Histórias de mulheres apanhadas de surpresa. “Não estás com uma dor de barriga. Estás em trabalho de parto”

Ana Rita soube que estava grávida no dia em que deu à luz. Tânia descobriu aos oito meses de gestação. Conheça os seus testemunhos.

Ana Rita Macedo já era mãe de duas gémeas com 2 anos de idade quando descobriu que estava com uma gravidez a termo

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Há dois dias que Ana Rita Macedo andava a perder líquido amniótico. Mas para ela, aquilo era só um perda de urina. Estávamos a 26 de abril de 2018 e a mulher de 38 anos já era mãe de duas gémeas com 2 anos. A ex-empresária e agora doméstica de profissão recorda que naquele dia saiu de carro com uma amiga e as duas filhas quando começou a sentir uma dor muito forte. Decidiram seguir para o hospital.

Na triagem explicou o que sentia e foi encaminhada para uma ginecologista com pulseira não urgente. Todas as outras pessoas eram atendidas mais depressa do que ela. Ana Rita Macedo, natural do Porto, recorda-se de ter estado à espera cerca de três horas. “Quando fui chamada, a médica mandou-me deitar para fazer uma ecografia e disse-me ‘Você está grávida e bem grávida. O bebé já está grandinho e já não sai daqui sem ser com ele”, conta Ana Rita Macedo, à MAGG. “Fiquei em choque.”

“Ainda perguntei o sexo e o tempo de gestação. A médica respondeu que isso não era o mais importante. Não sei de quanto tempo estava, mas já era considerada uma bebé de termo por causa do peso dela e fiquei logo internada. Chorei muito. Não pretendia ter mais filhos e só pensava nas minhas bebés, como iriam estar sem mim.”

Sofri muito com a gravidez das gémeas. Vomitei a gravidez toda, tive a diabetes gestacional, tive tensão alta, pré-eclampsia. Desta última não sofri nada, ela nem se mexia”

Ana Rita Macedo não teve os sintomas típicos de uma gravidez. Sentia a barriga um pouco inchada — algo que acontecia com frequência — e que associou ao facto de não ter vesícula ou por estar a engordar, uma vez que estava com uma vida mais sedentária. Antes de ter sido mãe pela primeira vez tinha sofrido um aborto espontâneo e desde essa altura que a sua menstruação vinha apenas esporadicamente — uma vez de seis em seis meses ou de ano a ano.

A verdade é que uma gravidez pode perfeitamente estar a acontecer com uma total ausência dos sintomas considerados típicos e, por isso, uma gestação pode passar despercebida durante meses. Quem o diz é o ginecologista e obstetra Fernando Cirurgião. “Nem todas as mulheres têm de ter tensão mamária, náuseas ou alterações de humor. Depois, por vezes, quando alguns aparecem, podem ser associados a problemas intestinais, náuseas porque andam mal dispostas ou a tensão mamária que pode estar relacionada com o período menstrual.”

O facto de Ana Rita não ter sabido interpretar os sintomas, fez com que levasse uma gravidez até ao fim sem qualquer cuidado ou acompanhamento médico. Segundo Fernando Cirurgião, não existindo cuidados em termos de exames e análises, na alimentação ou de suplementos, podem surgir questões como o atraso do crescimento intrauterino, a prematuridade ou um maior risco de infeções, como as infeções urinárias que são as mais frequentes em grávidas. “Não fazer suplementos, por exemplo, aumenta a incidência de alterações do desenvolvimento do sistema nervoso como é o caso da espinha bífida [uma anomalia congénita do sistema nervoso].” Por isso, este tipo de gravidez acaba por acarretar essencialmente mais riscos para o feto do que propriamente para a mãe.

“Eu diria que o paradigma mais usual da mulher que tem uma gravidez que passa despercebida é o de uma mulher que apresente algum grau de obesidade e que possa ter outras alterações no padrão menstrual”, completa o obstetra.

Custou-me muito e chorei muito, pois sei que sou boa mãe, que fiz tudo pelas minhas filhas e que era incapaz de esconder uma gravidez como me chegaram a dizer. Era incapaz de fazer um aborto e também nunca esconderia uma gravidez, pois queria saber como era, como estava [a bebé].”

Antes de engravidar das gémeas, a ex-empresária realizou vários exames e os médicos chegaram-lhe a dizer que estava na menopausa precoce ou estéril. “Sofri muito com a gravidez das gémeas. Vomitei a gravidez toda, tive a diabetes gestacional, tive tensão alta, pré-eclampsia. Desta última não sofri nada, ela nem se mexia”, recorda.

Ana Rita é agora mãe de três meninas: Constança (à esquerda), Carolina e Carlota (à direita)

Ana Rita estava sem líquido amniótico e Carolina, hoje com um ano, acabou por nascer saudável no dia seguinte. “Um filho é uma bênção e arrependo-me de ter ficado mal quando soube, mas não estava à espera. Só pensava nas minhas filhas, em como iria conseguir cuidar de três bebés sozinha, pois sempre fui eu para tudo.

Pensava em como iria ser a reação do pai e da família e se viria um bebé saudável e perfeito.” Como ficou internada imediatamente e estava sem bateria no telemóvel, a tarefa de contar ao pai e à restante família ficou a cargo da amiga que a acompanhou ao hospital e que foi também quem ficou responsável por tratar das roupas para a bebé.

Ana Rita não sabia se seria menino ou menina, mas sabia que se fosse do sexo feminino que teria um nome começado por “C” como as duas manas. “Estava sozinha na sala de partos, estive sempre sozinha. A minha mãe queria vir, mas eu pedi-lhe para ficar com as meninas. Então mandei foto da bebé para o pai com a legenda ‘Sou a Cecília”. Ele ligou-me e disse que não gostava do nome, que gostava de Carolina, Clara e Camila. Desses, eu gostava mais de Carolina e ficou Carolina.”

Carolina nasceu depois de a mãe, Ana Rita Macedo, ter sentido uma dor muito forte

A mulher de 38 anos garante que teve de lidar com o julgamento das pessoas, principalmente da família do pai da criança. “Custou-me muito e chorei muito, pois sei que sou boa mãe, que fiz tudo pelas minhas filhas e que era incapaz de esconder uma gravidez como me chegaram a dizer. Era incapaz de fazer um aborto e também nunca esconderia uma gravidez, pois queria saber como era, como estava [a bebé].”

Ana Rita pede ainda para que as mulheres sejam mais solidárias no que diz respeito a estas questões, que não condenem e que não digam que esta história é impossível de acontecer. “Quero deixar um conselho às mulheres: não pensem ‘aquilo só acontece aos outros e não a mim’. Nunca se sabe o que nos espera”, finaliza.

“Olha querida, não estás com uma dor de barriga. Estás em trabalho de parto”

Em março de 2016, Helena Cotovio estava a jantar fora com o namorado quando sentiu umas “pontadas” na barriga. A operadora de caixa desvalorizou, pois pensava tratar-se de algum problema dos intestinos — há uns meses tinha estado no hospital por causa disso e não tinha acusado nada mais — e sentia-se bem.

No dia seguinte, a 13 de março, Helena foi trabalhar. Antes, esteve ainda a tomar o pequeno-almoço com a irmã e com o pai. De vez em quando sentia aquelas “pontadas”, mas passavam rapidamente e acabava por não dar importância. “Estive a trabalhar até às 16h30 até que as pontadas começaram a ficar um bocadinho mais fortes e fiquei com muito sono. Fui para casa e ainda dormi um bocado, mas acordei com uma pontada muito forte e com vontade de ir à casa de banho. Foi quando vi um pouco de sangue. Não achei aquilo normal e acabei por ir ao hospital”, começa por contar Helena Cotovio, de 27 anos, à MAGG.

A enfermeira diz-me ‘olha querida, não estás com uma dor de barriga. Estás em trabalho de parto e estás com 37 semanas.”

A jovem natural de Lisboa, mas a residir em Leiria, recorda que, quando chegou às urgências do hospital, foi questionada sobre a possibilidade de estar grávida à qual respondeu negativamente. Explicou que não tinha sintomas que pudessem indiciar uma gravidez e que até há bem pouco tempo tinha tido a menstruação e tinha tomado a pílula. Helena acabou por fazer uma ecografia que confirmava esse cenário e não só — estava a entrar em trabalho de parto.

A enfermeira diz-me ‘olha querida, não estás com uma dor de barriga. Estás em trabalho de parto e estás com 37 semanas’. Fui levada para a sala de parto. Fizeram-me o toque e já tinha a dilatação toda feita. Eu não tinha barriga de grávida, não tinha nada. As pessoas que estiveram comigo nesse dia até me disseram que eu andava mais magra.”

A ausência de sintomas e rara, mas pode ser explicada. O obstetra Fernando Cirurgião entende que há toda uma parte psicológica e emocional que “pode levar à negação da gravidez” e que deve ser tida em conta. Depois há aspetos fisiológicos que também podem interferir no reconhecimento de uma gravidez. O caso do biotipo físico da mulher é um deles. “A obesidade, por exemplo, pode levar a um reconhecimento da gravidez bastante mais tarde e muito próximo do parto.”

Por outro lado, o facto de uma mulher engravidar e de ainda se encontrar em amamentação é uma situação bastante comum porque altera o padrão menstrual. Há ainda os distúrbios hormonais como, por exemplo, os distúrbios associados às irregularidades menstruais. Neste caso, “a mulher vive com essas irregularidades que fazem com que a menstruação não seja tipicamente regular e que esteja, muitas vezes, ausente durante meses”. Deste modo, a mulher acaba por viver tranquilamente com esta situação. Um exemplo disto pode ser o síndrome do ovário poliquístico que, normalmente, surge na mulher jovem ou na adolescência. Este é um síndrome importante uma vez que afeta um grande número de mulheres em plena idade fértil – 6%.

Helena Cotovio tinha 23 anos. Tinha acabado de sair de casa mãe, estava a viver com o namorado num quarto e ambos trabalhavam a recibos verdes. “Na altura reagi mesmo muito mal. O chão ‘caiu-me’, não sabia o que havia de fazer, chorava muito. Eu só pensava: ‘isto não me pode estar a acontecer, não é possível, não quero isto’.” Helena admite que o mais difícil nesta situação foi que nunca quis ser mãe. “Então aquilo foi um balde de água fria.”

Depois do parto, a jovem informou que não queria ver a criança e que não queria ficar com ela. Reconhece que não estava bem psicologicamente. “Os primeiros três dias foram mesmo muito complicados. Só pensava que não ia conseguir cuidar de uma criança.”

Muitas pessoas disseram-me que eu escondi a gravidez ou que era impossível nunca ter notado que a minha filha estava a mexer, como se as pessoas soubessem melhor o que vai no meu corpo do que eu. E ainda hoje isto acontece quando conto a minha história e dizem que é impossível isso acontecer.”

Dar a criança para adoção estava nos planos de Helena, mas tinha de esperar pela opinião do namorado. Nessa noite não contou a ninguém e só no dia seguinte é que lhe telefonou para ir ter com ela ao hospital. “O Marcelo reagiu melhor do que eu e disse que apoiava tudo o que eu decidisse. Estivémos três dias a debater sobre o que fazer. Entretanto, ainda registámos a Irís. Eu não sabia que nome devíamos dar e foi o Marcelo que escolheu.”

A ideia da adoção começou a dissipar-se quando Helena Cotovio percebeu que não estava sozinha e que tinha o apoio incondicional e uma “rede de suporte” da família e do namorado para criar a filha. Foi então que recuaram com a adoção. “No dia seguinte a minha irmã já tinha carro, berço, as roupas, tudo. Com esta situação toda, o hospital perguntou-me se eu não queria lá ficar no fim de semana para me ensinarem algumas coisas como, por exemplo, a dar a mama, a dar o banho, essas coisas. Então eu optei por ficar e absorver o máximo que conseguisse.”

Tal como aconteceu com Ana Rita Macedo, Helena Cotovio também sentiu na pele o julgamento das pessoas. “Muitas pessoas disseram-me que eu escondi a gravidez ou que era impossível nunca ter notado que a minha filha estava a mexer, como se as pessoas soubessem melhor o que vai no meu corpo do que eu. E ainda hoje isto acontece quando conto a minha história e dizem que é impossível isso acontecer. Ou então porque temos de ser extremamente obesas para isso acontecer, o que não era o meu caso sequer”, conclui.

Estudava medicina e descobriu que estava grávida aos 8 meses

Tânia (nome fictício) tinha 23 anos e estava no quinto ano do curso de medicina. A agora médica em formação de especialidade em medicina interna, de 31 anos, recorda que teve umas perdas de sangue, mas como nunca teve um fluxo menstrual abundante e essas perdas coincidiam com o período menstrual, não deu importância. A mulher natural de Famalicão estava a tomar a pílula normalmente, tinha um elevado excesso de peso e, como tal, não existiu qualquer crescimento da barriga que fosse percetível. Lembra-se de um certo dia ter sentido uma “cólica horrível”, mas foi à casa de banho e passou.

O obstetra e ginecologista Fernando Cirurgião refere que, de facto, é possível uma mulher grávida não apresentar uma barriga típica de gravidez “se o biotipo da mulher facilitar para que isso aconteça”. “Por exemplo, uma mulher que seja bastante alta ou com algum grau de obesidade e que entretanto pode até ter um feto que, por meio dessa não vigilância, possa ser um feto pequeno e que está a crescer abaixo daquilo que seria o previsível. E, nestes casos, é perfeitamente possível que não hajam alterações na parte física da mulher.”

Foi a alteração do tamanho das mamas que a alertou para uma possível gravidez. Decidiu fazer o exame beta HCG sanguíneo — um método de diagnóstico de gravidez com uma exatidão mais elevada — que deu positivo e acabou por marcar uma consulta com o obstetra.

A situação pior foi o meu pai. Não sabia como havia de lhe dizer porque estava tudo fora daquilo que os pais idealizam para os filhos. Ele ficou em choque, principalmente quando soube que estava com uma gravidez a termo.”

“Nunca mais me esqueci das palavras que ouvi dele: ‘Compre tudo azul porque é um menino. A Tânia está a parir. Você está com 8 meses’. Naquele momento eu deixei de pensar. Só pensava no que iria fazer à minha vida. Estava a estudar medicina. Aquilo não fazia sentido, só acontecia nos filmes. Só pensava que não tinha nenhuma opção viável para resolver a questão”, relata Tânia, à MAGG.

A médica em formação tinha sensivelmente um mês para ter um filho nos braços. Na época, Tânia estava num relacionamento longo e o namorado estava presente na consulta. “Para ele estava tudo bem. No momento ele disse aquilo que eu precisava de ouvir, que estava tudo bem e que tudo se resolvia, mas depois foi algo que não se veio a verificar.”

Para Tânia, naquele momento o importante era, acima de tudo, saber como estava o bebé, uma vez que não tinha existido qualquer acompanhamento ou cuidado. “Para mim, o principal era realizar a ecografia morfológica, fazer as análises porque o resto era secundário. O importante era o estado de saúde dele. A partir do momento em que fiz a ecografia morfológica e que percebi que estava tudo dentro dos trâmites normais, tratei do resto.”

Havia ainda o momento de contar ao pais que estava prestes a ser mãe e que os planos que tinham feito para a vida da filha teriam de ser interrompidos. “O pior foi o meu pai. Não sabia como havia de lhe dizer porque estava tudo fora daquilo que os pais idealizam para os filhos. Ele ficou em choque, principalmente quando soube que estava com uma gravidez a termo. A minha mãe, apesar de ter ficado em pânico, foi muito mais fácil. Conversámos, disse que tudo se resolvia e que ajudava no que fosse preciso.” Tânia teve de deixar a faculdade e lidar com o afastamento e o julgamento das pessoas, que foi “doloroso” e que ainda hoje o é. “As pessoas julgaram-me demasiado.”

Fui-me abaixo emocionalmente de uma forma mesmo no fundo do poço, acho que mais fundo não foi possível ter estado.”

O parto teve algumas complicações. Tânia sofreu uma pré-eclâmpsia — uma complicação que se manifesta pelo aparecimento da pressão arterial alta — e de anemia, devido às elevadas perdas de sangue. O filho Diogo (nome fictício) esteve internado e também não amamentou. “A minha mãe ajudava-me, mas a partir do momento em que ela saía eu ficava sozinha. Ter o pai ou não ter em casa era igual.” A médica agradece a um colega de profissão e a uma enfermeira que era a quem ligava nos momentos mais difíceis para saber como deveria agir.

O pós-parto trouxe-lhe uma depressão. Sentia-se abalada psicologicamente, sozinha, sem amigos e com dificuldade em aceitar uma maternidade indesejada. “Fui-me abaixo emocionalmente, fui mesmo ao fundo do poço, acho que mais fundo não era possível ter estado.” Quando o Diogo nasceu, Tânia não o achou um bebé bonito. Admite que, inicialmente, não sentia nada pelo filho. Não sentia o amor de mãe que as pessoas garantem ser imediato. No seu caso demorou algum tempo a acontecer.

“O pós-parto não é nada giro, nem nada fantástico. Mas apesar de o Diogo não ter nascido da forma desejada e de não ser do modo ideal, fez-me abrir os olhos para muita coisa para tomar decisões que se calhar, se não fosse ele, não tinha tomado até hoje”, finaliza.

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