Sara (nome fictício) tinha 19 anos quando uma manhã acordou sem saber o que se tinha passado na noite anterior. As cuecas ao contrário e as leggings rasgadas no meio das pernas davam a entender o pior. Pôs-se a jeito, pensou durante uma década. Dez anos depois, está decidida a enfrentar o que aconteceu e a aceitar que a culpa não foi sua. Leia o texto escrito na primeira pessoa para a MAGG.

Sempre que penso em mim na adolescência vejo-me com o vestido azul elétrico que usei naquela noite. Era novo, tinha acabado de o comprar com a mesada que a minha mãe me dava. Mas foi um investimento que durou pouco. Nunca mais o pude vestir. Nem quis. Tal como os leggings rasgados a meio, também eles vieram com a costura de lado desfeita.

Na manhã em que me deparei com este cenário, não me lembrava de nada. Era sábado e não sabia como é que tinha chegado a casa. Estava com uma ressaca gigante, mas ainda deitada na cama reparei que tinha as cuecas ao contrário. “Que merda é que foste fazer?”, pensei eu, com as lágrimas nos olhos. Tinha 19 anos e, antes disto, só me tinha deitado com uma pessoa. Era praticamente virgem e longe estava eu de perceber o que é que era, na realidade, a sexualidade.

Os sinais eram demasiado óbvios: cuecas do avesso, vestido estragado, leggings rasgados na zona da pubis. O corpo também acusava qualquer coisa diferente. Tinha estado com alguém. Liguei aos meus amigos à procura de uma resposta, mas o feedback do outro lado foi sempre o mesmo: “Estavas toda lixada. Fugiste, desapareceste.”

Infelizmente, a história que vos conto é do mais banal que há. Uma miúda que bebeu para lá daquilo que conseguia suportar, que apagou e acordou para perceber que tinha feito sexo com alguém que nem nome ou cara tinha. A história de uma miúda que durante dez anos achou que a culpa daquilo era exclusivamente sua, de uma miúda que, nem por um segundo, pôs a hipótese de a outra parte também ter responsabilidade sobre aquilo que tinha acontecido. Afinal, ele é um rapaz e toda a gente sabe que os rapazes gostam de fazer sexo. Não importa se é com a namorada ou com um zombie que está a deambular por Santos de vestido azul elétrico. Granda porca. Estava mesmo a pedi-las.

Mas eu não pedi nada.

Não me vou desresponsabilizar. Naquela noite eu estava toda lixada. Se me perguntassem o nome, é provável que eu não conseguisse responder. A última memória que tenho é de estar em casa de uma amiga a malhar numa garrafa de gin barato do Pingo Doce, com um qualquer jogo estúpido de adolescentes que nos fazia beber à velocidade da luz. Seguimos para Santos e a noite, na minha memória, acabou aí.

Só exatamente uma semana depois descobri o que é que tinha acontecido. Tive relações sexuais desprotegidas no meio de Santos — num beco, na rua — com uma pessoa que não conhecia, mas que conhecia um amigo meu, aquele que me acompanhou no desespero de não perceber nada do que estava a acontecer naquela manhã. Não engravidei. Não fiquei com nenhuma doença. Que sorte.

Curiosamente, cruzei-me com ele algumas vezes, mas fui incapaz de o encarar. Ele também nunca o fez. Demorei cinco anos a confrontá-lo. Já estava preparada para saber o que é que tinha acontecido, pensava eu. “Olá, não sei se te lembras de mim, mas queria mesmo falar contigo”, disse-lhe. “Há anos que te quero dizer isto: desculpa”, respondeu-me. Estava a ser sincero. Só que eu não percebi. “Desculpa porquê? A culpa foi toda minha”, pensei.

Ouvir aquela história foi como estar a levar murros no estômago. Ouvir o relato do estado de vulnerabilidade a que conseguimos chegar é agoniante. Descobri que, no final daquilo tudo, me tinha deixado numa paragem de autocarro às tantas da madrugada para ir para casa sozinha. Essa imagem atormenta-me.

Escrever este texto é das coisas mais difíceis que já fiz. Não é difícil porque tenho um trauma enorme, porque estou a recordar uma coisa má do passado ou porque não consigo lidar com isto — há histórias que guardamos numa das caixinhas do subconsciente, naquela das coisas que só são para ser recordadas quando a distância dos anos o permite. Hoje consigo, fiz as pazes comigo. É difícil sim, porque nesta tese do “pôr a jeito” há muito mais do que se lhe diga.

Eu sei que não devia ter bebido tanto. Se formos por aí, ok, eu pus-me a jeito. Naquele estado inconsciente muitas coisas más podem acontecer. Atravessei a estrada sem ver e levei com um carro em cima. Pus-me a jeito. Tropecei, bati com a cabeça e morri. Pus-me a jeito. Mandei mensagens ao meu chefe a dizer mal dele e fui despedida. Pus-me a jeito. Houve um rapaz que me viu e me levou para um beco para fazermos sexo. Pus-me a jeito? Não. Mas aqui a resposta não é fechada.

Não me posso desresponsabilizar. Se eu não tivesse bebido, aquilo não tinha acontecido. Portanto, sim, eu pus-me a jeito. Mas, ao contrário do que dizem as caixas de comentários desumanas das redes sociais, a culpa não é só minha. Eu tinha 19 anos, eu bebi mais do que devia, eu não conseguia pensar. Prefiro acreditar que não lhe disse que não, mas sei que provavelmente também não lhe disse que sim. Mas também não interessa. Ninguém é capaz de consentir o que quer que seja quando não tem capacidade para discernir. Agora eu percebo: aquele sexo não foi consentido.

Esta história rebolou para fora da caixinha das memórias há pouco tempo. Estava a falar com uma pessoa sobre questões de género, sobre misoginia, sobre abuso sexual. A certa altura, ela dá-me a entender que foi violada. “Aconteceu a quase todas as minhas amigas”, disse-me. Ao explicar o que aconteceu, o meu cérebro explodiu. Percebi que aquela história também era minha. Percebi que aquela história é de muitas outras mulheres. E percebi que a palavra violação é gigante.

O mundo está ao contrário. O meu estômago dá voltas com as coisas que leio. As pessoas estão cegas, não questionam, papam tudo o que anos de uma cultura misoginia lhes diz. A lenga lenga parece antiga, mas acreditem que este é um pensamento que ainda perdura: ela é puta porque bebeu e dormiu com ele, sem sequer o conhecer; ele é um valente que papa muitas. Parabéns. Manda vir outro caneco que há mais fauna por aí.

É mais criticada a pessoa que bebe, porque se pôs a jeito, do que aquele que se aproveita do estado débil do outro. Mas está tudo doido? Eu nunca vou aceitar isso. Por mim, pelos meus filhos, pelos meus netos, pelos meus bisnetos. Por todas as mulheres, por todos os homens. Por todas as gerações que vêm ai.

Durante dez anos eu achei que a culpa era minha e só minha. Mas hoje percebo que a culpa é de uma sociedade que se foi montando. Estamos todos encurralados. As mulheres na caixa da submissão. Os homens na caixa do machismo. Ele era um rapaz adolescente que cresceu a achar que ter relações com uma miúda a cair de bêbada era normal. E eu era uma miúda que achava que a culpa era só minha. Longe dos discursos de ódio e de um arremessar de acusações sem sentido, é nisto que temos de pensar. É disto que temos de nos libertar, todos.

Comovo-me quando olho para o meu eu adolescente de vestido azul elétrico. Era tão inseguro, tão profundamente frágil. Hoje aperto-lhe os braços e digo-lhe convictamente: “A culpa não é tua. Mas tem cuidado porque o mundo nem sempre é justo para as mulheres. Um dia vais lutar contra isso.”