Sábado, 26 de abril de 1986. São 1h23 quando, na sequência de um teste, o quarto reator da central nuclear de Chernobyl sofre uma explosão de vapor. Dá-se início a um incêndio, com uma série de explosões adicionais, e a um derretimento nuclear. O caos está instalado, mas apenas numa parte da central. Apesar das chamas, ainda há quem acredite que o acidente não é grave.

Era grave. Na verdade, era tão grave que ficou na História como um dos piores acidentes nucleares de sempre. Até porque uma série de decisões erradas só fez piorar a situação: os habitantes da cidade de Pripyat só foram evacuados 24 horas depois, a União Soviética levou dois dias a admitir o que tinha acontecido — e porque a radiação foi sentida na Suécia, a mais de mil quilómetros de Chernobyl.

De acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas, divulgado em 2005, 56 pessoas morreram devido a este desastre e entre quatro a 50 mil morreram mais tarde de cancro ou com doenças relacionadas com a radiação. Já Pripyat foi considerado inabitável durante pelo menos três mil anos.

O dramático incidente de Chernobyl inspirou a nova série da HBO, que chegou à plataforma de streaming esta terça-feira, 7 de maio. O primeiro episódio recorda, em jeito documental, a noite do desastre, e apresenta-nos algumas das personagens que vão ser fundamentais na história.

Como seria expectável, a minissérie “Chernobyl” tem personagens inspiradas em pessoas reais. Outras nem por isso — são antes uma compilação de várias pessoas. Curiosamente, porém, nenhum dos atores é da região — nem pretende fingir que é. “Tivemos uma longa discussão sobre os sotaques russo”, contou Emily Watson, que interpreta a cientista Ulana Khomyuk, numa conferência de imprensa em Nova Iorque. “Eu acho que isso teria sido ridículo”.

Conheça a história verdadeira por detrás das principais personagens da série.

Ulana Khomyuk (Emily Watson)

Liam Daniel

Na série, Ulana é uma cientista nuclear da Bielorrússia. Ela deteta poeira radioativa no ar e apercebe-se de que aconteceu alguma coisa em Chernobyl. Por isso mesmo, viaja até ao local para investigar o sucedido.

Ulana Khomyuk não é inspirada numa pessoa real, mas sim em vários homens e mulheres que procuraram uma resposta para o desastre na central nuclear.

HBO. A série sobre o desastre de Chernobyl e 4 outras novidades de maio

Valery Legasov (Jared Harris)

Legasov é um químico soviético que foi enviado para investigar o que realmente aconteceu em Chernobyl.

E sim, é inspirado numa pessoa real. O químico comandava a comissão que investigava o caso, e é relembrado pela sua dedicação em descobrir o que realmente aconteceu — mesmo quando havia quem tentasse encobrir os responsáveis com mentiras e subornos. Tendo sido exposto à radiação no local, suicidou-se aos 51 anos.

Boris Shcherbina (Stellan Skarsgard)

Na série “Chernobyl”, Boris mantém-se cético em relação ao real impacto do desastre. Valery Legasov tenta convencê-lo de que o perigo é real e não vai desaparecer.

Boris Shcherbina era o vice-presidente do Conselho de Ministros e chefe do Departamento de Combustível e Energia da URSS. Na manhã do acidente, foi chamado a Prypiat. Quando chegou, 18 horas depois do desastre, estava tudo um caos — nenhum funcionário tinha lidado com as consequências do acidente. Shcherbina ficou encarregue de delinear os “próximos passos”.

Anatoly Dyatlov (Paul Ritter)

Dyatlov era o supervisor da central nuclear de Chernobyl e estava presente quando o desastre aconteceu. Na realidade, foi ele quem ordenou o testo no reator quatro, que levou ao acidente.

É inspirado numa pessoa verídica. Anatoly Dyatlov trabalhava nas instalações desde o início da sua carreira e já tinha sofrido um acidente nuclear antes de Chernobyl. Na sequência dos seus atos, Dyatlov foi preso. Ainda assim, nunca se considerou culpado — em entrevista ao “The New York Times“, o homem disse que os verdadeiros responsáveis eram o “sistema administrativo vago e descoordenado da autoridade de energia nuclear soviética” e o próprio reator defeituoso.

Lyudmilla Ignatenko (Jessie Buckley)

Lyudmilla é a mulher de um bombeiro, Vasily, que se deslocou ao local assim que o alerta de incêndio foi dado.

A personagem inspira-se numa pessoa real. Ignatenko recordou as suas trágicas experiências em Chernobyl no livro “Vozes de Chernobyl“, de Svetlana Alexievich, Nobel da Literatura. Foi catastrófico aquilo que aconteceu: sem qualquer preparação e nenhum conhecimento real do que estava de facto a acontecer, os primeiros bombeiros sofreram muito rapidamente com a radiação. Contra as ordens do hospital, Lyudmilla ficou sempre ao lado do marido. Hoje sofre vários problemas de saúde derivados do desastre.

Vasily Ignatenko (Adam Nagaitis)

O bombeiro casado com Lyudmilla tornou-se num símbolo daquilo que os primeiros homens a prestar auxílio sofreram. Foi chocante a forma como a sua saúde se degradou tão rapidamente. Aos 25 anos, morreu vítima da radiação.

Ao todo, mais de 600 mil pessoas foram enviadas para limpar Chernobyl. Foram todos expostos a doses extremas de radiação, encurtando significativamente a sua expectativa de vida. Mais de quatro mil morreram de cancro e 70 mil ficaram incapacitados.