Porque não faço aquilo que precisava de fazer na minha vida?

A leitora lê livros de auto-ajuda e sabe exatamente o que deve fazer. Então porque é que não faz? A psicóloga Sara Ferreira explica.

A nossa capacidade de fazer certas mudanças é um pouco mais limitada do que imaginamos

Tegan Mierle/Unsplash

Os leitores perguntam, a psicóloga Sara Ferreira responde. É assim todas as semanas. Saúde, amor, sexo, carreira, filhos — seja qual for o tema, a nossa especialista sabe como ajudar. Para enviar as suas perguntas, procure-nos nos Stories do Instagram da MAGG.

Olá, cara leitora,

Quis esta semana que o tema escolhido fosse algo que, cada vez mais, parece bloquear (e intrigar) as pessoas e que se resume a um nome tão pomposo quanto bicudo, e que é? Procrastinar.

Assim, quando me pergunta “porque não faço aquilo que precisava fazer?”, relatando-me que lê livros de “auto-ajuda” com frequência, mas que mesmo assim é “tão difícil implementar a mudança”, a resposta invariavelmente terá de passar, uma e outra vez mais, por… si! Who else?

Hoje em dia é comum ver as pessoas dizerem que, por algum motivo, sentem uma enorme dificuldade em aplicar a “teoria” à “prática” (por exemplo, implementar as sugestões dos livros de auto-ajuda nas suas vidas), ou seja, como fazer realmente aquilo que eu “sei” que deveria?

Parabéns, você não está sozinha! Nisso não é muito diferente da maior parte das pessoas que se queixam do mesmo. E sabe que mais? Deixe lá, não tome esta questão pessoalmente, na verdade… nem é culpa sua! Como assim?! 

Por mais bem-intencionados que possam ser, muitos dos referidos livros de “auto-ajuda” em geral não o são… A ajuda, sim, é-o.

O que estes livros costumam fazer é apontar caminhos para que possamos mudar o nosso comportamento, atitudes, crenças e até mesmo pensamentos, de forma a, idealmente, trazerem as mudanças que desejamos nas nossas vidas. E, atenção! Ninguém pretende discutir se estas sugestões podem ou não ser benéficas, se as conseguíssemos implementar… Mas… é “apenas” este detalhe que faz (ou não) toda a diferença: o “se”.

Muitas vezes, a nossa capacidade de fazer certas mudanças é um pouco mais limitada do que imaginamos, não por causa de qualquer “deficiência” intrínseca, mas porque podemos estar presos a padrões inconscientes com os quais temos uma aliança bem mais forte do que supúnhamos.

Os livros de auto-ajuda podem orientar-nos a encontrar os caminhos que nos podem levar aos nossos objetivos desejados, mas muitas vezes eles não conseguem identificar e resolver o “pedaço do iceberg” sob a superfície em que repousa a nossa consciência (e esse “pedaço” sim, normalmente é que mais está comprometido e com resistência à mudança).

Este trabalho de “encontrar” estes icebergues ou “pontos cegos” que cada pessoa tem (e que são únicos, pessoais mas, em terapia, transmissíveis), ou o localizar destes pequenos-grandes pedaços submersos nas profundezas dos oceanos pessoais de cada qual, nessas circunstâncias, não nos é fornecido adequadamente, ou atendendo às especificidades de “cada caso”… logo, esta ligação não se estabelece, aliás, nem sequer chega a ser estabelecida. E entre uma coisa e outra é que estão, necessariamente, os (novos) resultados.

A leitora com certeza concordará: quem já não deu por si a fazer uma e outra vez as mesmas resoluções, ano após ano, sem efetivamente conseguir mais do que apenas engrossar a estatística daqueles que traçam muitos objetivos de “mudança” mas pouco alcançam?

Pois a pergunta que lhe coloco hoje é esta: quer “mudança” sem “mudar”? Ou, pelo contrário, está a munir-se de recursos para ser mais eficaz?

Quando não conseguimos (porque não podemos/sabemos) fazer o que achamos que precisaríamos ou “deveríamos” fazer, é fácil ficarmos com um sentimento de inadequação, fracasso pessoal, ou deceção.

Muitos livros vêm lembrar-nos que nós só precisamos “deixar-de-lado-o-nosso-medo” ou “largar-o-nosso-ressentimento”, “praticar-o-perdão-para-com-os-nossos-parceiros” ou “ser-mais-honesto-connosco-mesmos”, etc., etc., etc.. Como referi anteriormente, certamente que são bem-intencionados e verdadeiros estes conselhos, porém tão verdade como isso é que (como a prezada leitora, assim como a maioria de nós provavelmente já descobriu) geralmente são bem mais fáceis de “dizer” do que de “fazer”, é ou não verdade?

Então, como dissolver este equívoco universal??

Parte do problema é que por detrás de toda a intenção existe uma intenção contrária (geralmente inconsciente), que tenta ‘medir forças’ ou competir com o compromisso oposto. Chamemos-lhe uma “intenção sombra”, para simplificar. Por exemplo, por detrás da intenção de nos tornamos uma pessoa “mais aberta” existe uma outra intenção, a de se “fechar” ou proteger mais. Por detrás da intenção de levantar-se e “falar a sua verdade”, pode haver uma intenção de evitar a desaprovação. A nossa incapacidade de observar e analisar adequadamente as forças de ‘resistência’ dos nossos “compromissos sombra” podem, muitas vezes, deixar-nos com raiva de nós mesmos por “não fazer o que eu sei que eu deveria fazer.” Esta sensação é-lhe familiar?

“Mas, e então, Psicóloga Sara, o que fazer!!?” – Dir-me-á.

Primeiramente comece por notar que (sim, “sombriamente”) por incrível que pareça à primeira vista, até a auto-condenação é mais uma forma engendrada pelas profundezas do “ego” para manter tudo aparentemente como está. Para que não abandone o ciclo ensimesmado da “mesmice” crónica e possa enfim libertar-se de tudo o que o amarra, para enfim passar à ação. Isto é, a auto-condenação é-lhe particularmente inútil quando se trata der fazer mudanças na vida, pois na sua grande maioria, a mudança requer esforço, exige paciência, perseverança e uma prática bem capaz nas artes da auto-compaixão e do amor-próprio, compreensão e apoio.

Reconhecer os aspetos “sombrios” de nós mesmos (as partes que a vida inteira tem negado, renegado, ou tentado esconder de outros) é um passo poderoso para se tornar numa pessoa mais auto-confiante e auto-aceitante. E se imaginar que isto são ingredientes fundamentais em qualquer relacionamento com os “outros”, é capaz de conceber também a importância que isto tem na sua relação consigo mesma… não é verdade?

Mas há mais. É que, não obstante, o desejo de lançarmos “luz” sobre a nossa própria “sombra” tem também a sua “sombra” (!), que é qual?! O próprio fito ou “compromisso” inconsciente de continuar a esconder o que consideramos serem os aspetos menos atrativos da nossa personalidade, a fim de promover uma impressão mais favorável nos outros. A intenção “sombra” de continuarmos a fazer o que sempre fizemos e evitarmos assim os riscos potencialmente perturbadores das mudanças de vida…

As boas notícias são que não tem que se livrar da sua sombra! É verdade! Não precisa. Uma vez que, sozinha, é tecnicamente impossível realizar um levantamento/reconhecimento da sua “sombralogia” (!!), a melhor coisa que tem a fazer é tentar identificar, aceitar e até mesmo apreciar os seus dons. E ao fazê-lo, transformar a sua perceção adversária. Mais uma vez – lá está –, é mais fácil dizer do que fazer, mas é total e completamente factível, exequível, praticável! Com o apoio adequado. Com ajuda qualificada. E vale a pena o esforço.

Neutralizar os aspetos “resistentes” da sombra, sem eliminá-los, contudo, requer uma vontade explícita de iluminar o que foi escondido na escuridão, para reconhecer os anexos subjacentes, desejos e medos que mantêm a sombra no lugar. Ao fazer isso, a nossa relação com os aspetos ocultos de nós mesmos muda e deixamos a fase da negação para evoluir uma aceitação, deixando o medo (que esconde) para a segurança (que revela).

Mudar o nosso relacionamento com as diversas partes de nós mesmos é o primeiro e mais importante passo para transformar a qualidade da nossa ação no mundo, na nossa própria ação sobre nós mesmos e nos nossos relacionamentos. E muitos de nós bem o saberão (por experiência) que é impossível mudar a forma como você se sente em relação aos outros até que você mude a sua experiência que tem de si mesmo.

Todos os trabalhos (psicoterapêuticos, por excelência) que convoquem o aspeto “sombra” são essencialmente vias ou processos de cultivar o amor-próprio e a auto-aceitação. E não, não se trata de (necessariamente) procurar “destruir” algo mas antes, pelo contrário, é um procurar “construir” ou um criar algo; se preferir, um “fazer amizade” com o que antes não existia. Muitas vezes, até nem temos forçosamente que fazer nada de diferente. É mais uma questão de nos vermos a nós mesmos através de novas ‘lentes’, ao invés de tentarmos continuada e infortunadamente a tentar ser a pessoa que pensamos que “deveríamos ser” porque é o que vem escrito nos livros.

Então, porque é tão difícil fazermos aquilo que (sabemos que) precisávamos fazer?

Porque este é um trabalho que não é para os fracos de espírito! Ele exige um forte desejo de relacionamento mais autêntico, uma vontade de sermos brutalmente honestos connosco mesmos, e uma fome de profunda e significativa conexão com a mudança, com a vida e com os outros. As exigências são altas, mas os benefícios enormes.

Quando não temos mais medo de nos ‘enfrentar’ ou sermos claramente vistos pelos outros, podemos finalmente ser livres. E esta liberdade significa não ser mais um escravo da necessidade de aceitação externa ou da aprovação dos outros, mas sim viver com integridade e de coração aberto. E como em tudo, este é um caminho construído através da formação de novos hábitos. Na necessidade de criar novos padrões de pensamento, novas realidades emocionais. Novas tarefas, rotinas, compromissos, prioridades e perceções. Uma vez que você os inicia, os velhos padrões defensivos gradualmente perdem o seu apelo e aderência.

E lembre-se, pessoa querida, a doçura de um coração aberto e a resistência de uma mente disposta são muito convincentes. E assim que o “génio da lâmpada” sai fora da garrafa, você não mais poderá colocá-lo de volta. Mas aqui para nós, porque iria querer? 🙂

Até para a semana!

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