18 de fevereiro de 2018. London Eisenbeis mal conseguia acreditar. Depois de dois anos a implorar aos pais que a deixassem ir ao Zehnder’s Splash Village, um dos parques aquáticos mais impressionantes de Michigan, nos Estados Unidos, o sonho ia tornar-se finalmente realidade. Estava ali, no parque, rodeada por água e diversões.

O seu principal objetivo era descer no escorrega aquático Super Loop Speed Slide, que tinha mais de 83 metros de comprimento, uma altura equivalente a um edifício de quatro andares e um loop de 360 graus.

Apenas 45 minutos antes de entrar na diversão, London filmou-se com a irmã mais velha, Eden.

Menos de uma hora depois, a criança estava posicionada dentro da espécie de cápsula lilás onde começa a diversão.

“London olhou para o pai, mostrou os dois polegares para cima e sorriu”, contou Tina Eisenbeis, 44 anos, ao jornal “The Sun”, num artigo publicado esta terça-feira, 30 de abril. Mas o inesperado aconteceu. Alguns momentos depois, a mãe da menina ouviu uns apitos que a deixaram preocupada.

London adorava animais

“Ouvi um apito e pensei que seriam apenas algumas crianças a brincar. Passado uns minutos comecei ver mulheres com um ar apavorado”, revelou. Preocupada com o que podia ser, Tina deslocou-se ao local e encontrou o marido.

“Jerry estava a olhar para baixo e havia uns lençóis. Eu soube logo que era um dos meus filhos. Foi uma coisa horrível”, relembrou.

Zehnder's Splash Village, o parque aquático onde aconteceu a tragédia

London Eisenbeis, de apenas 10 anos, entrou em paragem cardíaca e foi levada de helicóptero para o hospital infantil da Universidade de Michigan. Esteve ligada às máquinas e, devido aos danos cerebrais que sofreu pela falta de oxigénio, acabou por morrer nove dias depois, a 27 de fevereiro.

O caso remonta ao ano passado. Agora, os pais da menina criaram a fundação London Strong que distribui desfibrilhadores na comunidade local

London foi enterrada no dia em que ia dançar na escola com o pai. Levou o vestido que tinha escolhido para o evento, apenas umas semanas antes. Foi sem sapatos, “tal como um anjo”.

Aparentemente, London era uma menina perfeitamente saudável. Praticava ginástica, comia de forma saudável, tinha o peso certo para a sua idade e altura. Só após o internamento é que os pais descobriram a verdade: a criança sofria do Síndrome de QT Longo, um problema que altera os ritmos cardíacos.

London sofria do Síndrome de QT Longo

Não foi a adrenalina que a matou. Se London fosse de facto saudável, não teria morrido fruto da excitação. “O Síndrome de QT Longo é um problema da parte elétrica do coração”, explica à MAGG Francisco Morgado, cardiologista no Hospital Lusíadas de Lisboa. “Os problemas da parte elétrica do coração, em determinadas circunstâncias, e neste caso específico, podem ser espoletadas pela excitação”.

Portanto, a adrenalina de andar no Super Loop Speed Slide não foi a causa da morte súbita da criança — tornou-a, sim, suscetível a “uma desorganização da parte elétrica do coração, que nós chamamos fibrilação ventricular.”

A fibrilação ventricular, explica o cardiologista, é a maior causa de morte súbita. “Normalmente, quando se morre de morte súbita, a pessoa diz que houve uma paragem cardíaca. Na verdade, não foi o coração que parou em termos mecânicos. Na grande maioria dos casos, o que acontece é que o coração bate tão depressa que é como se estivesse parado”.

Se o coração bater demasiado rápido — por exemplo, 300 batimentos por minuto [o normal é de 60 a 100] —, não tem tempo nem para encher, nem para esvaziar. O coração não está a bombear. Para todos os efeitos, é como se fosse uma paragem cardíaca.

É possível que a doença tenha sido diagnosticada através de um electrocardiograma, explica o médico, ou porque analisaram o historial médico da família — o Síndrome do QT Longo é genético. “Às vezes não é assim tão óbvio, mas na maioria dos casos um simples electrocardiograma mostra essa alteração.”

Mesmo que não seja visível num electrocardiograma, é muito raro a primeira manifestação da doença ser a morte súbita. Regra geral, o síndrome é detetado devido ao facto de o doente ter desmaios. “Há pessoas que desmaiam quando ouvem tocar um telemóvel”. O ruído pode desencadear o desmaio em alguns pacientes, noutros até pode ser o contacto com a água.

London Strong é a associação que quer ajudar a comunidade

Os pais de London criaram a fundação London Strong que distribui desfibrilhadores na comunidade local para consciencializar as pessoas. “As pessoas têm que responder, não têm tempo para esperar. Os desfibrilhadores são elementos necessários para retomar o ritmo cardíaco”, afirmou Tina Eisenbeis.

A fundação também contribui para ajudar a recolher animais abandonados, em tributo à paixão de London por animais.