Sandra Ventura nunca mais vai esquecer o dia em que foi fazer uma sessão fotográfica a um lar. Poderia ter sido um dia igual a tantos outros, não tivessem todos os idosos comprado uma fotografia com exceção de uma única mulher. “A minha filha disse-me que não valia a pena”, explicou a idosa à fotógrafa de 41 anos. Estava claramente triste. “Como assim, não vale a pena?”, questiona Sandra à MAGG. “Se calhar se fosse do neto valia a pena, e tinha quatro ou cinco molduras espalhadas pela casa”.

Infelizmente, às vezes acontece haver quem ache que não vale a pena deixar o pai, avô ou bisavô comprar a sua foto no lar ou no centro de dia. Assim como também há quem diga coisas como: “Ok, ele até pode tirar uma fotografia. Assim, já dá para a campa”. “Isto acontece e é uma pena que a nossa cultura veja os velhos como inúteis e que não valem a pena”, diz Sandra.

Mas há histórias muito mais alegres. Já lá vamos — antes de mais temos de começar com as devidas apresentações. Sandra Ventura é fotógrafa e tem um trabalho no mínimo diferente do habitual: vai fotografar idosos em centros de dia e lares. Natural de Samora Correia, Sandra garante ter sido a pioneira neste ramo da fotografia em Portugal. No início era ela quem entrava em contacto com as instituições, apenas dos distritos de Lisboa, Setúbal e Santarém, hoje é contactada pelos próprios espaços um pouco por todo o País. As sessões mantêm-se sem custos para as instituições.

Foi aos 19 anos que Sandra Ventura teve o primeiro contacto com o mundo da fotografia

Sandra fotografa todos os idosos que queiram ser fotografados, mesmo que não tenham famílias que depois lhe comprem as fotos. As fotos que conseguir vender posteriormente é que serão o lucro que irá trazer ou não desse dia de trabalho, muitas vezes realizado a vários quilómetros de casa.

A isto há ainda a juntar todas as despesas inerentes ao trabalho que agora faz de norte a sul do país — alojamento, alimentação, portagens, deslocações. É tudo por sua conta e do marido, Tiago, que deixou o emprego estável que tinha para editar todas as fotografias e resolver as questões da iluminação e parte técnica.

“É verdade que é um risco que corro. A fotografar meninos rentabilizava mais porque os pais compram tudo e com os velhotes não é assim. As pessoas não investem nos velhos. Não há espaço para as molduras. E tenho pena por eles.”

Sandra Ventura não tem dúvidas em afirmar que é uma encantada pela fase da velhice. No entanto, Sandra Ventura faz questão de reforçar que não tem pressa em lá chegar, ao mesmo tempo que recorda os avós “espetaculares” que teve. Sente saudades e tem pena de não ter conseguido fotografar-se com eles como agora faz com os avós dos outros. Cresceu no seio de uma família onde era dada a importância que os idosos merecem. “Nenhum ia para o lar. Andavam de filho em filho porque os filhos faziam questão”, afirma.

Sandra admite que é verdadeiramente feliz quando está a fotografar os "velhilhos"

A fotógrafa de 41 anos revela que, provavelmente, o seu fascínio pelos velhinhos — como carinhosamente gosta de os tratar — tem origem em todas estas inspirações que foi recebendo ao longo da vida.

Mas Sandra nunca sonhou em ser fotógrafa. O primeiro contacto com o mundo da fotografia aconteceu aos 19 anos, numa altura em que o seu namorado na época tinha uma pequena empresa de vídeo em conjunto com um colega. Até então, nunca tinha tocado numa máquina fotográfica. “O colega dele deixou de querer fazer parte do negócio. Como eu era a namorada acabei por assumir aquilo também como o nosso negócio de família. E então comecei a fotografar em automática. Não percebia nada daquilo, mas comecei a fazer trabalhos.”

“Caracol do Conhecimento” foi pensado para estimular o raciocínio dos idosos

Apesar de não perceber muito do que estava a fazer, Sandra Ventura recorda que na altura já tinha “olho” para a fotografia. “Olhava para as coisas que ia fotografar e percebia qual era o ângulo que era o mais pertinente.” Mais tarde, viria mesmo a tirar um curso de fotografia e foi quando se apaixonou pela área. “Comecei a dominar a máquina, a perceber o que poderia fazer e não o que a máquina me permitia”. Já lá vão 15 anos.

“Agora tenho as duas coisas que é o gostar muito de tirar fotografias e gostar muito daquilo que fotografo que são os velhilhos. Também vou fotografar a escolas, por exemplo, mas onde me sinto realmente realizada é quando estou a fotografar pessoas mais velhas. Aí é que estou como um peixe na água. Sei o que estou a fazer e estou a fazê-lo com muita vontade e muito amor.”

Para Sandra trabalhar com idosos é diferente. É o agradecimento que lhe dão e os abraços que recebe quando termina. A fotógrafa sente que, apesar de estar lá para fazer uma sessão fotográfica, faz “muito mais do que isso”. Dá-lhes a atenção e o “tempo de antena” que precisam. Sai de lá muito mais completa do que quando entra. “É diferente quando vou fotografar crianças ou uma sessão no exterior. Gosto de o fazer, é verdade, mas aquela vontade de estar ali, sinto quando estou a fotografar os velhinhos.” É realmente feliz quando está a fotografá-los.

Sandra Ventura não tem dúvidas em afirmar que é encantada pela fase da velhice

Sandra Ventura

Mas antes de chegar onde está, Sandra trabalhou em muitas outras áreas. Em 2008 divorciou-se e acabou por ficar “meio perdida” porque não sabia o que fazer. Na altura, entendeu que não deveria continuar na área da fotografia, uma vez que não queria fazer concorrência ao ex-marido.

E assim foi. Quando saiu do estúdio esteve cerca de quatro anos a trabalhar como comercial, vendedora porta a porta e até teve um franchising de uma empresa de turismo. Durante este período esteve afastada da fotografia e só fotografava quando o ex-marido precisava de ajuda. “Nessas alturas, quando fotografava, sentia-me muito bem e percebi que era aquilo que queria fazer. Tinha saudades de fotografar e queria continuar a fazê-lo.”

A ideia de começar a fotografar idosos em lares e centros de dia partiu de uma conversa com a irmã que é assistente social e trabalha num lar. Sandra andava a pensar no que poderia fazer de diferente para não ser concorrência direta do ex-marido. “Então pensei em fotografar idosos em lares e, se não resultasse, ia fotografar recém-nascidos ao domicílio, algo que na loja dele também não se fazia.” Em 2013, comprou todo o equipamento que precisava e a fotografia sénior acabou por correr bem.

A fotógrafa considera que é “muito difícil” ser velho em Portugal

A fotógrafa faz questão de referir que, algo importante no trabalho que faz, é que não gosta de “apalhaçar” ninguém. “Gosto de lhes colocar adereços como colares e brincos, mas imaginando sempre que vão ao casamento de um neto. A ideia é mostrar-lhes [aos idosos] que ainda são muito bonitos e que ainda podem usar isso tudo como faziam antigamente.” E a auto-estima destes idosos, entende, é algo que deveria merecer um maior cuidado e atenção por parte dos lares e centros de dia.

Sandra marca apenas uma instituição por dia quer tenha dez, 20 ou 30 utentes para fotografar. É um trabalho que tem de ser realizado “com calma”. E é também com esta regra autoimposta que consegue ter tempo para ouvir as histórias de quem fotografa. Há de tudo — umas histórias mais tristes do que outras, umas mais marcantes do que outras.

A ideia de começar a fotografar idosos em lares e centros-de-dia partiu de uma conversa com a irmã que é assistente social e trabalha num lar

SANDRA VENTURA

Foi em Barrancos, no Alentejo, que conheceu uma mulher que nunca mais vai esquecer. A fotógrafa recorda que que a senhora, visivelmente muito triste, estava de luto. Toda vestida de preto, tinha um lenço preto na cabeça. Não queria tirar fotografias e Sandra pediu-lhe “com muito jeitinho” para que tirasse.

A senhora aceitou, mas com uma condição: só tirava se pudesse ter a fotografia do filho consigo. “Então ela tirou fotografias sempre a olhar para a fotografia do filho. Depois pedi-lhe se podia tirar o lenço só para tirar uma foto. Lá o tirou, a muito custo, e eu disse-lhe: ‘Você está tão bonita. Está mais leve. O seu filho ia preferir vê-la assim’. Ela acabou por ficar o dia todo sem o lenço. Eu estava a fotografá-la e as lágrimas escorriam-me pela cara, porque aquela senhora foi das enlutadas mais tristes que eu fotografei e não me saiu da cabeça.”

Disseram-lhe para meter a mulher num lar. Ele levou-a a viajar pelo mundo

Mas não são apenas histórias tristes que Sandra guarda na memória. Na verdade, são as histórias de amor que mais a encantam. A fotógrafa recorda a história de um casal de idosos — a senhora estava a arranjar-se e Sandra foi tirando fotografias ao marido que sofria de Alzheimer. “De repente ele diz-me: ‘Eu não posso estar aqui, porque a minha mulher não está aqui e eu tenho de estar com a minha mulher. E eu a explicar-lhe que ela estava ali e que já vinha. Ele estava completamente perdido e só queria estar com a mulher. Isto marcou-me, porque os anos passam e há coisas que ficam, como o amor, apesar do Alzheimer.”

Sandra Ventura nunca sonhou em ser fotógrafa. Pensava em ser professora primária

Sandra Ventura

Sandra estava a trabalhar em Castelo Branco quando recebeu um telefonema. Era a neta de uma idosa que estava a fotografar que lhe pediu se poderia esperar por ela. Ia do Montijo para Castelo Branco só para tirar uma fotografia com a avó. “Isto deu o sentido em eu continuar com este trabalho porque senti que estava a fazer bem a algumas pessoas. São recordações que estou a deixar a quem fica, porque sabemos que mais cedo ou mais tarde eles vão partir.”

A fotógrafa confessa que é “muito difícil” ser velho em Portugal e que tem pena de envelhecer neste País, considerando que muitos deles não têm as condições necessárias para viver dignamente. “Deviam ter uma animadora sociocultural e há muitos lares que não têm. Eu ia a várias instituições que não tinham e quando me viam, parecia que estavam a ver um extraterreste porque estão habituados a estar no cadeirão e a não fazer nada. E isto devia de mudar”, finaliza.

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