Näz. A marca de roupa que mostra quem lhe faz a roupa

Cristiana Costa criou uma marca de roupa de comércio justo que aproveita restos de tecidos e mostra as caras e os nomes de quem costura.

Uma grande percentagem da produção é feita com excedentes de fábricas portuguesas

Tem 24 anos mas não lhe faltam certezas. Sabe que não quer ser mais uma na indústria da moda e que, ainda que natural de Sintra, é na pacatez da Serra da Estrela que se vê a trabalhar. “O único problema é o verão muito quente. Mas nessa altura vimos trabalhar mais cedo, fazemos uma pausa à tarde para ir ao rio e voltamos ao trabalho ao fim da tarde. Com isto, quem é que quer voltar ao trânsito da Segunda Circular?”, explica Cristiana Costa.

Covilhã foi a cidade escolhida para o curso de Design de Moda, mas rapidamente deixou de ser apenas a cidade universitária que a iria acolher por três anos. Ainda durante o curso, percebeu que queria pôr aquela gente a mexer e envolver a comunidade numa marca que criou para marcar a diferença. “A parte social da produção sempre foi muito importante para mim e, por isso, quando idealizei a Näz, sabia que, além do design, a marca tinha que ser sustentável a todos os níveis”, explica. E esses níveis vão desde o custo justo dos produtos à preocupação em dar trabalho a indústrias mais pequenas.

Aquilo que começou por ser um projeto de curso, acabou por ser uma das primeiras marcas de roupa sustentáveis a lançar-se no mercado português, em 2017, e agora, além de ter acabado de lançar também uma linha masculina, apresenta um site onde, além de fazer compras, o cliente pode ficar a saber ao pormenor tudo o que aconteceu com a peça de roupa que escolhe pôr no carrinho de compras virtual.

Fizemos o teste. Ao clicar no vestido azul de costas cruzadas, sabemos que além de ser uma peça feita sem recurso a produtos de origem animal, foi costurada em Barcelos, palavra que vem a negrito a pedir novo clique. Na fábrica minhota que têm com parceira, trabalham sete mulheres “que são uns doces”, escrevem na descrição. Há pormenores, fotografias e vídeos sobre as colaboradoras, que fazem 150 peças por dia.

Uma grande percentagem da produção é feita com excedentes de fábricas portuguesas e quando isso não é possível produzem os tecidos e as malhas em fibras orgânicas, com empresas certificadas.

“Acreditamos que a transparência total pode causar uma certa vulnerabilidade, no entanto acreditamos também que este modelo transparente e colaborativo nos faz mais fortes, sendo o nosso maior objetivo como marca a educação e informação do consumidor”, explica Cristiana. É por isso que decidiu ir mais além e mostrar aquilo que poucos mostram, numa espécie de esquema em que usam o exemplo de um macacão curto para mulher que custa 65,40€.

Para chegar a este valor é só fazer contas: 1,76€ pelo design, 8,30€ pelo tecido, 8,61€ de mão de obra, 1,05€ de aviamentos, 0,17€ pelo transporte, num total de 19,89€. A este valor acrescem os impostos, o marketing digital, o apoio ao cliente, o envio (caso seja online), a renda (caso seja em loja). No final, a conta bate sempre certo e os 65,40€ ficam assim justificados.

A ideia de comércio justo é essencial na produção da marca e Cristiana lembra a importância de dar valor e cara a quem está nas fábricas. “A exploração laboral não está só do outro lado do mundo”, avisa.

Os valores sociais em causa notam-se até na escolha do nome. “Näz, em urdo, significa ter orgulho em saber que somos amados. Encontrei este termo quando procurei por palavras que não tivessem tradução noutras línguas, como a nossa saudade”, refere Cristiana.

As peças estão à venda no site, mas também em vinte lojas, tanto em Portugal, como no resto da Europa e até no Japão.

Fique a conhecer algumas das peças da nova coleção.

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