É o primeiro encontro e está tudo a correr bem. A conversa flui naturalmente, ninguém entorna nada, o espaço é giro e a comida boa. Estão os dois arranjados, mas sem ser em excesso — não há nada pior do que exagerar na primeira saída —, ninguém está particularmente nervoso e não há nenhum erro de personalidade ou de educação a apontar.

Mas… não houve química. Não é possível dizer que correu alguma coisa mal, mas não houve um entusiasmo extremo na conversa, uma inclinação para tocar no outro, nem sequer uma mini borboleta a atravessar o estômago a alta velocidade. Correu bem. Mas não houve aquele clique. E agora? Vale a pena insistir num segundo encontro?

Em primeiro lugar, importa perceber o que é afinal isso da química. “Todos nós queremos viver uma linda história de amor. Fantasiamos encontrarmo-nos com o outro num olhar, sentirmos um frio na barriga (que poderiam facilmente ser borboletas) e uma atração avassaladora pela outra pessoa. Resumindo, apaixonarmo-nos perdidamente”, começa por explicar Manuela Silveira, terapeuta de casais, à MAGG.

É isso que idealizamos num primeiro encontro, essa química avassaladora. “Quando falamos de química numa relação, falamos de atração física, desejo, erotismo, falamos de paixão.”

E então? É isso que devemos sentir num primeiro encontro? No amor não existem regras, cada caso é um caso. Por isso mesmo, não existem respostas certas — e os próprios especialistas dividem-se.

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Quando a falta de química é uma opção

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“Estas situações, de casais sem química, acontecem em casos esporádicos, especialmente em pessoas cujo foco ou prioridade na sua vida está ligado com outras áreas que não seja a sentimental ou relacional, e valorize muito mais a carreira profissional, a vida social e o lazer individual”, explica Gustavo Pedrosa.

“Acontece frequentemente em pessoas com bastante maturidade emocional, mas também muito racionais ou com objetivos muito específicos a nível familiar, como por exemplo ter filhos até determinada idade, casar com alguém que lhe possa proporcionar um melhor nível de vida em termos financeiros ou estar com alguém que lhe proporcione companhia.”

“Nada impede de nos apaixonarmos ou de existir atração mais tarde”, começa por explicar Gustavo Pedrosa, psicólogo clínico na Oficina de Psicologia. “No entanto, diria que dificilmente isso acontece. Por norma a paixão ou a atração é a ‘cola’ do casal nos momentos de maior conflito ou de maior afastamento. Não existindo essa atração, é mais comum haver uma desistência mais fácil no momentos em que os valores familiares, os comportamentos, os rituais ou as personalidades se demonstram mais dispares.”

No entanto, explica Gustavo Pedrosa, é preciso avaliar quais são os objetivos, necessidades e expectativas, pessoais e individuais, de cada um. “Se esperamos amor, paixão, emoção e atração, tudo isso pode surgir mais tarde, mas em doses contidas. Se no momento em que estamos mais dispostos a criar uma relação, a construir um futuro com alguém e a sentir essas emoções e sentimentos (nos primeiros encontros) isso não ocorre, diria que dificilmente surgirão mais tarde. Isso não invalida que se criem outras formas de relação, de amar, de paixão ou de atração, menos arrebatadoras, mas igualmente duradouras e importantes.”

Então não é possível apaixonarmo-nos perdidamente por alguém se não sentimos química no primeiro encontro?

Eduardo Reis Torgal, o coach de “Casados à Primeira Vista“, tem uma opinião diferente. “Um primeiro encontro é sempre um momento que envolve alguma tensão de parte a parte. É um momento igualmente que envolve muita expectativa. Essas expectativas e ansiedades nem sempre são boas conselheiras no que toca a um bom primeiro encontro.”

Até porque, continua, não nos podemos esquecer que todos nós interpretamos papéis num primeiro encontro. Por mais que não queiramos admitir, não estamos completamente à vontade e queremos revelar a nossa melhor faceta. No meio de tanta perfeição, acabamos por não ser genuínos. “E isso pode afastar física e emocionalmente a outra pessoa e a possibilidade de um encontro especial ficar defraudado.”

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A terapeuta de casais Manuela Silveira é da mesma opinião. “Da minha experiência, no trabalho com centenas de casais, nem sempre as relações têm um início assim tão apaixonado e idealizado.”

As relações são imprevisíveis, explica. E a forma como começam também: “Desde casais que não gostaram nada um do outro quando se conheceram, passando por sentimentos de total indiferença pela outra pessoa num primeiro contacto e, terminando em amizades que se transformaram em relações amorosas, são várias as formas que tomam o início de uma relação”. Portanto, não podemos avaliar o futuro de uma relação baseados apenas na química (ou falta dela) num primeiro encontro.

É importante compreender o que nesta pessoa me impediu de ir mais longe. O que teria de ter acontecido diferente para que me sentisse mais envolvido ou envolvida com ela”

Bem pelo contrário: “Se estamos disponíveis e com vontade de construir um grande amor, e não apenas viver uma ardente paixão, aumentamos a nossa probabilidade de sucesso se investirmos num maior conhecimento do outro (os seus gostos, interesses, valores, projetos futuros, pontos em comum), dando para isso uma segunda (ou terceira) oportunidade à descoberta mútua.”

Eduardo Reis Torgal também realça a importância de conhecer o outro com mais profundidade. “É frequente pessoas que não se sentiram atraídas num primeiro encontro venham a descobrir mais tarde novas facetas do outro no decorrer de encontros seguintes.”

Ainda assim, é importante refletir sobre esse encontro. O coach de “Casados à Primeira Vista” pede-lhe que faça a seguinte pergunta a si mesma: o que impediu da minha parte para que não tenha feito o tal clique?

“É importante compreender o que nesta pessoa me impediu de ir mais longe. O que teria de ter acontecido diferente para que me sentisse mais envolvido ou envolvida com ela. Ao compreendermos isso ficamos também mais habilitados a lidar com próximos encontros.”

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Quando tiver essa resposta, e mesmo assim achar que a relação não vai ter qualquer hipótese de vingar, então é tempo de seguir em frente, “deixar aberta a vida para uma outra pessoa entrar e, da mesma forma, libertar a outra pessoa parta ir ao encontro à pessoa especial que irá apreciar os seus talentos e atributos.”

A química tem um fim?

Nas palavras de Manuela Silveira, a química está ligada à paixão. E essa última não pode durar para sempre. “Não pode porque, simplesmente, o nosso corpo não aguenta tanta injeção de dopamina (a hormona da paixão) de adrenalina, euforia, energia, intensidade, omnipotência, tendo que existir um prazo de validade para este estado de paixão (os investigadores apontam para cerca de dois anos).”

Então isso quer dizer que, quando acaba a paixão, acaba a química? “De todo. Quando amaina a paixão cria-se espaço para se saborear o amor, e com ele a química surge numa nova dimensão. Numa segunda fase da relação, a química, o desejo, a atração são alimentadas pelo respeito, admiração, cumplicidade e companheirismo, que se constroem na relação e não pela simples segregação de uma hormona.”