Quando, no final de abril, Greta Thunberg se dirigiu ao parlamento britânico, o seu discurso deu azo a aplausos e gritos de apoio. A mensagem era forte mas necessária e a jovem de apenas 16 anos não se cansava de a repetir. “Conseguem ouvir-me? O meu inglês é percetível? Às vezes tenho dúvidas”, foi a frase que mais arrancou risos nervosos dos deputados. Talvez porque servia como reprimenda.

“Sei que muitos de vós não nos quer ouvir porque dizem que somos apenas crianças. Muitos acham que estamos a perder tempo valioso de aulas, mas garanto-vos que voltaremos à escola assim que começarem a dar ouvidos à ciência e nos derem um futuro. É pedir muito?”, ouviu-se. Mas os risos e os aplausos deram lugar ao silêncio desconfortável e Greta ficou sem resposta.

Greta Thunberg ficou conhecida quando, em agosto de 2018, decidiu faltar diariamente às aulas para se sentar à porta do parlamento sueco. O objetivo era simples: dar a conhecer o seu descontentamento face à incapacidade do governo em dar resposta aos problemas climáticos.

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Desde então, tornou-se numa das ativistas mais influentes do mundo e até já discursou na Cimeira do Clima das Nações Unidas, onde não teve problemas em dizer que os líderes mundiais “não são maduros o suficiente para encarar o peso das alterações climáticas”.

Esta quinta-feira, 16 de maio, foi revelado que seria capa da revista “Time” onde explicou como o é que o seu ativismo começou.

Foi com apenas com 11 anos que, ao estudar o efeito das alterações climáticas no mundo, sofreu um episódio grave de depressão. Segundo conta, passou por altos e baixos até que essa sensação de fim inevitável e aterrador se voltou a acentuar na última primavera.

“Senti que nada valia a pena e que não fazia sentido sequer ir à escola porque não havia futuro. Mas desta vez prometi a mim mesma que iria fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para fazer a diferença”, explica. E foi assim que decidiu passar da tristeza e da inércia à ação.

Inspirada nos sobreviventes do tiroteio a uma escola na Florida, nos Estados Unidos, em 2018, organizou uma greve escolar e recorreu às redes sociais para implorar a políticos e governantes que tomassem medidas para reduzir a emissão de dióxido de carbono para a atmosfera.

E o seu apelo chegou a muita gente. Segundo escreve a revista “Time”, a conta de Twitter de Greta cresceu exponencialmente e soma já mais de 621 mil seguidores espalhados um pouco por todo o mundo. Na sua pequena biografia da rede social lê-se: “Ativista de 16 anos e com Asperger”.

E diz a jovem que a sua determinação teve origem no síndrome de Asperger, que lhe foi diagnosticado em meados de 2018. “Isto fez-me ver o mundo de maneira diferente. Vejo através das mentiras com mais facilidade”, continua.

Mas além do ativismo, é a sua abertura para falar de temas como a depressão, ansiedade e saúde mental que a fazem ser um exemplo a seguir para muitas pessoas. Para a jovem, ser diferente não é um problema, mas sim uma vantagem. Já que isso lhe permite “sobressair dos restantes”.

E mais do que tudo aquilo que já fez, Greta sobressai ainda na maneira como vive entre duas realidades completamente diferentes em conteúdo e forma. É que enquanto num dia está a estudar para um teste ou a fazer os trabalhos de casa exigidos pelos professores, no outro é capaz de redigir um discurso ou organizar uma nova greve.

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Toda a organização é feita pela jovem, que dispensa uma equipa de gestão de imagem e de comunicação com a imprensa. Mas tudo isso tem os seus efeitos negativos — além da falta de tempo. Svante Thunberg, pai de Greta, conta à “Time” que já não atende o telemóvel a números desconhecidos porque há sempre alguém a querer falar com a filha sobre este ou aquele assunto.

Em casa, o efeito Greta sente-se de forma positiva. Toda a família deixou de comer carne, adotou um estilo de vida mais sustentável e até instalaram painéis solares. Mas isso só aconteceu, segundo os pais, porque não conseguiram ganhar uma discussão com a filha, que consegue ser mais teimosa do que eles.

A mudança, porém, custou muito mais a Malena Thunberg [mãe de greta], que também deixou de viajar de avião por recomendação da filha.

Malena é cantora de ópera, o que a obrigava muitas vezes a voar para os vários países onde tinha de atuar. No entanto, Svante diz que foi fácil convencer a mulher “assim que ela se apercebeu das consequências do seu estilo de vida.”

As consequências de toda esta exposição e escrutínio público já tiveram impacto na vida de Greta. É que com todas as declarações que vai fazendo em público, é fácil esquecer que estamos perante uma jovem de apenas 16 anos que, por todo o seu ativismo, já foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz.

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E além das ameaças, e da habitual troça de que é alvo quem quer que decida estar presente na internet com uma mensagem política, há quem a acuse de ser uma marioneta “paga por milionários para passar uma mensagem liberal.”

Mas Greta diz chegar para todas as frentes: “É hilariante quando a única coisa que as pessoas conseguem fazer é gozar com a tua aparência a personalidade. Significa que não têm argumentos e, por isso, nada a dizer. Mas isso não vai impedir de fazer o que estou a fazer. Isto é muito mais importante”, diz.