António Rolo Duarte, 23 anos, filho do jornalista Pedro Rolo Duarte, esteve esta segunda-feira, 22 de abril, no programa “Prós e Contras” da RTP. O debate, que contou com vários participantes, era sobre o que tinha mudado em Portugal com o 25 de Abril e para onde caminhávamos política e socialmente. Durante a conversa, falou-se da educação e do estado das universidades portuguesas, que António disse que eram uma “anedota” e uma “tragédia”.

O argumento era de que, em Portugal, o foco do ensino está na “memorização do conteúdo” quando deveria estar na “estimulação e no desenvolvimento do sentido crítico.” Mas António foi mais longe e afirmou, durante o programa, que de todas as grandes universidades, nenhuma delas era portuguesas.

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As declarações geraram alguma discussão nas redes sociais e houve quem acusasse António de ter uma visão privilegiada e desfasada da realidade. Em causa estava o facto de o jovem estudar na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, onde se encontra a terminar o Mestrado em Filosofia.

“A maneira como o jovem António fala tem muito que evoluir. Nem todos nasceram num berço de ouro”, escreveu um utilizador no Facebook do programa “Prós e Contras”.

No entanto, António explica à MAGG que os seus privilégios são outros. Nomeadamente, o facto de ter pais que “trabalham em meios ligados à cultura” — o que fez com que desde criança tivesse “conversas interessantes durante o jantar.”

“Tenho privilégio de estudar em Cambridge porque trabalhei para lá chegar”, diz à MAGG. Com apenas 16 anos, conta, foi sozinho para a Austrália onde concluiu o ensino secundário em regime de trabalhador-estudante.

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Enquanto durante o dia eram os estudos que lhe ocupavam o tempo, durante a noite trabalhava numa churrasqueira a grelhar frangos.

“Acabei o ensino secundário com média de 19. Fui o melhor aluno da minha escola, e entrei para uma das melhores universidades do mundo, onde recebi uma bolsa que me pagou parte dos estudos. Mas a minha educação formal é uma conquista minha que me permite fazer uma boa análise daquilo que leio e oiço”.

E António Rolo Duarte não tem dúvidas de que o que vai ouvindo e lendo sobre os cursos portugueses não “augura nada de bom”.

As nossas universidades não são boas?

No entanto, a verdade é que, em 2018, a Universidade Nova, a Universidade Católica e o ISCTE foram integrados num ranking mundial do Financial Times como tendo os melhores Mestrados em Gestão. Mas embora António acredite que há bons institutos com bons professores, também defende que nem toda a gente em Portugal estuda Gestão.

“Regra geral, a qualidade de ensino e baixa. Passa pela cabeça de alguém ir aprender para a Universidade de Évora? Ou para a da Beira Interior? Ou para a do Algarve? Não brinquem comigo. Em Inglaterra, pelo contrário, encontramos dezenas de universidades fabulosas pelo País inteiro. Eu estudo em Cambridge. Mas qualquer jovem que estude em Southampton, em Exeter, em Cardiff, em Aberdeen terá uma educação espetacular. O mesmo não se passa em Portugal”, defende. 

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Apesar das reações nas redes sociais, António mantém a opinião e diz que o problema começa no ensino básico onde se denota uma “primazia dada à aquisição de conhecimento que é altamente perniciosa”.

“O pensamento crítico e as capacidades criativas são negligenciadas logo no ensino básico, o que acaba por se refletir mais tarde. Mas a forma como os cursos universitários são venerados em Portugal é outros dos problemas”. Segundo o estudante, falta apreço pela educação vocacional.

Sobre o que é preciso mudar nas universidades portuguesas, António aponta duas ideias: humildade e transparência. “No Reino Unido, trato os meus professores pelo primeiro nome. Em Portugal é ‘senhor doutor’ para aqui e ‘professor doutor’ para lá. Essa formalidade forma barreiras desnecessárias e contraproducentes na comunidade académica.”

Quanto à transparência, diz que faz falta um sistema de avaliação semelhante àquele que existe nas faculdades britânicas e australianas, onde todos os trabalhos e exames são avaliados por dois professores e um examinador externo.

“No fim desse processo há uma avaliação e o aluno pode questionar qualquer parte deste processo. Comecemos pela humildade e pela transparência para estarmos num bom caminho”, conclui.