que existe em maior quantidade. Se vier em último, então é porque a percentagem é pequena. As embalagens das bebidas vegetais não serão, obviamente, uma exceção: “Olhando para os rótulos destas bebidas, é comum vermos que o açúcar vem logo em segundo lugar, depois da água”, chama a atenção Conceição Calhau.

A lógica aqui é simples e a regra é igual para todos os alimentos: quanto menos açúcar.

Mas não é só isto. À adição de açúcar, soma-se a atenção pelo teor proteico, pela quantidade de cálcio ou ainda a presença de aditivos que são nutricionalmente irrelevantes e potencialmente agressivos para o organismo.

A soja constitui alguma preocupação quando percebemos que as pessoas fazem um dia alimentar à base de soja. É o leite de soja, o iogurte de soja,  a nata de soja, são os rebentos de soja, é a soja a substituir a carne”

Comecemos pela proteína. A quantidade deste macronutriente aqui tende — ao contrário do leite de vaca — a ter uma representação muito reduzida. Só há uma versão das bebidas vegetais com uma quantidade mais relevante: “A bebida de soja tem uma quantidade proteína mais elevada, quando comparamos a uma bebida de amêndoa. É mais próxima do leite de vaca”, diz a nutricionista.

Mas com o excesso desta leguminosa surge o seu lado negro. “É preocupante quando percebemos que as pessoas fazem um dia alimentar à base de soja. É o leite de soja, o iogurte de soja, a nata de soja, são os rebentos de soja, é a soja a substituir a carne”, explica. “A soja tem isoflavonas, ou seja, efeito estrogénico. O que nós sabemos é que tudo o que mexe com estrogénios — logo à partida e o que é mais consensual — tem uma possível associação com o cancro estrogénio dependente.”

Continua: “Por outro lado, atualmente já há evidencia de que o efeito estrogénico pode estar associado a uma diminuição na fertilidade, a um perfil inflamatório, que já foi ligado ao risco cardiovascular.”

Numa tentativa de aproximar etas bebidas do leite de vaca, a indústria esforça-se para igualar os teores de cálcio. Em todas as opções, seja com a leguminosa, cereal ou olioginosa, a quantidade deste mineral surge numa quantidade identifica ao que está presente na bebida de origem animal. Mas claro que há diferenças, não fosse a sua presença natural num produto e artificial no outro. Ao contrário do leite de vaca, o cálcio não existe naturalmente na matriz das bebidas vegetais. O cálcio é, sim, mimetizado e a bebida é artificialmente fortificada.

A quantidade é idêntica, mas o nutriente nasce num laboratório. Será o corpo capaz de absorver este cálcio da mesma forma que absorve aquele que está presente no leite? É difícil perceber.“Não sabemos se a adição numa matriz que não é natural — de um ingrediente que foi quimicamente adicionado — é igualmente biodisponível.”

Por último, Conceição Calhau chama a atenção para a presença de outras substâncias químicas. “Ter em atenção os outros aditivos, que não interessam, e que muitas vezes estão incluídos nestas bebidas, como acontece noutros produtos.” É o caso dos emulsionantes como o lecitina de girassol ou dos aromas artifciais.

“Não vejo a necessidade de ter o leite como o mau da fita”

O ruído em relação ao leite de vaca é grande. Foram vários os estudos que vieram desaconselhar o seu consumo e são muitas as teses que argumentam contra a sua ingestão. Com ou sem intolerância ou sensibilidade à lactose, assistimos a um vasto número de pessoas a pôr de parte o seu consumo. Faz sentido? Para muitos profissionais de saúde, não. Conceição Calhau é um deles.

“É preciso saber, em primeiro lugar, como é que, no tempo, isto aconteceu”, ressalva. “A polémica começou com a notícia divulgada pela Universidade de Harvard, que chamou a atenção para a necessidade de os americanos reduzirem o consumo do leite de vaca.”

“Não há estudos conclusivos para suportar todos os benefícios que se apontam ao óleo de coco”

Só que a forma como neste país se bebe leite é diferente da de Portugal: “Eles não bebem o leite de vaca como nós. Eles bebem leite o dia todo, portanto era mais de um litro”, explica. “No nosso caso, apelavam à redução do seu consumo e não para a exclusão.”

Igualmente importante é também rever o significado de intolerância. “Para que haja intolerância tem de ser feito o diagnóstico clínico”, ressalva. Sobre o aumento de casos que descrevem desconforto face ao açúcar do leite, Conceição Calhau explica que a reação do organismo à lactose é fruto de várias alterações no quotidiano base da sociedade. A sintomatologia associada ao consumo de leite, em que as pessoas que deixam de o beber passam a sentir-se melhor, é um reflexo das alterações dos microorganismos intestinais, que hoje são “muito diferentes daqueles com os quais nos fomos evoluindo.”

“Fomos tendo alterações de sono, aumento de stresse, atividade física mais reduzida. Estes microorganismos foram-se alterando e como são diferentes podem fermentar este tipo de alimento. Por isso é que as pessoas associam o leite ao desconforto intestinal. Mas sabemos que há opções de lacticínios sem lactose. Não vejo uma necessidade para ter o leite como o mau da fita.”

No entanto, a nutricionista não põe de parte a relevância da qualidade da alimentação do animal. “Do ponto de vista nutricional, o leite é uma secreção do animal e, portanto, a qualidade terá muito a ver com aquilo que é sua a alimentação e medicação.

Só que na rotulagem “não há informação sobre contaminantes, sobre antibióticos, anabolizantes ou fertilizantes e pesticidas que possam ter sido utilizados nas pastagens e na ração.”

Como deve, então, ser feita a escolha? “Nos estudos mais detalhados que têm sido feitos sobre o leite dos Açores — até sobre a própria composição da gordura —, a conclusão é de que é um leite muito interessante”, explica, acrescentando que deve ser um produto a que “deveríamos dar prioridade”, referindo ainda o menor impacto económico e ambiental associado à compra de produtos nacionais.

Por outro lado, refere ainda o leites biológicos: “por definição”, serão aqueles em que “não houve medicação, fertilizantes e pesticidas no tratamento do animal ou da ração.”