Estamos cada vez mais viciados em documentários sobre crimes reais?

Diz quem sabe que nunca deixámos de o estar, só que agora esse interesse é mais evidente. Uma psicóloga forense e um advogado explicam.

O último documentário da Netflix é sobre o desaparecimento de Maddie, em 2007

Getty Images

Ted Bundy era um homem charmoso, carismático e aparentemente inofensivo. Talvez por isso a revelação de que violou e assassinou mais de 30 mulheres entre 1974 e 1978, nos Estados Unidos, tenha chocado o mundo. Cerca de 41 anos depois, a sua história voltou a ser contada, e desta vez para um público mais abrangente, através de um documentário da Netflix. Mas não foi o único.

Antes disso, já a plataforma de streaming tinha lançado a história de uma conspiração complexa e cuidadosamente planeada que levou Brian Wells a assaltar um banco com uma espingarda improvisada e uma bomba presa ao pescoço, em 2003.

Três minutos depois de reportado o assalto e da chegada da Brigada Anti Bomba, o explosivo foi detonado e Wells morreu instantaneamente e em direto — já que eram vários os canais de televisão norte-americanos que se encontravam no terreno a cobrir o insólito.

Uma breve pesquisa pelo catálogo da Netflix revela que há um mercado cada vez mais interessado em histórias de crime reais, dos mais sangrentos aos mais macabros.

“The Keepers”, sobre o assassinato por resolver de uma freira, é um deles. Assim como “Making A Murderer”, sobre um homem que ainda hoje se diz preso injustamente. Já o mais recente é sobre o desaparecimento de Madeleine McCann da Praia da Luz, no Algarve, em 2007.

À primeira vista, pode parecer fácil afirmar que estamos cada vez mais interessados em histórias reais, mas diz quem percebe do assunto que não é assim tão simples. É que, na verdade, nunca deixámos de o estar.

Numa entrevista à MAGG, o jornalista e psicólogo forense Hernâni Carvalho revelou que, desde 1900, já os jornais da época enchiam capas com crimes porque as pessoas tinham interesse em acompanhar as investigações, os desenvolvimentos e os desfechos. “Que ideia é essa de que o crime está na moda? A realidade, sim, está na moda”, defendeu.

Maria Cunha Louro, psicóloga forense, é da mesma opinião e diz que embora sempre tenha existido esse interesse em histórias reais, macabras e violentas, este fascínio está hoje “mais exposto pelos meios de comunicação e pelas redes sociais.”

“Há um maior acesso a este tipo de informação, desde notícias a programas designados de crónicas criminais. Mas sempre houve um fascínio pelo mundo criminal e exemplo disso são os filmes intemporais como ‘Voando Sobre Um Ninho de Cucos’ ou ‘O Silêncio dos Inocentes’“, explica.

A explicação para este fascínio ou interesse pode estar no facto de existir, desde sempre, uma curiosidade quanto ao que motiva comportamentos e gera reações. Segundo a psicóloga, “as pessoas querem que o mundo faça sentido e que do caos se restabeleça uma suposta normalidade.”

Já Paulo Pereira, advogado e doutorado em Ciências Sociais, fala numa “bisbilhotice tipicamente portuguesa” que, apesar de sempre ter existido, pode estar ainda mais evidente devido às abordagens feitas pelos meios de comunicação.

“Essa propensão de nos virarmos para as histórias de crime já existe há muito tempo. Talvez se tenha acentuado porque as televisões alimentam esse gosto através do sensacionalismo e estimulam o interesse do público por casos reais, e isso é evidente pelo sucesso de reality shows”, esclarece.

Na opinião da psicóloga forense, o ser humano procura reconciliar-se com o crime tentando compreendê-lo. É importante tentar encontrar uma explicação que procure tornar a incerteza na certeza da segurança.

E é nesse exercício mental que procuramos estabelecer uma sociedade dividida entre nós e os outros. “Assiste-se a uma necessidade de caracterizar os criminosos como marginais que representam um perigo às normas estabelecidas e compartilhadas pela maioria dos normais”, continua.

Mas embora defenda que, de um modo geral, as pessoas não gostam da desgraça alheia, também é verdade que a nossa relação com estas histórias é em tudo semelhante à sensação de não conseguir deixar de olhar para o acidente por que passamos na estrada.

A explicação, segundo Maria Cunha Louro, está na compreensão de duas respostas emocionais que damos sem nos darmos conta: o da curiosidade e o da insegurança.

Maria Cunha Louro é psicóloga forense e defende que o fascínio por histórias de crime reais sempre existiu

Fotografia cedida por Maria Cunha Louro

“A curiosidade do que aconteceu, como aconteceu e a quem aconteceu é uma resposta à interação com os demais que resulta da empatia com os outros”. A curiosidade mórbida faz também parte desta categoria que, embora não saibamos no momento, nos ajuda a lidar com a noção que temos da nossa fragilidade e mortalidade.

Mas a divulgação de um crime insólito, seja por via da notícia ou de um documentário, é também um teste às noções de segurança ou insegurança. Segundo explica, “cumpre a função social de arranjarmos mecanismos que nos leve a evitar que a mesma coisa aconteça no futuro com os outros.

Embora existam várias teorias que ditem que o fascínio por estas histórias decorre do conforto de não sermos nós no lugar das vítimas, esta é uma explicação que não satisfaz o advogado Paulo Pereira.

“Quando vejo estas histórias, o meu interesse passa por tentar perceber como é que o crime foi praticado e como é que idealizaram aquilo. Não as vejo para me sentir confortável por não estar na pele da vítima ou do agressor, mas sim porque gosto de saber como é que a polícia chegou à resolução do crime”, explica.

Para a psicóloga, esta é uma teoria que faz sentido se se tiver em consideração o risco percebido que resulta de uma avaliação cognitiva da realidade. É que quando alguém vê um destes documentários de crime, o risco de vitimização é nulo e pode conduzir a um “sentimento de confortabilidade e segurança”.

Será normal esta atração pelo macabro e o insólito?

A história e a psicologia dizem-nos que sim. É que embora o crime seja um comportamento fraturante e de desvio à norma, a verdade é que faz parte da sociedade. “Onde for ou qual seja a norma estabelecida, haverá sempre alguém para a transgredir”, diz Maria Cunha Louro.

Mas vai mais longe: “A atração pelo crime ajuda a diferenciar o ser humano ‘bom’ do criminoso, mas também evidencia a complexidade da natureza humana”, já que este é um interesse que tem que ver com o poder das coisas que têm tanto de assustadoras como de incompreensíveis.

“É uma atração que se edifica na racionalidade das emoções. O ser humano sente prazer na violência, mas existe um limite entre o normal e o patológico”, explica.

Mas quem o traça e quão ténue é esse limite? Para a psicóloga, a distinção está “na gravidade dos comportamentos, na durabilidade, na frequência e no aparecimento dos mesmos em mais do que um contexto”, conclui.

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